Cannes: The Mastermind, de Kelly Reichardt

Estudo de personagem é interessante, mas seu isolamento não traz o que a diretora tem de melhor.

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
The Mastermind
1 de 1 The Mastermind - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

Kelly Reichardt é uma diretora americana que gosta de contar histórias que parecem íntimas, cujo foco está nos personagens e na relação entre eles. Seus filmes são quietos, sem grandes explosões ou catarses efervescentes. Quando existem, estas acontecem com um olhar, um gesto ou um entendimento–a humanidade nos pequenos momentos. Em The Mastermind, ela analisa um momento na vida de James (Josh O’Connor), que vive uma pacata e privilegiada vida de pequena cidade americana. A diferença é que ele está prestes a executar um roubo num museu de arte moderna. Parece até ser uma compulsão, já que, na primeira cena, o vemos observando um guarda distraído enquanto ele abre uma caixa de vidro e surrupia um bonequinho exposto.

Os pensamentos de James permanecem internalizados durante todo o filme, e nos resta juntar as peças através de suas ações e de seu entorno, mais do que através do discurso. Descobrimos que ele é filho de um juiz respeitado, e que o financiamento de seu plano criminoso vem de um empréstimo feito pela mãe (sem que ela saiba o real motivo). Empréstimo, aliás, que ela nem espera recuperar. Em casa, James tem esposa e dois filhos pequenos. Sua vida, entendemos, é idealizada, e a psicologia pop nos diz que ele sente a necessidade de cometer um roubo de arte para compensar alguma falta que sente. Talvez seja porque James uma vez ele abandonou a faculdade de artes e não tomou um rumo profissional na vida.

O que o filme parece quer explorar é que nem todo o privilégio do mundo pode suplantar a falta de noção pessoal. Se James se fantasia como um mestre do crime, à la Thomas Crown, nada funciona como o planejado e ele se vê às voltas de um sem-número de complicações baseados meramente no fato de que, se ele conseguiu algo na vida, não foi por conta própria. Como o filme se passa na década de 70, enquanto os Estados Unidos avançam sua participação na Guerra do Vietnã, James precisa só de dois comparsas que saibam ameaçar seguranças com armas e um outro que consiga dirigir o veículo para a fuga.

Não seria um filme de roubo se as coisas não dessem errado, e a maior parte da obra tem a ver com o que acontece nos dias depois do crime. As maneiras com que James tenta se esquivar da responsabilidade dependem muito da boa vontade daqueles que o rondam, e é aqui que o filme mais apresenta sua força. Os comparsas, os familiares e os amigos do ladrão improvisado tem graus variados de apreciação por ele. (Sua esposa, porém, vivida por Alana Haim, parece não aguentar mais os seus discursinhos.)

A fuga de James, porém, envolve longos períodos de voo solo, e aí o filme fica meio que desprovido do que a escrita de Reichardt tem de melhor, sua criação e caracterização de personagens. O´Connor apareceu no cinema e já virou astro, com uma presença e um nome que já conseguem dar sobrevida à bilheteria do cinema independente, só que sua habilidade em interagir com os outros participantes de cena supera as ocasiões em que tem de estabelecer tudo sozinho. Ocasiões que ocupam um tempo demasiado deste novo trabalho da diretora.

Avaliação: Bom (3 estrelas)

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