Cannes: Honey Don´t!, de Ethan Coen
As diferenças de estética e roteiro dos irmãos Coen está cada vez mais evidente.
atualizado
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Uma das parcerias mais longevas do cinema americano está cada vez mais distante. Joel e Ethan Coen lançaram filmes solos recentemente, mas enquanto a crítica foi unânime em admirar “The Tragedy of Macbeth”, de Joel, se dividiram com “Drive-Away Dolls”, de Ethan. Quase uma comédia com humor anti-woke, retratava um casal de mulheres com uma maleta misteriosa e um sem-número de criminosos ineptos atrás delas. O novo filme segue o mesmo tom, já que também é um roteiro que Coen escreveu com sua esposa, Tricia Cooke, mas imagino que a reação não será tão dividida, ou mesmo educada.
O filme começa com uma mulher nua (Lera Abova) e um acidente de carro. Tudo revolve em torno do tráfico de drogas e é a detetive particular Honey O´Donahue (Margaret Qualley) que resolverá o caso. Além da mulher nua e do acidente de carro, ainda entornam o caldo uma igreja evangélica e artefatos de sexo masoquista. O pastor corrompido é ninguém menos que Chris Evans, conhecido por interpretar o Capitão América moderno. A It-Girl indie Aubrey Plaza é MG, policial que ajuda Honey no caso e na cama.
Praticamente um filme de encerramento do Festival de Cannes em 2025, com sua sessão de gala acontecendo à meia-noite anterior ao dia de premiação, seu tom caótico e comediante, assim como sua duração de curtos 90 minutos, são muito bem-vindos. O problema é que a incoerência é demais. Se a lista de personagens parece eclética, o tom de cada um nos faz pensar que cada ator acreditava estar num filme diferente. Quando “Drive-Away Dolls” estreou, sua linguagem abrasiva e personagens “marginalizados” contavam com um quê do novo, o que pode ter blindado um pouco a crítica.
Este segundo filme aparece no rastro do primeiro, e por isso perdeu o aspecto de novo. A personagem central é bem formada, moldada nos detetives de filmes noir e comédias screwball dos anos 40. Só que ela refresca, não contendo a dimensão masculina da auto-mitologia, onde uma série de detetives se deprimiam ou acabavam mortos ao achar que o mistério tratado por eles requeria carregar o mundo inteiro nas contas. Honey O´Donahue é a parte boa do filme, e merece contar mais histórias.
Aubrey Plaza e Chris Evans, atores com talento já reconhecido, são a bola fora, mas talvez não seja por culpa deles. Evans, como o vilão, não consegue botar medo, ou mesmo ameaça, apesar do completo descaso com que trata todos a sua volta. Interpretando o pastor de maneira completamente satírica remove a patologia do mal. Plaza, como o interesse romântico, simplesmente absorve o sofrimento espiritual que Honey deixou de lado.
Se Qualley é o fio condutor que toca todos os personagens, é o suficiente que ela esteja em sua melhor forma (sem duplo sentido!). O filme funciona, de maneira simples e eficiente. Só que sairá da cabeça com a mesma leveza que entra.
Avaliação: Regular (2 estrelas)
