Cannes: Resurrection, de Bi Gan

Filme indecifrável, impecável, para quem gosta, insuportável para quem não gosta.

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Resurrection
1 de 1 Resurrection - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

O novo filme do diretor Bi Gan, cultuado por executar planos-sequencia de longuíssima duração, chega no final do Festival de 2025 com uma visão arrebatadora. Parte história do cinema, parte tratado sobre a China, parte mistério melodramático, Resurrection ainda impressiona com um feito técnico e de extravagância cinematográfica, se movendo entre 4 ou 5 modos e texturas, começando no Expressionismo Alemão e chegando até o cinema Asiático de crime. Tudo baseado na capacidade humana de sonhar. Para o diretor, o que vemos nas telas é o equivalente ao que ruminamos no inconsciente.

Numa realidade alternativa, seres humanos descobriram que conseguem viver eternamente quando param de sonhar. A prática seria o que nos suga a energia vital. Um só homem, o Fantasma, ainda consegue fechar os olhos e viver algo onírico, são as vidas dele que veremos a seguir, em diferentes gêneros cinematográficos. Só que o diretor não se interessa tanto em explicar o que estamos vendo: são, de fato, sonhos do Fantasma, ou vivências reais que ele consegue através de sua prática? A resurreição do título é algo real?

Estudantes de física se lembram do Gato de Schrödinger, um experimento aonde um gato é trancado dentro de uma caixa com um composto químico que tem 50% de virar tóxico e matá-lo. Sem conseguirmos ver o que acontece com o gato, é impossível constatar se o felino está vivo ou morto. Por isso, Schrödinger estabelece, temos que caracterizar o gato como vivo E morto. A mesma coisa acontece com Resurrection: ou o filme é um dos piores do Festival, ou um dos melhores. Por isso, a única maneira de se construir um comentário sobre ele é identificando-o como péssimo E como excelente.

Uma seção envolve um templo e uma estátua budista, outro uma loja cheia de espelhos durante a 2a Guerra Mundial. Na parte mais compreensível, o Fantasma habita um vigarista tentando rodar um esquema com a ajuda de uma garotinha e, no mais incrível, um homem e uma mulher vagam pelas ruínas de uma cidade na véspera do Ano Novo de 2000.

É uma pena que David Lynch não esteja aqui para ver, pois a ambivalência entre sonho, pesadelo, vida acordada e cinema é o que Bi Gan mistura na maior realização pós-Lynch até hoje. (O último longa-metragem do americano, Inland Empire, também passava das 3 horas, e ele contava o retorno de Twin Peaks como um filme só de 19 horas.)

Avaliação: Ruim ou Excelente, 1 ou 5 estrelas…

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