Cannes: Sirât, de Oliver Laxe

Filme espanhol usa e abusa do termo francês “tour-de-force”, chocando o público.

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Sirat
1 de 1 Sirat - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

Por mais que imaginemos o contrário, o cinema narrativo é uma das artes mais conservadoras que existem. 99% das histórias são sobre a importância de lutar por aqueles que amamos e/ou o triunfo do bem sobre o mal. Personagens malvados são punidos e bonzinhos são recompensados. Quando muito, o protagonista é um anti-herói que, mesmo assim, acaba aprendendo lições sobre as coisas valiosas da vida. De vez em quando o mal até triunfa, mas isso serve apenas para reforçar, novamente, a importância de sermos bons uns com os outros do lado de fora da sala de cinema. Niilismo é pouco visto, e é justamente com esta filosofia que uma das sessões mais marcantes deste Festival de Cannes flerta, e explode na tela.

Sirât, somos informados por um letreiro no início do filme homônimo, é uma palavra árabe que significa ´caminho´, e geralmente denota uma travessia purgatorial, entre o Céu e o Inferno. Aqui, a metáfora parece muito com uma rave no deserto do Marrocos. Um dos trunfos do diretor Oliver Laxe é estruturar sua narrativa em uma experiência sensorial. O filme começa com uma parede de caixas de som sendo acopladas umas as outras na paisagem arenosa. Sem pressa, uma música de rave começa a tocar e um público se aglomera. A festa parece acontecer de uma maneira orgânica, como se uma comunidade se formasse espontaneamente. Só que ali no meio, um homem e uma criança estão em busca de algo.

Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona) parecem peixes fora d´água (mesmo com o cenário desértico). Eles andam pela rave, interpelando participantes, fazendo perguntas, mostrando uma foto. Estão procurando Mariana, irmã e filha, sumida após ir para um evento como este. Ninguém a viu, mas parece que tem outra rave secreta em outro local do deserto em outro dia. Não resta outra coisa a fazer, e os dois se juntam à comunidade improvisada para atravessar a paisagem em busca do próximo evento. Só que esta trupe não é aquela boho-chic de eventos americanos como Coachella ou Burning Man. Os outros personagens, como Steffi (Stefanian Gadda), Josh (Joshua Liam Henderson), Tonin (Tonin Janvier) e Bigui (Richard Bellamy), não possuem nada além do que carregam consigo, e muitos ainda sofrem com a falta de braços e pernas.

É uma família pós-apocalíptica vivendo nos extremos, e logo descobrimos, quando o exército aparece para acabar com a festa, que o filme não se passa no mundo como conhecemos agora. Enquanto nossos personagens escapam, e seguem rumo à próxima rave, ouvimos via transmissões de rádio que um conflito mundial está acontecendo, e que o fim está próximo. Qualquer previsão sobre o que está para acontecer na vida destas pessoas cai no risco de ser ridicularizada, pois o que o diretor tem em mente é parafrasear Shakespeare, quando este escreveu que, na visão de Deus, somos como moscas para meninos travessos–prontos para sermos esmagados.

A experiência de assistir a Sirât numa sala de cinema cheia fica assim indiferenciável do filme isolado. Separar os dois atributos é simplesmente impossível, uma tarefa até tola.

Avaliação: Bom (3 estrelas)

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