Cannes: Romería, de Carla Simón
Amadurecimento de uma jovem órfã, que reencontra membros da família, não emociona.
atualizado
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Histórias pessoais tem como grande virtude contar histórias pequenas que ressoam por públicos do mundo inteiro. Não é à toa que muitos cabem no gênero “coming-of-age”, sobre o período da adolescência onde protagonistas descobrem a dureza do universo adulto. Marina (Llúcia Garcia) acaba de completar dezoito anos e ganhou uma bolsa universitária para estudar cinema em Barcelona. Só que a burocracia espanhola complica sua documentação: Marina é órfã desde cedo, e se por um lado foi adotada por uma família estável, precisa de uma assinatura de seu avô biológico, que mal conhece.
Este prenúncio já daria um filme por si, só que seria como muitos outros. Quando Romería começa, a protagonista já embarcou rumo à pequena vila litorânea para encontrar seu tio, Luis (Tristán Ulloa). A família de seu pai biológica fica assustada com o tanto que a jovem parece a mãe, ao mesmo tempo que alguns (os avós) ainda não aceitaram como alguém da família. Na cena mais emblemática, uma matilha de primos e primas faz filha na sala do avô para elogiá-lo, um por um, e receber um envelope de dinheiro pelo esforço.
Se Romeria é uma palavra que descreve peregrinação, o título se comprova enganador. Não existe um ponto final desta jornada marítima, ou mesmo algo que se busque. O MacGuffin do reconhecimento no cartório é completamente desinteressante. Já o passado dos pais de Marina é diferente do que foi dito a ela. Seu pai e sua mãe morreram em decorrência da AIDS, ambos apaixonados um pelo outro do mesmo tanto que pela heroína. A vergonha da família em discutir o assunto, e do estigma da doença, é o que separa Marina deles.
Marina levou uma câmera digital para a viagem, e suas filmagens dividem tempo de tela com flashbacks de como seus pais viveram, na mesma ilha (o filme se passa em 2004, antes da invenção de smartphones). Momentos de narração são tirados do diário de sua mãe. Aqui entra, também como um tema importante, a memória como fantasia, o mecanismo pelo qual preenchemos as lacunas que não conhecemos de nossas próprias histórias. O problema é que nada coalesce. Simón nem simplifica o bastante para ser direta, nem preenche o suficiente para ser ambiciosa, preferindo manter tudo em mero banho-maria.
Avaliação: Ruim (1 estrela)
