Cannes: Zan O Bacheh, de Saeed Roustaee
Melodrama iraniano tem excelente controle de tom.
atualizado
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Para uma teocracia ditatorial, o Irã continua produzindo e exibindo em Cannes filmes com muita crítica ao regime. É de se admirar a audácia de diretores como Jafar Panahi, que opera na clandestinidade e já foi preso mais de uma vez. (Panahi é forte concorrente à Palma de Ouro deste ano.) O diretor de Zan O Bacheh, Saeed Roustaee, também é figura carimbada em Cannes, exibindo aqui pela última vez em 2022, com o excelente Os Irmãos de Leila. Aquele filme, e este aqui em questão se dão no âmbito da família, e da falta de poder que as mulheres tem dentro desta formação.
Mahnaz (Parinaz Izadyar) é uma viúva que mora com a irmã, Mehri (Soha Niasti), mãe (Fereshteh Sadre Orafaee) e dois filhos. Sua situação domiciliar está prestes a mudar, já que é noiva do motorista de ambulância Hamid (Payman Maadi), mas o romance ainda precisa se firmar. Talvez a fundação não esteja tão sólida quanto se imagina. Quando Hamid organiza um encontro entre seus pais e Mahnaz, pede que ela esconda na casa qualquer traço dos filhos que ela já tem. É um pedido que diz muito sobre o que se espera das mulheres, mas neste caso, as consequências são trágicas.
Mahnaz manda o adolescente Aliyar (Sinan Mohebi), sempre com problemas de comportamento na escola, e a pequena Neda (Arshida Dorostkar) para a casa dos avós. Naquela noite, tudo dá errado. Hamid conhece a cunhada e se apaixona por ela, querendo trocar de noiva (aparentemente, Nelson Rodrigues caberia direitinho na sociedade persa). Do outro lado da cidade, um acidente terrível acontece com Aliyar e ele é levado ao hospital, entre a vida e a morte. Se um choque já não era o suficiente na vida de Mahnaz, sua cena com o filho no hospital é de arrancar o coração.
Nada disso se trata de um spoiler, exatamente, visto que tudo ocorre no primeiro ato do filme. O terreno é o melodrama, que prefere explorar as tensões dos relacionamentos interpessoais em meio a acontecimentos exagerados. O que Mahnaz quer é vingança contra os homens de sua vida, mas sua impotência em conseguir vencer em processos judiciais é a metáfora abrangente do patriarcado árabe. Péssimas decisões são feitas por todos os personagens desta história.
A trama de Zan O Bacheh pode, às vezes, parecer forçada, até novelesca, mas o diretor consegue direcionar o tom de maneira competente. Seu trunfo está no elenco, e nas interpretações, que reagem aos acontecimentos com toda a seriedade de pessoas reais. No caso deste filme, qualquer piscadinha indicativa de melodrama derruba todo o edifício da construção dramática.
Avaliação: Ótimo (4 estrelas)
