Cannes: Sorry, Baby, de Eva Victor

Os efeitos de um encontro abusivo emergem durante um longo período de tempo na vida de uma jovem promissora.

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Sorry Baby
1 de 1 Sorry Baby - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

O primeiro filme a tratar de assédio sexual de uma maneira oblíqua na época pós-Me Too foi uma pequena, mas esteticamente ambiciosa produção chamada The Assistant, da diretora Kitty Green, ainda em 2019. Nele, uma jovem assistente de um produtor de Hollywood, começa a notar, no meio de sua rotina, que o chefe é um assediador em série, apesar dela mesma não ser vitimada por ele. Nunca vemos o assédio, ou mesmo o chefe, mas o efeito sombrio que toma conta da assistente se torna palpável a nós, espectadores. O filme de fechamento da Quinzaine des Cinéastes, já premiado em Sundance, segue a mesma metáfora, só que colocando a vítima em primeiro plano, e estendendo a temporalidade para mostrar os efeitos de um assédio durante anos.

Agnes (a atriz e roteirista Eva Victor) é uma jovem professora em uma universidade americana, um daqueles lugares de ensino que se prezam por ter um ensino livre e progressista, populada por estudantes e professores bem de vida que também sustentam uma certa homogeneidade idealista. É importante situar isto tudo, porque o próprio filme faz isso. Seu primeiro ato é consumido pelos pequenos prazeres cotidianos: as amizades, os jantares cheio de discussões sobre ideias e pontos de vista e a presença de docentes como pessoas idealizadas. (O filme brinca um pouco com sua temporalidade, primeiro mostrando Agnes e a melhor amiga Lydie (Naomi Ackie) na vida profissional e depois voltando ao período estudantil para mostrar um ponto de inflexão.)

Um destes docentes, ainda quando Agnes e Lydie eram estudantes, foi Preston Decker (Louis Cancelmi), que tem uma química interpersonal excelente com Agnes. Tão boa, aliás, que Lydie logo menciona para a amiga que os dois deveriam transar. Certa noite, Agnes e Preston estão sozinhos, e algo muito problemático acontece. Algo tão desconfortável que Agnes não consegue sequer chamar Preston de “agressor”. Toda esta sequencia, do que acontece, é desenhada, atuada e dirigida de uma forma madura e confiante, a primeira indicação do talento que está por vir na carreira de Victor.

O ato parece já ter sido dramatizado de todas as maneiras possíveis no cinema, e por isso a habilidade em “Sorry, Baby”, merece destaque. O resto do filme mostra Agnes navegando a sua vida, que talvez não seja ditada pela violação, mas certamente descende dela. Não, a vida não será mais a mesma, e momentos singulares servirão para lembrá-la do que sofreu. Só que não será só isso que acontecerá. Ignorar que a vida continua é o que o filme se recusa a fazer.

Avaliação: Bom (3 estrelas)

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