Cannes: Orwell: 2 +2 =5, de Raoul Peck

Novo trabalho do documentarista trará muito pouco conforto para espectadores ao redor do globo.

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Orwell 2+2=5
1 de 1 Orwell 2+2=5 - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

O livro mais importante do século 21 foi publicado em 1949, por um inglês que assinava como George Orwell. Tratava de uma distopia futura, hiper-vigilante e repressiva. Pois se o ano de 1984, que deu o título ao trabalho ainda parecia longe naquela época, o novo documentário de Raoul Peck deixa claro que avançamos para além do que Orwell previu. O filme é uma jornada pessimista sobre a paisagem midiática e governamental dos dias de hoje, comparando a situação da democracia àquela do autor, acometido por tuberculose.

Muito da narração em voice-over vem dos diários de Orwell, cujo nome real era Eric Blair, enquanto ele convalescia. Foi disto que ele morreria, já em 1950, aos 47 anos, logo após a publicação de sua obra mais famosa. O responsável por dar voz ao texto é o ator Damien Lewis, mais conhecido no Brasil como protagonista da série Homeland. Seria curioso se Peck optasse por reproduzir a voz do próprio Orwell com inteligência artificial, mas ele parece ter decidido que talvez ofendesse. Irônico então o título da obra ser 2 + 2 = 5, frase que legitima a participação dos personagens da história ao totalitarianismo que os tortura.

É preciso dizer o tanto que os conceitos elaborados por Orwell previam o futuro? Mesmo quando o símbolo maior da vigilância do fascismo é o Big Brother, cujo nome hoje evoca um dos programas televisivos mais populares do Brasil? Talvez a morte da ironia, refletida no uso de conceitos horripilantes como título de entretenimento valha um documentário aparte.

Por isso, a escolha de Peck em revezar o contexto político mundial atual com detalhes da vida de Orwell, é uma atitude humanizadora para o filme. Torna o pessimismo tolerável, ao mesmo tempo que informativo. Denso, com um imenso trabalho de montagem de som, imagem e animação, o totalitarianismo que se aproxima conversa muito com a estruturação da mídia jornalística de hoje (sobra até para a família Marinho). Fascinante a todo momento, o homem, sua obra e nossa civilização.

Os documentários de Peck geralmente tem uma temporalidade de décadas, senão séculos, e é esta ambição que o permite uma análise sociológica dos tempos em que vivemos. Aqui, ele comporta tudo o que quer dizer em um filme de 2 horas, o que torna o filme mais disponível, comercialmente, e com uma provável vida longa em plataformas de streaming. Resta saber qual delas teria a disposição de distribuí-lo.

Avaliação: Ótimo (4 estrelas)

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