Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Cinema

Cannes: Left-Handed Girl, de Shih-Ching Tsou

Erros de adultos e de crianças, de mães e de filhas, se mesclam em drama co-escrito com diretor de Anora

16/05/2025 15:03, atualizado 08/01/2026 15:56
Festival de Cannes/Divulgação
Cannes: Left-Handed Girl, de Shih-Ching Tsou

Duas ou três gerações atrás ainda existiam escolas que obrigavam crianças canhotas a escreverem com a mão direita. Estigmatizados, vivem uma dualidade no âmbito do conservadorismo, especialmente religioso. A protagonista deste filme taiwanês partilha desta metáfora. Castigada pelos mais velhos, chega a contemplar o uso de uma faca de açougueiro para arrancar a mão esquerda. Curioso, mostrar este ato, de morbidez extrema num filme que é, na verdade, sensível e maduro.

I-Jing (Nina Ye) é a mulher mais nova do trio que compõe a carga dramática da história. Ela tem seis anos, e está se mudando para Taipei com sua mãe Chu-Fen (Janel Tsai) e irmã mais velha, I-Ann (Shih-Yua Ma). A causa de sua prévia partida é gradualmente explicada num roteiro extremamente hábil em esconder seu real propósito até o momento certo. Escrito e dirigido por Shih-Ching Tsou, o filme tem como co-roteirista Sean Baker, o americano indie que dominou o Oscar ano passado com Anora, filme que venceu a Palma de Ouro em 2024. Assim, é um filme de travessia, entre locais, entre fases da vida e entre diferentes moralidades.

O que liga este filme com o pedigree americano é sua estética. Assim como no primeiro filme de sucesso de Baker, Tangerine, a filmagem foi toda feita com câmeras de iPhone. (Tal fato não quer dizer que alguém simplesmente pega um telefone e roda um filme, existe toda uma parafernalia ligada ao aparelho.) Com este método versátil, a fotografia é brusca e energética, a combinar com a vida de personagens quase marginais. As três mulheres estão tentando se virar na vida, já que nenhuma tem uma carreira, por assim dizer. Habitam portanto o frenesi dos mercados de rua.

Uma das vertentes do filme acontece depois que o avô de I-Jing lhe diz que o uso da mão esquerda tem uma associação com o capeta, e por isso a menina é tomada por um conflito interior. Certo dia ela começa a roubar pequenos ítens do mercado de rua, sempre com a mão endiabrada. A penúria e a falta de dinheiro perturba as três protagonistas, especialmente após a morte do ex-marido de Chu-Fen, que decide pagar pelo funeral, como manda a tradição. Só que as vendas em sua barraquinha não são o suficiente para tudo, e mesmo I-Ann, que admite não ter ido a uma universidade por falta de dinheiro, também não ganha bem num trabalho com certas conotações sexuais. Além disso, ela começa um caso com seu chefe.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

Eventualmente, os pequenos roubos de I-Jing são descobertos, envergonhando a família. A menina é forçada a andar de uma barraca a outra, admitindo o crime, devolvendo os ítens e pedindo desculpas. É aí que o filme revela as cartas: as adultas à sua volta tem suas próprias decisões erradas. Só que enquanto a sociedade torna mais fácil uma criança pedir desculpas e reparar seus erros, que esperança tem as mais velhas perante os seus erros?

Avaliação: Bom (3 estrelas)