Cannes 2025: Confira o que achamos de 40 filmes do Festival
O Metrópoles conferiu mais de quarenta produções, incluindo o premiado O Agente Secreto, que consideramos o melhor da mostra.
atualizado
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Após uma breve ausência, o Metrópoles retorna ao Festival de Cannes para um ano inesquecível. Após um prêmio em Berlim para Gabriel Mascaro e seu “O Último Azul”, e o Oscar de melhor filme estrangeiro para “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, o cinema brasileiro encerra o mês com mais três prêmios para “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Com Juliette Binoche na presidência do júri, foi a vez do cinema iraniano—da qual ela já participou—levar pra casa o prêmio máximo.
Foi uma seleção de muitas surpresas, e o Metropoles assistiu a 40 sessões de cinema nos doze dias de festa do cinema mundial. Ao todo foram 1 Excelente, 8 Ótimos, 11 Bons, 15 Regulares e 7 filmes Ruins.
Confira o que achamos a seguir:
Excelente — 5 Estrelas

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
Tentando evadir forças sombrias em seu encalço, o misterioso Marcelo volta a sua cidade natal de Recife em busca de apoio para escapar do clima repressivo de um Brasil ainda à mercê de uma ditadura militar. Infiltrado em uma espécie de cartório, Marcelo passa os dias tentando recuperar algum documento da finada mãe, enquanto espera a entrega de novos documentos pessoais para si e para o filho. O plano é fugir novamente, só que, desta vez, com o filho. Serão dias tensos entre a nostalgia e a ameaça. Em outro núcleo, dois matadores de aluguel, Augusto (Roney Villela) e Bobbi (Gabriel Leone), estão em seu encalço.
O regresso de Marcelo gera um perigo permanente, já o de Kleber se torna a parte mais preciosa do filme. Ignorando a objetividade de thrillers norte-americanos, este filme, mais que brasileiro, recifense, deleita-se em apresentar ao mundo uma cidade exuberante, inserida num passado cheio de complicações e resistência. Fotografado pela russa Evgenia Alexandrova, O Agente Secreto tem cores e texturas que depõem contra o tema do apagamento causado tanto pela ditadura militar que reinava à época quanto ao capitalismo moderno, que transformou cinemas de rua em igrejas e farmácias.
Ótimo — 4 Estrelas

Yek Tasadef Sadeh, de Jafar Panahi
Um possível ajuste de contas começa com um atropelamento: Eghbal, voltando para casa com a esposa e a filha no carro, passa por cima de um cão numa noite escura. O acidente arrebenta o veículo, mas a família consegue chegar até uma oficina mecânica. Vemos que Eghbal é mais azarado do que aparenta. Quando sai do carro, caminha mancando, a perna falsa fazendo um barulhinho bem particular.
Um dos mecânicos, Vahid, enxerga no cliente azarado algo traumático. Ele se esconde enquanto o colega dá um jeito no carro, e depois segue a família. No dia seguinte, na primeira oportunidade, Vahid sequestra Eghbal, acusando-o de ser seu torturador, anos atrás. Na ameaça de ser enterrado vivo, Eghbal se defende da acusação, o suficiente para que Vahid hesite. Assim, o mecânico vai atrás de outros amigos, torturados no passado, para sanar a dúvida.

Sentimental Value, de Joachim Trier
Nora Borg é uma atriz. Prestes a estrear uma peça, ela começa a hiperventilar e ter um ataque de pânico logo antes das cortinas abrirem. A peça é de Ibsen e, apropriadamente, ela pede que seu parceiro de cena lhe dê um tapa na cara para afugentar o medo. A técnica funciona, talvez porque este outro ator é o homem casado com quem Nora tem um caso.
Só que desta vez, nem é Nora a pior pessoa da história. Tal título deverá ir para seu pai, Gustav (Stellan Skarsgård), um diretor de cinema que abandonou a mulher e suas duas filhas tempos atrás. A outra filha, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), teve um papel enquanto criança, mas se sentiu abandonada pelo pai logo após as filmagens. Agnes quer vender a antiga casa da família, e enquanto busca objetos com Nora, descobre que o pai está planejando uma filmagem no local. Com seus dias de glória no passado, Gustav resolve fazer um filme sobre sua mãe, que se matou na casa, em decorrência de traumas da 2a Guerra. Ou seja, as feridas entre os personagens sequer precisam de faíscas para se incendiarem. Vale dizer que Gustav quer Nora, com quem ele não fala há anos, no papel principal.

Sound of Falling, de Mascha Schilinski
A adolescente Erika, com uma perna só e de muletas, caminha pelo corredor de um casarão rural. Fora de cena, seu pai chama seu nome, pedindo que ela venha ajudá-lo com os porcos. Erika levanta o vestido e vemos que sua outra perna está amarrada por trás, simulando a deficiência de tio Fritz, acamado. Ela lhe passa as muletas e sai da casa, indo junto ao pai, que prontamente a estapeia pelo atraso. Erika vira o rosto para a janela de Fritz, sorrindo. A variação de sentimentos, entre a brincadeira e a opressão, o desejo e o sofrimento, é o que dará o tom de quase um século de histórias das mulheres deste casarão.
Sound of Falling é uma refeição, só que às vezes a diretora parece ter jogado todos os seus ingredientes num liquidificador. A confusão entre temporalidade e personagens ocorre mais do que deveria, mas o completo controle exercido entre roteiro e direção indicam que é uma escolha proposital. A cacofonia de diferentes vozes que servem de narração também são difíceis de identificar, mas talvez a isto se some a falta de conhecimento do idioma alemão (as legendas não identificam as narradoras). As imagens texturizadas, como película, também evocam a simbologia da memória.

Nouvelle Vague, de Richard Linklater
É preciso sair do mar pra ver o mar–talvez só isso explique o sucesso estético e narrativo de ter saído de um diretor americano o melhor filme sobre a Nouvelle Vague, o mais impactante movimento do cinema francês. Apresentar um filme francofônico com sotaque ianque sempre foi uma proposta arriscada no Festival de Cannes (aqui a menção especial vai a Sofia Coppola e seu “Marie Antoinette”, vaiado e natimorto na edição de 2006). Com o verdadeiro Jean-Luc Godard já falecido, o filme perde a pessoa que seria seu maior crítico, sem dúvidas. Realizado posteriormente, é um fiel retrato espiritual de um grupo de jovens críticos que resolveram fazer cinema.

Zan O Bacheh, de Saeed Roustaee
Mahnaz é uma viúva que mora com a irmã, Mehri, mãe e dois filhos. Sua situação domiciliar está prestes a mudar, já que é noiva do motorista de ambulância Hamid, mas o romance ainda precisa se firmar. Talvez a fundação não esteja tão sólida quanto se imagina. Quando Hamid organiza um encontro entre seus pais e Mahnaz, pede que ela esconda na casa qualquer traço dos filhos que ela já tem. É um pedido que diz muito sobre o que se espera das mulheres, mas neste caso, as consequências são trágicas.

Eleanor the Great, de Scarlett Johansson
Eleanor Morgenstein mora na Florida e divide o quarto com a melhor amiga, Bessie. As duas tem uma rotina, levantando cedo, indo ao mercado e, pelo menos na a personalidade de Eleanor, se divertindo sendo boa de bater boca sempre que se incomoda com alguma coisa. Eleanor é a pessoa exuberante, enquanto Bessie, que sobreviveu aos campos de extermínio da Segunda Guerra Mundial, é mais recatada e resignada. Só que um dia Bessie morre de repente, e Squibb resolver se mudar pro apartamento da filha Lisa, em Nova Iorque. Ainda tentando se estabelecer, ela é levada para um centro comunitário judeu aonde, desavisada, senta em uma roda de conversas de sobreviventes do Holocausto.

Orwell: 2 +2 =5, de Raoul Peck
O livro mais importante do século 21 foi publicado em 1949, por um inglês que assinava como George Orwell. Tratava de uma distopia futura, hiper-vigilante e repressiva. Pois se o ano de 1984, que deu o título ao trabalho ainda parecia longe naquela época, o novo documentário de Raoul Peck deixa claro que avançamos para além do que Orwell previu. O filme é uma jornada pessimista sobre a paisagem midiática e governamental dos dias de hoje, comparando a situação da democracia àquela do autor, acometido por tuberculose.

Vie Privée, de Rebecca Zlotowski
Um dia, a terapeuta Lilian Steiner recebe a notícia que sua paciente Paula se suicidou. Só que o ato não faz sentido para a médica, então ela começa uma investigação própria. Adicionando uma pitada de surrealismo é que, durante a jornada, Lilian está tão perdida que apela até para um tratamento que ajudou outra paciente a largar os cigarros: sessões de hipnose. É o toque especial que até o próprio Hitchcock inseriu em algumas de suas tramas. Talvez o senso de obrigação venha de um certo instinto de culpa já que o viúvo de Paula, Simon, culpa ela pela morte, executada com uma overdose de remédios receitados.
Bom — 3 Estrelas

Sirât, de Oliver Laxe
Sirât, somos informados por um letreiro no início do filme homônimo, é uma palavra árabe que significa ´caminho´, e geralmente denota uma travessia purgatorial, entre o Céu e o Inferno. Aqui, a metáfora parece muito com uma rave no deserto do Marrocos. Um dos trunfos do diretor Oliver Laxe é estruturar sua narrativa em uma experiência sensorial. O filme começa com uma parede de caixas de som sendo acopladas umas as outras na paisagem arenosa. Sem pressa, uma música de rave começa a tocar e um público se aglomera. A festa parece acontecer de uma maneira orgânica, como se uma comunidade se formasse espontaneamente. Só que ali no meio, um homem e uma criança estão em busca de algo.
É uma família pós-apocalíptica vivendo nos extremos, e logo descobrimos, quando o exército aparece para acabar com a festa, que o filme não se passa no mundo como conhecemos agora. Enquanto nossos personagens escapam, e seguem rumo à próxima rave, ouvimos via transmissões de rádio que um conflito mundial está acontecendo, e que o fim está próximo. Qualquer previsão sobre o que está para acontecer na vida destas pessoas cai no risco de ser ridicularizada, pois o que o diretor tem em mente é parafrasear Shakespeare, quando este escreveu que, na visão de Deus, somos como moscas para meninos travessos–prontos para sermos esmagados.

Die My Love, de Lynne Ramsay
Deixando a vida adolescente pra trás, Grace e Jackson se mudam para a casa que Jackson herdou, em uma área rural, longe da civilização. É lá que a sanidade do casal será testado. Embora Ramsay nunca revele tudo que pretende com seu roteiro, a indicação é que o casal não será o mesmo após o nascimento do filho. Jackson trabalha com transporte, e por isso passa longos períodos fora de casa.
Trabalhando o isolamento com arquétipos simples, Lawrence e Pattinson parecem se divertir juntamente com a equipe técnica do filme. 2025 se comprova, pelo menos na arte, como mais um ano de peso na reflexão da sobrecarga no feminino e da incapacidade masculina perante o que a sociedade espera de ambos. Seria fácil dizer que o filme trata de depressão pós-parto, mas todo o trabalho técnico do filme indica que há algo mais complexo em jogo. É uma primazia raramente vista no cinema de relacionamentos.

The Mastermind, de Kelly Reichardt
James vive uma pacata e privilegiada vida de pequena cidade americana. A diferença é que ele está prestes a executar um roubo num museu de arte moderna. Parece até ser uma compulsão, já que, na primeira cena, o vemos observando um guarda distraído enquanto ele abre uma caixa de vidro e surrupia um bonequinho exposto. Em casa, James tem esposa e dois filhos pequenos. Sua vida, entendemos, é idealizada, e a psicologia pop nos diz que ele sente a necessidade de cometer um roubo de arte para compensar alguma falta que sente. Talvez seja porque James uma vez ele abandonou a faculdade de artes e não tomou um rumo profissional na vida.

Resurrection, de Bi Gan
Numa realidade alternativa, seres humanos descobriram que conseguem viver eternamente quando param de sonhar. A prática seria o que nos suga a energia vital. Um só homem, o Fantasma, ainda consegue fechar os olhos e viver algo onírico, são as vidas dele que veremos a seguir, em diferentes gêneros cinematográficos. Só que o diretor não se interessa tanto em explicar o que estamos vendo: são, de fato, sonhos do Fantasma, ou vivências reais que ele consegue através de sua prática? A resurreição do título é algo real?

Sorry, Baby, de Eva Victor
Agnes (a atriz e roteirista Eva Victor) é uma jovem professora em uma universidade americana, um daqueles lugares de ensino que se prezam por ter um ensino livre e progressista, populada por estudantes e professores bem de vida que também sustentam uma certa homogeneidade idealista. Um destes docentes, ainda quando Agnes e Lydie eram estudantes, foi Preston Decker, que tem uma química interpersonal excelente com Agnes. Tão boa, aliás, que Lydie logo menciona para a amiga que os dois deveriam transar. Certa noite, Agnes e Preston estão sozinhos, e algo muito problemático acontece.

Splitsville, de Michael Angelo Corvino
Carey e sua esposa Ashley estão viajando de carro, rumo a casa de amigos para um final de semana juntos. Só que a relação entre os dois está um tanto estremecida, pelo menos na visão de Ashley, que quer se separar. É um choque pra Carey, que descobre quase sem querer. Caso isso não bastasse, os dois ainda tentam um ato sexual aventuroso e se envolvem, tangencialmente, num acidente com morte. Se todo o absurdo dos primeiros quinze minutos desta comédia não servem para marcar Carey como um azarado, apertem os cintos.

Dangerous Animals, de Sean Byrne
Existem gêneros e premissas cinematográficas que são tão batidos a ponto de ficarmos gratos por mera competência. Como filmes de serial killers. Ou filmes de ataques de tubarão (o mais famoso deles praticamente inaugurou a era do blockbuster). A proposta do diretor Australiano Sean Byrne é divertida: unir os dois. Próximo passo: contar dinheiro. Tuckeropera uma embarcação para passeios em alto-mar que oferece encontros com tubarões. A freguesia veste equipamento de mergulho, entra numa gaiola de proteção, e submerge via um guindaste para curtiros predadores de pertinho. O que ninguém parece perceber é o quanto a proposta cede de controle e dominação a Tucker que, descobrimos, é um serial-killer.

Exit 8, de Genki Kawamura
Um típico jovem urbano japonês, em pé no metrô, ouve música no seu smartphone, tentando cuidar de sua própria vida. A primeira interrupção vem logo: o choro de um bebê, dentro do vagão, e a bronca do pai. Ele tenta prestar atenção na música novamente, mas sua ex-namorada o liga com uma notícia quase coincidente. Ela está grávida, mas não sabe se quer ter o bebê. Nosso protagonista, no princípio de uma crise asmática, tenta correr para sair do trem e da estação. Sua odisseia fica um pouco complicada depois que os corredores da estação de metrô vão se replicando, curva após curva, de maneira que ele parece estar andando em círculos. O jovem, nosso jovem, está preso num fenômeno comum dos video games, um time loop.

Left-Handed Girl, de Shih-Ching Tsou
I-Jing é a mulher mais nova do trio que compõe a carga dramática da história. Ela tem seis anos, e está se mudando para Taipei com sua mãe Chu-Fen e irmã mais velha, I-Ann. A causa de sua prévia partida é gradualmente explicada num roteiro extremamente hábil em esconder seu real propósito até o momento certo. Escrito e dirigido por Shih-Ching Tsou, o filme tem como co-roteirista Sean Baker, o americano indie que dominou o Oscar ano passado com Anora, filme que venceu a Palma de Ouro em 2024. Assim, é um filme de travessia, entre locais, entre fases da vida e entre diferentes moralidades.

The Chronology of Water, de Kristen Stewart
Kristen Stewart é praticamente realeza em Cannes. Além de seus filmes como atriz, apresentou seu primeiro trabalho na direção no festival de 2017. Era um curta-metragem chamado Come Swim, aonde um homem anônimo luta contra um possível afogamento. O filme não é literal, mas um retrato impressionista de pensamentos e emoções, indicando que a estrela buscava uma estética bem autoral para fazer firmar sua voz. Agora em 2025, apresenta seu primeiro longa-metragem que, curiosamente, também lida com uma personagem envolta em água. A história é de uma figura real, a nadadora e depois escritora Lidia Yuknavitch.

Highest 2 Lowest, de Spike Lee
David King é um pai de família que poderia estar preparando a aposentadoria. Seu filho está prestes a entrar na faculdade e sua produtora musical, Stackin´ Hits, será comprada por um grupo internacional. Sua esposa está contente e engajada em trabalho filantrópico. Não é o suficiente. Para muitos, a impressão é que os dias de David como um produtor musical já estão no passado, que o homem com “os melhores ouvidos do negócio” está velho. E por isso, David economizou, planejou e acabou de propor a compra de ações de seu sócio. Assim, terá o controle absoluto sobre a empresa e poderá voltar a formar novos talentos. Pelo menos até seu filho, saindo de um treino de basquete, ser sequestrado.
Regular — 2 Estrelas

Eddington, de Ari Aster
Joe Cross, xerife da pequena cidade de Eddington, é castigado pelas mulheres em sua vida. Talvez por isso ele venha tentando se impor com o prefeito, Ted Garcia. A época é maio de 2020, no já iniciado lockdown contra a Covid-19 e a pequena cidade sulina começa a incorporar e atrair toda a hostilidade conspiratória que rodou grande parte da população mundial. Está armado então um combate entre esquerda e direita, progressista e conservador. Só que (ainda bem) não é este o interesse do roteirista e diretor.
Eddington envolve a criação de um universo inteiro, como microcosmo americano de 2020, misturado a hostilidade e todas as teorias de conspiração possíveis. O cardápio de personagens é extenso. Além dos já mencionados temos o líder de um culto, um mendigo, três adolescentes que começam uma campanha do movimento Vidas Negras Importam e outros três policiais, um branco, um negro, e um membro de uma reserva indígena. Em diversos momentos, vemos o que Aster realmente quer: criar o máximo de confusão possível com os personagens que criou. É difícil achar que ele se importe com qualquer um deles.

The Phoenician Scheme, de Wes Anderson
Benicio del Toro vive Zsa-Zsa Korda, industrialista venal e corrupto, e Mia Threapleton vive Liesl a única mulher dentre a prole de Zsa-Zsa, uma noviça prestes a fazer seus votos religiosos e virar freira. Korda tem um último legado capitalista para executar, o esquema fenício do título, e o fato de que, semana sim, semana não, sofre um atentado contra sua vida, ele decide raptar a própria filha e instruí-la em todos os seus métodos. Inicialmente resistente, Liesl logo vê a oportunidade divina de transformar um homem mau em homem bom.

Dossier 137, de Dominik Moll
Stéphanie é uma policial do departamento que investiga os próprios policiais. É uma tarefa ingrata, mas fundamental, como caracterizada na performance de uma das atrizes mais capazes da França. O caso 137 acontece durante um dos inúmeros protestos “gilets-jaunes” que aconteceram contra medidas econômicas de austeridade implementadas pelo governo Macron. Um adolescente, Guillaume, é atingido no rosto por um tipo de bala de borracha, de uso policial, que o deixa com dano cerebral. O caso ganha atenção nacional (não menos, como o próprio filme atesta, pelo fato da vítima ser um menino branco) e a polícia deve uma resposta. “Por que ninguém gosta da polícia?”, pergunta o filho pré-adolescente de Stéphanie.

Jeunes Mères, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
A narrativa de estética documental acompanha as moradoras de um abrigo para jovens mães, em diferentes estágios de gestação ou pós-parto. Meninas sem meios de se sustentarem ou sem apoio de parceiros ou familiares, suas vidas problemas de peso como abandono, abuso de drogas ou abuso físico. Dentro do abrigo, mulheres mais velhas servem como acolhimento psicológico e treinamento para cuidados no novo papel de vida. Apesar de ser uma estrutura para uso no desespero, a limpeza e organização da instituição social seria de deixar qualquer brasileiro boquiaberto.

Two Prosecutors, de Sergei Loznitsa
É um tanto ameaçador que a Rússia atual, um regime ditatorial e censurador, permita a realização de um cinema que possa criticá-la. Pode parecer um deslize, ou um sinal de negligência, mas a verdade é que seus governantes simplesmente não veem esta leva de filmes como uma ameaça. Esta metáfora parece percorrer “Two Prosecutors”, drama histórico que começa com um prisioneiro idoso em frente a um forno a carvão, queimando uma enorme pilha de cartas dos detentos, uma a uma. O sistema prisional, veja, permite que seus “hóspedes” listem suas reclamações; só não permite que estas escapem os muros.

La Petite Dernière, de Hafsia Herzi
O termo “La Petite Dernière” é análogo a “caçula”, em uma tradução livre, pois é assim que a família de Fatima a enxerga. Exceto por alguns momentos importantes, porém, o filme de Hafsia Herzi está interessado em quem é Fatima fora do ambiente domiciliar. O filme acompanha sua jornada de descoberta sexual no ano em que ela se forma do ensino médio e começa uma faculdade, rito de passagem tido como os primeiros passos de uma independência na vida dos jovens. Muçulmana e lésbica, Fatima esconde seus conflitos internos dentro de um estoicismo duro.

Les Aigles de la République, de Tarik Saleh
George Fahmy está sofrendo as auguras de quem atingiu o topo de sua profissão. Astro do cinema egípcio, caiu nas graças do ditador atual, que espera uma adaptação de sua história de vida com a estrela no papel. Apelidado de “Faraó das Telas”, George está cada vez se aprofundando mais num marasmo atual: como misturar arte e política, especialmente de um governo que busca reprimir o seu povo? A narrativa deixa claro que George fica ressentido pela imposição (senão não haveria drama), mas o filme reluta em correr riscos em seu posicionamento.

Renoir, de Chie Hayakawa
Fuki é bem mais fixada em imagens de morte do que deveria, ao estranhamento de algumas das pessoas em seu redor, incluindo a professora da 5a série, que chama uma reunião de pais para discutir a redação da menina, “Eu quero ser uma Órfã”. Não é nada de novo para sua mãe, Utako, que parece conhecer a filha plenamente e nem se preocupa muito com ela. Seu tempo é quase todo consumido com trabalho, e por isso deixa Fuki bem solta em suas aventuras do dia-a-dia. Outra questão é que o marido, pai de Fuki, está com câncer terminal.

Miroirs No. 3, de Christian Petzold
Um dia, em seu jardim, Betty olha para a rua e seus olhos encontram os de uma mulher jovem, no banco de passageiro de um carro que passa. Esta é Laura, que está passeando com o namorado. Ao chegarem em seu destino, Laura, incomodada, pede que o par a leve a uma estação de trem próxima. O relacionamento está em crise, vemos. Na volta, passam novamente pela casa de Betty. Só que logo depois, fora da tela, ouvimos o acidente de carro em que o namorado de Laura morre. Ela, atônita e com amnésia, sai dos destroços e anda até a casa de Betty para pedir ajuda. Quando o marido e filho de Betty são expostos a Laura, tudo fica mais esquisito.

Pillion, de Harry Lighton
O jovem Colin, um tanto sem ambição, entre a partida da adolescência e a maturidade da vida adulta, mora na casa dos pais e trabalha no departamento de trânsito local. É uma comunidade pequena e cordial, aonde ele ainda passa as noites cantando no quarteto acapella de seu pai, Pete. Uma noite, num bar, Colin vai atrás do motoqueiro Ray, que já busca testar sua capacidade de submissão no estacionamento. É o começo de um romance S/M com mais sutilezas do que o esperado.

Factory Ceará Brasil, com Karim Aïnouz
Uma das entradas menos badaladas porém mais interessantes para a cinefilia Brasília, neste ano do Festival, é um curioso programa de mentoria chamado Directory´s Factory. A cada edição, um cineasta de renome é convidado para servir na produção de curtas-metragens dirigidos por jovens talentos de seu país natal. Este ano, que também é o ano em que o Brasil carrega o título de “país de honra” das festividades, foi Karim Aïnouz o escolhido. Além de ter longa carreira de exibição em Cannes, o brasileiro é originário do Ceará, lugar nativo dos 4 estreantes. Cada filme é co-dirigido por um brasileiro e outra presença internacional: Wara (Ceará) e Sivan Noam Shimon (Israel), Stella Carneiro (Alagoas) e Ary Zara (Portugal), Luciana Vieira (Ceará) e Marcel Beltrán (Cuba) e Bernardo Ale Abinader (Amazonas) e Sharon Hakim (França). Confira o perfil de cada filme.

Para Vigo Me Voy!, de Lírio Ferreira e Karen Harley
Um dos pioneiros do Cinema Novo, movimento cinemático que exportou filmes brasileiros pelo mundo, recebe justa homenagem com um documentário no Festival de Cannes deste ano. Carlos “Cacá” Diegues fazia cinema desde a década de 60, e faleceu em fevereiro deste ano, trabalhando ainda em seu próximo filme, a sequencia Deus é Brasileiro 2. Pelo título deste filme, talvez não exista maneira melhor de encerrar a carreira, com o otimismo de imaginar divindades que tomam partido por nosso país.

Honey Don´t!, de Ethan Coen
Uma mulher nua e um acidente de carro. Tudo revolve em torno do tráfico de drogas e é a detetive particular Honey O´Donahue que resolverá o caso. Além da mulher nua e do acidente de carro, ainda entornam o caldo uma igreja evangélica e artefatos de sexo masoquista. O pastor corrompido é ninguém menos que Chris Evans, conhecido por interpretar o Capitão América moderno. A It-Girl indie Aubrey Plaza é MG, policial que ajuda Honey no caso e na cama.

Partir un Jour, de Amélie Bonnin
Cécile é uma chef no estilo workaholic que ganhou renome ao vencer um reality show culinário. Prestes a abrir seu próprio restaurante, ela decide fazer uma viagem-relâmpago à cidade onde nasceu, pois seu pai acaba de sofrer um ataque cardíaco. O casal Gérard e Fanfan tem um restaurante à beira de uma rodovia que serve um público de caminhoneiros e viajantes, cuja cozinha simples contrasta com a linha de ´haute cuisine´ da filha. É a metáfora típica de centenas de comédias românticas, o atraso aconchegante do lar versus a ambição cosmopolita.

Bono: Stories of Surrender, de Andrew Dominik
Se falar de si mesmo é um ato narcisista, montar um filme inteiro ao seu redor e lança-lo no maior festival de cinema do mundo pode parecer um tanto exibido. Bono, astro de rock desde a década de 80 com a banda U2 tem este cachê, e o atributo mais interessante do filme aqui apresentado é que o filme se propõe a ser um espetáculo mesmo, de imagem e de som, que arrebata dentro de uma sala de cinema. Para isto, Bono conta com o diretor neo-zelandês Andrew Dominik, conhecido por fazer filmes que priorizam ambos estes fatores.
Ruim — 1 Estrela

The History of Sound, de Oliver Hermanus
Lionel é um jovem de família rural com aptidões musicais. Ele tem perfeito controle da voz e ainda vê sons e músicas expressos visualmente, por uma condição chamada de sinestesia. Uma bolsa de estudos leva Lionel para além das fazendas do Kentucky e, uma noite, ele é atraído por outro jovem, David, rico e urbano, que toca piano. É um match perfeito: Lionel cantando, e David tocando. Opostos se atraem, sendo o adolescente rural mais reservado e o cityboy bem descontraído e desenvolto.

Alpha, de Julia Ducournau
Uma doença misteriosa, que se espalha por contato sanguíneo, está assolando o mundo e, numa festa adolescente, a jovem Alpha volta pra casa com uma tatuagem amadora no braço. Tatuagem amadora, a gente sabe, é feita com agulha suja, e assim que sua mãe a vê, Maman, esta entra em pânico. Sendo médica, ela sabe exatamente o que pode acontecer se sua filha estiver infectada. Uma doença terminal e dolorosa.
Em seu terceiro longa-metragem, a trajetória da diretora francesa Julia Ducournau, que foi a grande vencedora do festival de 2021, chega a um ápice ambicioso, só que falho. O mundo que suas personagens habitam é ao mesmo tempo íntimo e épico, na circunstância de que o drama de três familiares se dá num cenário apocalíptico, de corpos transformados em mármore branco e de ventos que espalham terra vermelha e árida.

Fuori, de Mario Martone
Aos 50 anos, no meio da década de 80, Goliarda Sapienza está começando uma pequena sentença numa prisão feminina, e lá fará algumas amizades que a sustentam durante o filme. Empobrecida, sua prisão é decretada por ter sido pega com joias que roubara de uma amiga. O filme oscila entre suas temporalidades, mesclando a história de Sapienza e suas amigas, com o tempo na prisão. Mais velha que Roberta e Barbara, Sapienza fica conflitada entre viver como elas, ou servir como a mãe que elas nunca tiveram. A conexão ainda indica a possibilidade de possibilidades eróticas, mesmo que só no âmbito da fantasia.

Romería, de Carla Simón
Marina acaba de completar dezoito anos e ganhou uma bolsa universitária para estudar cinema em Barcelona. Só que a burocracia espanhola complica sua documentação: Marina é órfã desde cedo, e se por um lado foi adotada por uma família estável, precisa de uma assinatura de seu avô biológico, que mal conhece. Quando Romería começa, a protagonista já embarcou rumo à pequena vila litorânea para encontrar seu tio, Luis. A família de seu pai biológica fica assustada com o tanto que a jovem parece a mãe, ao mesmo tempo que alguns (os avós) ainda não aceitaram como alguém da família.

Mission: Impossible – The Final Reckoning, de Chris McQuarrie
Há muito se diz que a trama nem importa num filme de Missão Impossível. É sempre a mesma coisa. Ethan e sua equipe atrás de uma coisa qualquer enquanto um monte de gente caça a equipe. The Final Reckoning é uma continuação direta da trama anterior, aonde a equipe de Ethan Hunt trava luta direta com um sistema de inteligência artificial apelidado de “A Entidade”. No começo deste filme, a Entidade está com quase controle total das armas nucleares do planeta, e o apocalipse está para acontecer. Fake news, com áudio e vídeo gerado na inteligência artificial, deixaram populações mundo afora em conflito perpétuo. Qualquer semelhança com os dias de hoje não é metafórica.

The Six Billion Dollar Man, de Eugene Jarecki
Já tem muito tempo que o site de vazamentos jornalísticos WikiLeaks mudou o mundo. Fundado em 2010, o portal foi peça fundamental em formar a consciência política hoje, que aceita, a priori, que governos ao redor do mundo mentem descaradamente sobre suas atividades internacionais. Edward Snowden, dissidente americano, talvez seja seu descendente mais famoso, assim como Julian Assange, o fundador. Ironicamente, apesar de ser um fenômeno tão importante para a história do século 21, hoje o WikiLeaks está praticamente esquecido. E muito disso tem a ver com as peripécias diplomáticas de Assange.

Dalloway, de Yann Gozlan
Clarissa é uma escritora que já teve sucesso enquanto autora de ficção infanto-juvenil. Assim como todos os outros escritores que protagonizam filmes, ela está sofrendo de um bloqueio criativo, e por isso aceita um projeto de residência artística que envolve o uso de uma assistente virtual, Dalloway. A IA toma conta de tudo na casa, desde as compras de mercado até a agenda de Clarissa. Pois se o smart-home pode ser comparado com a nave espacial de 2001: Uma Odisseia no Espaço, também é certo afirmar que Dalloway compartilha muitas diretrizes com HAL.
