Cannes: Eddington, de Ari Aster
Diretor americano mostra um universo bem realizado, porém vazio demais.
atualizado
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Elogiado por ninguém menos do que Martin Scorsese e tido como um “enfant terrible” por grande parte do público, o diretor americano Ari Aster parece sempre formar suas narrativas sem se preocupar com qualquer tipo de espectador. Busca provocar, mesmo se disser que não, com filmes como Hereditário, Midsommar e Beau tem Medo. Seu novo filme repete, pela primeira vez, o ator principal, Joaquin Phoenix. No anterior, ele interpreta um filhinho de mamãe dominado por suas angústias e neuras sexuais, já aqui, é Joe Cross, xerife da pequena cidade de Eddington, castigado pelas mulheres em sua vida, e tentando se impor com o prefeito, Ted Garcia (Pedro Pascal). A época é maio de 2020, no já iniciado lockdown contra a Covid-19 e a pequena cidade sulina começa a incorporar e atrair toda a hostilidade conspiratória que rodou grande parte da população mundial.
Garcia, o prefeito, é o bom moço progressista, pelo menos na superfície, e quer que todos usem máscara. Além disto, pensando no futuro, ao encabeçar uma campanha para que a população aprove o projeto de um gigantesco data center de uma big tech. A indústria revitalizaria a economia local, embora consuma quantidades enormes de água num local que… é um deserto. Cross, o xerife, é o conservador ressentindo, remetendo ao passado, quando não precisava lidar com as reclamações progressistas. Em casa, é dominado pela apatia da esposa Louise (Emma Stone), sempre acometida por doenças psíquicas, e a sogra Dawn (Deirdre O´Connell). É num confronto entre os dois, sobre usar ou não máscara, que o sensível xerife resolve fazer uma provocação máxima e anunciar em sua rede social que vai concorrer à Prefeitura contra Garcia.
Está armado então um combate entre esquerda e direita, progressista e conservador. Só que (ainda bem) não é este o interesse do roteirista e diretor. Eddington envolve a criação de um universo inteiro, como microcosmo americano de 2020, misturado a hostilidade e todas as teorias de conspiração possíveis. O cardápio de personagens é extenso. Além dos já mencionados temos o líder de um culto (Austin Butler), um mendigo (Clifton Collins Jr.), três adolescentes que começam uma campanha do movimento Vidas Negras Importam e outros três policiais, um branco, um negro, e um membro de uma reserva indígena. Em diversos momentos, vemos o que Aster realmente quer: criar o máximo de confusão possível com os personagens que criou. É difícil achar que ele se importe com qualquer um deles.
Este último sentimento aparece com uma imagem misteriosa: um avião cheio de homens armados de repente chega à cidade. De onde vieram? Quais as suas motivações? O filme não esclarece nada. De fato, a ousadia de sua proposta é a de que absolutamente todas as conspirações que rondaram o começo da pandemia e o movimento que surgiu a partir do assassinato do americano George Floyd seriam verdadeiras. O bangue-bangue que deriva disto é pesado e grotesco. Só que aster se isenta de dizer que isso levará a alguma coisa qualquer.
Talvez seja esta constante busca por fazer sentido do que está acontecendo no filme–busca aliás, proposta pelo próprio enredo, que trata sua trama como mistério–que o transforma em uma grande decepção. . Se seu admirador, Martin Scorsese usou da minutagem extensa de Midsommar para fazer uma obra com quatro horas de duração (Assassinos das Luas das Flores), aguardo ansiosamente o que Eddington irá inspirar.
Avaliação: Regular (2 estrelas)
