Cannes: La Petite Dernière, de Hafsia Herzi
Filme sobre descoberta sexual não sai da sombra de Azul é a Cor Mais Quente
atualizado
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É impossível não trazer à mente o filme “Azul é a Cor Mais Quente” quando o Festival de Cannes insere outro filme francês sobre o despertar lésbico de uma jovem estudante em sua programação. Já se passaram mais de dez anos desde que Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos conquistaram a Croisette, e o momento continua icônico. Tal fenômeno é bom e ruim para esta nova história. Por um lado, “La Petite Dernière” tem uma referência pronta para seu marketing, por outro, existe na sombra de uma obra maior.
O termo “La Petite Dernière” é análogo a “caçula”, em uma tradução livre, pois é assim que a família de Fatima (Nadia Melliti) a enxerga. Exceto por alguns momentos importantes, porém, o filme de Hafsia Herzi está interessado em quem é Fatima fora do ambiente domiciliar. O filme acompanha sua jornada de descoberta sexual no ano em que ela se forma do ensino médio e começa uma faculdade, rito de passagem tido como os primeiros passos de uma independência na vida dos jovens. Muçulmana e lésbica, Fatima esconde seus conflitos internos dentro de um estoicismo duro.
A linha entre intérprete e personagem do filme parece tênue. É o primeiro longa-metragem da atriz principal, e sua capacidade em mesclar momentos de conflito emocional interno com a fachada exterior. O roteiro tenta ao máximo evitar o melodramático, e é graças à sua atriz que consegue. O roteiro é baseado em um livro com uma história ficcionalizada da vida real da autora Fatima Daas. Fatima não tem dúvidas sobre quem ela é–seus conflitos internos são sobre a conciliação de quem ela é com o que é esperado dela. O momento em que um colega do segundo grau usa o jeito meio machão dela para insinuar a verdade sobre sua sexualidade exaspera o auto-controle que ela deseja, num ato de violência.
Ao mesmo tempo, ela não hesita em baixar um aplicativo de encontros e de se lançar num relacionamento romântico com uma enfermeira. Fatima não esconde o desinteresse num casamento arranjado, como foi o de seus pais, e se veste de maneira que levantaria as suspeitas de qualquer um. (Em outras palavras, ela não engana ninguém.) É esta a virtude do filme, em presumir que o espectador não quer perder seu tempo com o superficial. A profundidade da vida, está em relacionamentos honestos, e o mundo tem uma capacidade maior de se ajustar à realidade de cada um do que se imagina.
Avaliação: Regular (2 estrelas)
