Cannes: Sentimental Value, de Joachim Trier

Drama sobre pai e filha é intelectualmente estimulante, mas deixa carne no osso.

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Sentimental Value
1 de 1 Sentimental Value - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

O diretor dinamarquês Joachim Trier e sua atriz principal, Renate Reinsve estão prontos pra reconquistar o mundo cinematográfico com uma dobradinha, depois de lançarem juntos A Pior Pessoa do Mundo, em 2021. Um dos favoritos do Festival de Cannes daquele ano também emerge como um dos favoritos agora, 4 anos depois. Desta vez, a personagem de Reinsve, Nora Borg, é uma atriz. Prestes a estrear uma peça, ela começa a hiperventilar e ter um ataque de pânico logo antes das cortinas abrirem. A peça é de Ibsen e, apropriadamente, ela pede que seu parceiro de cena lhe dê um tapa na cara para afugentar o medo. A técnica funciona, talvez porque este outro ator é o homem casado com quem Nora tem um caso.

Só que desta vez, nem é Nora a pior pessoa da história. Tal título deverá ir para seu pai, Gustav (Stellan Skarsgård), um diretor de cinema que abandonou a mulher e suas duas filhas tempos atrás. A outra filha, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), teve um papel enquanto criança, mas se sentiu abandonada pelo pai logo após as filmagens. Agnes quer vender a antiga casa da família, e enquanto busca objetos com Nora, descobre que o pai está planejando uma filmagem no local. Com seus dias de glória no passado, Gustav resolve fazer um filme sobre sua mãe, que se matou na casa, em decorrência de traumas da 2a Guerra. Ou seja, as feridas entre os personagens sequer precisam de faíscas para se incendiarem. Vale dizer que Gustav quer Nora, com quem ele não fala há anos, no papel principal.

O filme começa com uma narração em off, que conta a história da casa, que contém toques de absurdismo. A construção tem um erro de estrutura, e por isso uma rachadura apareceu no chão e nas paredes. É uma metáfora intelectual e fria, onde as fraturas dentro da família ecoam na moradia. Perfeita para um trabalho no meio literário, de onde a trama deste filme, surpreendentemente, não surgiu. Se o filme ameaça se derramar num redemoinho terapêutico, o que mantém ele afiado é que esta não parece ser a história de Trier ou de seus atores.

Sentimental Value não é só um favorito à Palma de Ouro. Deve servir também como um dos favoritos ao prêmio supremo, o Oscar do ano que vem. Se trata, afinal, de um filme sobre o ato de fazer filmes, e das reconciliações que a arte propõe. O filme ainda conta com uma arma secreta: quando Nora se recusa a interpretar a própria avó, Gustav consegue seduzir a atriz americana do momento, Rachel Kemp, que é fascinada pelos seus filmes antigos. Vivida por Elle Fanning, Rachel é a catalista perfeita para os ciúmes que Nora finge não ter.

Se os rumos do roteiro não são inesperados–e talvez seja este o defeito do filme–as interpretações de seu elenco são excelentes e surpreendentes, mesmo com um ator como Skarsgård, que assistimos há décadas.

Avaliação: Ótimo (4 estrelas)

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