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Cannes: Sound of Falling, de Mascha Schilinski

Gerações de uma família alemã perpassam abusos e trauma num caleidoscópio que confunde e fascina

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Sound of Falling
1 de 1 Sound of Falling - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

Se o constante abuso que mulheres sofrem nas mãos de seus homens se solidificou quase como um gênero específico do cinema mundial, a busca pelas obras que se sobressaem ao ordinário–o cânone, por assim dizer–ainda está em formação. É um tanto encorajador que o Festival de Cannes, em 2025, se inicie com algo tão ambicioso quanto o filme alemão “Sound of Falling”, da diretora Mascha Schilinski. É um retrato apavorante de gerações, uma litania de infelicidades que expurga a lembrança da comédia romântica musical que serviu de filme de abertura.

O filme começa com um jogo meio sádico, onde a adolescente Erika (Lea Drinda), com uma perna só e de muletas, caminha pelo corredor de um casarão rural. Fora de cena, seu pai chama seu nome, pedindo que ela venha ajudá-lo com os porcos. Erika levanta o vestido e vemos que sua outra perna está amarrada por trás, simulando a deficiência de tio Fritz (Martin Rother), acamado. Ela lhe passa as muletas e sai da casa, indo junto ao pai, que prontamente a estapeia pelo atraso. Erika vira o rosto para a janela de Fritz, sorrindo. A variação de sentimentos, entre a brincadeira e a opressão, o desejo e o sofrimento, é o que dará o tom de quase um século de histórias das mulheres deste casarão.

Filmado de maneira impressionista, oscilando entre passado e futuro, o filme retorna à época pré-Guerra, quando tio Franz era adolescente e ainda tinha as suas duas pernas. Alma, de nove anos, ainda é inocente demais para entender a opressão que a ronda, seja pela perspectiva de guerra, ou pelo detalhe que sua governanta, Trudi (Luzia Oppermann), é uma de várias mulheres esterelizadas para se tornarem “protegidas para os homens”. Nos tempos de hoje, o casarão virou uma casa de campo, de férias, mas todo o progresso social feito nas décadas intervenientes ainda não foram o suficiente para acabar com as tendências patriarcais que acometem novas gerações.

Sound of Falling é uma refeição, só que às vezes a diretora parece ter jogado todos os seus ingredientes num liquidificador. A confusão entre temporalidade e personagens ocorre mais do que deveria, mas o completo controle exercido entre roteiro e direção indicam que é uma escolha proposital. A cacofonia de diferentes vozes que servem de narração também são difíceis de identificar, mas talvez a isto se some a falta de conhecimento do idioma alemão (as legendas não identificam as narradoras). As imagens texturizadas, como película, também evocam a simbologia da memória.

Central para esta história é uma fotografia, em preto e branco, de uma família campestre, em torno de um sofá. Gradualmente, descobrimos que uma, ou talvez mais, destas pessoas já estavam mortas, e seus corpos posados para o luxo de um registro fotográfico. Nenhuma memória deste filme se torna livre, portanto, da dor.

Avaliação: Ótimo (4 estrelas)

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