Cannes: Eleanor the Great, de Scarlett Johansson

Assuntos sérios como o Holocausto e a apropriação da identidade de outro estão em comédia charmosa de estrela americana.

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Eleanor the Great
1 de 1 Eleanor the Great - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

Não é sempre que astros de Hollywood são bem-sucedidos em construir uma carreira por trás das câmeras, apesar de ser uma prática recorrente. (Na verdade, o mesmo pode ser dito para diretores que se arriscam em frente delas.) É com todo tipo de expectativa, portanto, que se aguarda o filme de Scarlett Johansson, garota-indie-que-virou-estrela-da-Marvel, uma das mulheres mais bem pagas da indústria. Se juntando à June Squibb, no esplendor do estrelato, atingido aos 95 anos, Johansson exibe ambições sérias: uma comédia charmosa, com um assunto eternamente espinhoso.

Eleanor Morgenstein (Squibb) mora na Florida e divide o quarto com a melhor amiga, Bessie (Rita Zohar). As duas tem uma rotina, levantando cedo, indo ao mercado e, pelo menos na a personalidade de Eleanor, se divertindo sendo boa de bater boca sempre que se incomoda com alguma coisa. Eleanor é a pessoa exuberante, enquanto Bessie, que sobreviveu aos campos de extermínio da Segunda Guerra Mundial, é mais recatada e resignada. Só que um dia Bessie morre de repente, e Squibb resolver se mudar pro apartamento da filha Lisa (Jessica Hecht), em Nova Iorque. Ainda tentando se estabelecer, ela é levada para um centro comunitário judeu aonde, desavisada, senta em uma roda de conversas de sobreviventes do Holocausto.

Nunca disposta a não ter o que dizer, Eleanor participa da conversa, relatando uma infância na Polônia, sua captura pelos nazistas… Nós, espectadores, percebemos que ela está contando a história de vida da melhor amiga, mas o jeito encantador da protagonista faz que todos ao seu redor acreditem em sua história. Nina (Erin Kellyman), uma estudante de jornalismo em busca de um artigo está lá no dia e resolve publicar um artigo sobre Eleanor. Assim se desenrola uma trama comum às comédias de erros.

No final das contas, talvez a escolha de Squibb para protagonizar a história seja uma maneira de se “blindar” da crítica. Afinal, com qual cara-de-pau se criticaria este fato diferente, de uma comédia ser encabeçada por uma atriz nonagenária? Tal fato raro mereceria ser enaltecido, venha o que vier. Só que tal avaliação não se torna necessária devido à condução da trama, desenhada para que Eleanor conquiste a plateia. É mais provável que só June Squibb e Scarlett Johansson tornaram este filme possível.

Todos os personagens centrais da história tem uma parte de si consumida pelo luto, e por isso o desenrolar da mentira de Eleanor é um tanto conveniente. (É o grande defeito da proposta, especialmente em tempo onde a comunidade cinematográfica coloca em pauta lugares de fala e o anti-semitismo.) Só que Squibb conseguiu transbordar os temas com sua personalidade.

Avaliação: Ótimo (4 estrelas)

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