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Cannes: Left-Handed Girl, de Shih-Ching Tsou

Erros de adultos e de crianças, de mães e de filhas, se mesclam em drama co-escrito com diretor de Anora

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Left Handed Girl
1 de 1 Left Handed Girl - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

Duas ou três gerações atrás ainda existiam escolas que obrigavam crianças canhotas a escreverem com a mão direita. Estigmatizados, vivem uma dualidade no âmbito do conservadorismo, especialmente religioso. A protagonista deste filme taiwanês partilha desta metáfora. Castigada pelos mais velhos, chega a contemplar o uso de uma faca de açougueiro para arrancar a mão esquerda. Curioso, mostrar este ato, de morbidez extrema num filme que é, na verdade, sensível e maduro.

I-Jing (Nina Ye) é a mulher mais nova do trio que compõe a carga dramática da história. Ela tem seis anos, e está se mudando para Taipei com sua mãe Chu-Fen (Janel Tsai) e irmã mais velha, I-Ann (Shih-Yua Ma). A causa de sua prévia partida é gradualmente explicada num roteiro extremamente hábil em esconder seu real propósito até o momento certo. Escrito e dirigido por Shih-Ching Tsou, o filme tem como co-roteirista Sean Baker, o americano indie que dominou o Oscar ano passado com Anora, filme que venceu a Palma de Ouro em 2024. Assim, é um filme de travessia, entre locais, entre fases da vida e entre diferentes moralidades.

O que liga este filme com o pedigree americano é sua estética. Assim como no primeiro filme de sucesso de Baker, Tangerine, a filmagem foi toda feita com câmeras de iPhone. (Tal fato não quer dizer que alguém simplesmente pega um telefone e roda um filme, existe toda uma parafernalia ligada ao aparelho.) Com este método versátil, a fotografia é brusca e energética, a combinar com a vida de personagens quase marginais. As três mulheres estão tentando se virar na vida, já que nenhuma tem uma carreira, por assim dizer. Habitam portanto o frenesi dos mercados de rua.

Uma das vertentes do filme acontece depois que o avô de I-Jing lhe diz que o uso da mão esquerda tem uma associação com o capeta, e por isso a menina é tomada por um conflito interior. Certo dia ela começa a roubar pequenos ítens do mercado de rua, sempre com a mão endiabrada. A penúria e a falta de dinheiro perturba as três protagonistas, especialmente após a morte do ex-marido de Chu-Fen, que decide pagar pelo funeral, como manda a tradição. Só que as vendas em sua barraquinha não são o suficiente para tudo, e mesmo I-Ann, que admite não ter ido a uma universidade por falta de dinheiro, também não ganha bem num trabalho com certas conotações sexuais. Além disso, ela começa um caso com seu chefe.

Eventualmente, os pequenos roubos de I-Jing são descobertos, envergonhando a família. A menina é forçada a andar de uma barraca a outra, admitindo o crime, devolvendo os ítens e pedindo desculpas. É aí que o filme revela as cartas: as adultas à sua volta tem suas próprias decisões erradas. Só que enquanto a sociedade torna mais fácil uma criança pedir desculpas e reparar seus erros, que esperança tem as mais velhas perante os seus erros?

Avaliação: Bom (3 estrelas)

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