Cannes: Highest 2 Lowest, de Spike Lee

Remake de filme do mestre japonês Akira Kurosawa traz conflito moral para a socio-política negra.

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Highest 2 Lowest
1 de 1 Highest 2 Lowest - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

Conselho pra quem vem tentar atirar no rei: não erre a mira. Tal conselho reflete sobre David King, novo personagem de Denzel Washington, e Akira Kurosawa, diretor japonês que primeiro trouxe ao cinema a história aqui apresentada por Spike Lee, diretor americano. Lee defende que “Highest 2 Lowest” não é um remake, mas sim um retrabalho, já que o material de origem é um livro americano de Ed McBain. Kurosawa foi um mestre de cinema, unanimidade internacional, cujos filmes são ensinados como o ápice da forma. David King é um empresário da música, milionário e dono de uma cobertura no Brooklyn recheada de arte moderna e contemporânea. É com eles que Spike Lee provoca, renova e reconforma.

King é um pai de família que poderia estar preparando a aposentadoria. Seu filho está prestes a entrar na faculdade e sua produtora musical, Stackin´ Hits, será comprada por um grupo internacional. Sua esposa está contente e engajada em trabalho filantrópico. Não é o suficiente. Para muitos, a impressão é que os dias de David como um produtor musical já estão no passado, que o homem com “os melhores ouvidos do negócio” está velho. E por isso, David economizou, planejou e acabou de propor a compra de ações de seu sócio. Assim, terá o controle absoluto sobre a empresa e poderá voltar a formar novos talentos. Pelo menos até seu filho, saindo de um treino de basquete, ser sequestrado.

Entre retomar as rédeas da empresa que um homem construiu e pagar o resgate de seu filho, ambos, afinal, representantes de um legado, a escolha é fácil. Para complicar as coisas, descobrimos, junto com David, que o criminoso se confundiu e sequestrou o filho do motorista, Paul (Jeffrey Wright), que também é amigo de infância de David. E agora, vale a pena pagar 17 milhões de dólares no resgate do filho do amigo? Vale a pena sacrificar a empresa que David passou a vida construindo pra pagar pelo filho do motorista? Paul é um ex-detento (não chegamos a descobrir por qual crime), então a polícia primeiro o trata com suspeição e, depois, com desprezo.

A versão desta estória conduzida por Spike está em sua melhor forma quando explora as dinâmicas entre suas figuras negras: o empresário milionário que cresceu com o funcionário ex-detento, os filhos dos dois, um policial veterano e até o sequestrador, que parece ter uma rixa pessoal com a David e sua empresa (não se trata de um spoiler revelar que este tem pretensões no mundo do rap). O que representa cada um destes personagens para os outros? O que devem entre si? Spike faz um circuito envolvente nas relações entre seus personagens.

O que vale a pena dizer que Lee fez de diferente da versão de Kurosawa é investir no relacionamento entre empresário e funcionário. Engraçado que talvez seja este o calcanhar de Aquiles do conflito moral na trama–ele simplesmente deixa de existir. Em momento algum, mesmo que os personagens se questionem, temos dúvidas quanto ao pagamento do resgate que ajudaria seu amigo, que teve uma vida difícil. No filme japonês, a relação entre ambos é mínima, e por isso a dúvida moral é ressaltada. Desviando desta questão, Spike investe em duas sequencias de ação envolvendo o metrô da cidade (a primeira, do pagamento do resgate é o cume estilístico e narrativo do filme e a segunda, do confronto com o sequestrador é bem duvidosa) e uma coda de apresentação artística completamente desnecessária, de volta à cobertura de David.

Denzel, é óbvio, está excelente em seu papel. Acostumado a ser dominante na vida, David incorpora objetos de cena em suas conversas e discursos. É generoso com os outros atores. Destaque para uma cena entre pai e filho, sobre a questão do pagamento do resgate, aonde o velho leão ruge furioso.

Avaliação: Bom (3 estrelas)

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