Cannes: Miroirs No. 3, de Christian Petzold
Um pouco de mais do mesmo para o diretor alemão.
atualizado
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Quando Alfred Hitchcock explorou a ideia de identidade força em Um Corpo que Vai, inaugurou uma das mais poderosas ramificações dos temas cinematográficos. Tal ideia já vinha da Grécia antiga, claro, mas a perversidade na qual o diretor inglês mergulhou sua história foi o diferencial. Um de seus descendentes é o alemão Christian Petzold, e seu novo filme, Miroirs No. 3, talvez seja sua obra hitchcockiana mais minimalista. Ao mesmo tempo, serve como uma síntese de vários outros projetos prévios, embora não adicione nada de novo ao caldo.
Em vez de um detetive obcecado, a protagonista é uma dona de casa chamada Betty (Barbara Auer). Um dia, em seu jardim, Betty olha para a rua e seus olhos encontram os de uma mulher jovem, no banco de passageiro de um carro que passa. Esta é Laura (Paula Beer), que está passeando com o namorado. Ao chegarem em seu destino, Laura, incomodada, pede que o par a leve a uma estação de trem próxima. O relacionamento está em crise, vemos. Na volta, passam novamente pela casa de Betty. Só que logo depois, fora da tela, ouvimos o acidente de carro em que o namorado de Laura morre. Ela, atônita e com amnésia, sai dos destroços e anda até a casa de Betty para pedir ajuda.
Os nomes destas mulheres não é coincidência. São uma referência a Cidade dos Sonhos, filme de David Lynch onde um acidente de carro provoca amnésia numa personagem central. A atriz que a interpreta se chama Laura e a personagem que acaba ajudando-a após o acidente se chama Betty. A Betty de Petzold, porém, não está tão preocupada em ajudar sua Laura a reencontrar sua vida. Esta jovem a lembra de outra pessoa, e por isso Betty a convida a morar com ela. Em pouco tempo, Laura está usando as roupas desta pessoa que se foi, cozinhando como ela fazia e tocando piano como ela tocava. Apesar de um contato com a polícia e com uma ambulância, Laura não vê nada de errado em se hospedar com Betty até se recuperar.
Quando o marido e filho de Betty (Matthius Brandt e Enno Trebs) são expostos a Laura, tudo fica mais esquisito. A relação entre eles e Betty está obviamente estremecida, e ambos estão em dúvida se a presença desta estranha ajuda ou adia a solução para os problemas emocionais de todos. Parece um prato cheio para o roteirista e diretor, mas tudo é feito sem melodrama e da maneira mais seca possível. O Miroirs No. 3 do título, além de remeter a imagem da duplicação de identidade perante um espelho, é uma peça de Ravel que Laura toca no piano. O espectador desconfia das dinâmicas envolvidas nestes relacionamentos antes da própria moça.
É um filme confiante e econômico, porém derivativo para Petzold. Outros filmes do diretor, em especial Phoenix, de 2014, percorrem território parecido com melhor emoção e afetividade. O diretor está sempre com um projeto novo, e talvez, sem tempo para se arejar, tenha caído na repetição.
Avaliação: Regular
