Cannes: Alpha, de Julia Ducournau
Diretora francesa, ganhadora da Palma de Ouro em 2021, volta com filme de estética ambiciosa mas história fraca.
atualizado
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Quando diretores tem grande sucesso em seus filmes, seja com bilheteria ou premiação, recebem o que a indústria cinematográfica chama de “cheque em branco”. É o momento de realizar o filme que sempre sonhou mas para o qual nunca antes teve orçamento suficiente. Em seu terceiro longa-metragem, a trajetória da diretora francesa Julia Ducournau, que foi a grande vencedora do festival de 2021, chega a um ápice ambicioso, só que falho. O mundo que suas personagens habitam é ao mesmo tempo íntimo e épico, na circunstância de que o drama de três familiares se dá num cenário apocalíptico, de corpos transformados em mármore branco e de ventos que espalham terra vermelha e árida.
Uma doença misteriosa, que se espalha por contato sanguíneo, está assolando o mundo e, numa festa adolescente, a jovem Alpha (Mélissa Boros) volta pra casa com uma tatuagem amadora no braço. Tatuagem amadora, a gente sabe, é feita com agulha suja, e assim que sua mãe, Maman (Golshifteh Farahani), esta entra em pânico. Sendo médica, ela sabe exatamente o que pode acontecer se sua filha estiver infectada. Uma doença terminal e dolorosa.
A metáfora que todo mundo parece enxergar no filme é com a epidemia de AIDS que começou a acometer jovens ao redor do mundo na década de 1980. A morte, expressada como uma conversão de carne humana em mármore, se transformaria numa homenagem ao martírio destas vítimas históricas. Só que além de criar este imagético, Ducournau parece não ter outra direção para sua metáfora. A trama entre mãe e filha, da inconsequencia juvenil versus a preocupação adulta se complica com a chegada de Amin (Tahar Rahim), irmão de Maman e tio de Alpha, um viciado recorrente.
Com este trio, o filme oscila entre dois tempos distintos: a infância e a adolescência de Alpha. Seu momento mais agridoce é aquele em que a Alpha de 5 anos de idade (Ambrine Trigo Ouaked) vê as cicatrizes de agulha no antebraço do tio e usa uma caneta para conectá-las, como se formassem uma constelação. É o momento mais bonito do filme, aonde algo tão devastador quanto as marcas do vício se convertem em algo pelo olhar da criança. Ninguém explica, porém, porque o emaciado Amin, claramente dopado, foi deixado sozinho com a sobrinha de cinco anos.
O roteiro não embasa nenhuma das decisões de seus personagens, exceto pela sofrência e pelo amor gerado dentro de uma família. A tatuagem de agulha compartilhada que marca o braço de Alpha é a letra “A”, mas qualquer relação com a versão metafórica da letra escarlate foge ao sentido. Qualquer relação com a pandemia real de Coronavírus que atingiu a humanidade enquanto Ducournau realizava seu filme anterior, aquele que ganhou uma Palma de Ouro, também se revela vazia.
O ponto alto da trama é a atuação de Rahim, cujo primeiro longa-metragem foi “Um Profeta”, filme que marcou o festival de 2009.
Avaliação: Ruim (1 estrela)
