Cannes: Yek Tasadef Sadeh, de Jafar Panahi
Muitos acham que chegou a vez do diretor iraniano levar uma Palma de Ouro pra casa.
atualizado
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Como se leva a frente uma sociedade que ainda não ajustou as contas com seu passado? “O passado nunca desapareceu, nem é passado”, dizia o escritor William Faulkner, naquilo que é o sentimento corrente da dramaturgia de vingança. Nela, personagens injuriados podem até retomar suas vidas, mas um ajuste nunca está mais distante do que um momento de azar. Para uma série de personagens, o ajuste começa com um atropelamento: Eghbal (Ebrahim Azizi), voltando para casa com a esposa (Afssaneh Najmabadi) e a filha (Delmaz Najafi) no carro, passa por cima de um cão numa noite escura. O acidente arrebenta o veículo, mas a família consegue chegar até uma oficina mecânica. Vemos que Eghbal é mais azarado do que aparenta. Quando sai do carro, caminha mancando, a perna falsa fazendo um barulhinho bem particular.
Só que não é com Eghbal que fica a nossa empatia. Um dos mecânicos, Vahid (Valid Mobasseri), enxerga no cliente azarado algo traumático. Ele se esconde enquanto o colega dá um jeito no carro, e depois segue a família. No dia seguinte, na primeira oportunidade, Vahid sequestra Eghbal, acusando-o de ser seu torturador, anos atrás. Na ameaça de ser enterrado vivo, Eghbal se defende da acusação, o suficiente para que Vahid hesite. Assim, o mecânico vai atrás de outros amigos, torturados no passado, para sanar a dúvida.
O diretor Jafar Panahi dirige filmes ilegalmente há mais de duas décadas. Censurado, preso e torturado em seu país, é um milagre que ele consiga aparecer em festivais ao redor do mundo. (Ou pelo menos os seus filmes conseguem, devido a esta série de aprisionamentos.) Juliette Binoche, presidente do júri do Festival de Cannes este ano, já trabalhou com diretores iranianos e já protestou publicamente pela libertação de Panahi. Ou seja, “Um Simples Acidente”, título do novo filme, é um dos favoritos a levar o troféu máximo este ano. Só que, antes de mais nada, é um filme merecedor.
O escopo parece pequeno, acontecendo em uma só tarde, com um punhado de personagens. A sombra imposta sobre a história destes personagens, porém, é longa e cada vez mais ameaçadora em tempos atuais. O que Panahi demonstra, melhor do que tudo, é um controle completo de tom: oscilando entre humor e desespero, as viradas de roteiro se sucedem de maneiras cada vez mais absurdas, porém críveis. (Em um dos momentos de humor, dois policiais estranham a movimentação da van de Vahid, mas indicam serem suscetíveis a não fazerem muitas perguntas com uma colaboração para o “caixinha”. Sem dinheiro em espécie? Um deles aparece com uma máquina de cartão, para não deixar o caixinha vazio.) Um dos amigos chega a comparar a situação deles com a peça “Esperando por Godot”.
A dúvida sobre a identidade do homem persiste e a questão filosófica se aprofunda: será a dor sofrida pelos torturados justificativa suficiente de matarem o homem errado? Cada personagem que aparece tem suas próprias convicções e traumas. Panahi é reticente em providenciar respostas, mas toma posição, indicação de um grande diretor, que sabe que terminar o filme só na vagaria da dúvida seria uma saída fácil demais. É bem possível que seja impossível ajustar as contas do passado.
Avaliação: Ótimo (4 estrelas)
