Cannes: The Chronology of Water, de Kristen Stewart
Estrela do cinema comercial e independente apresenta seu primeiro longa-metragem como diretora
atualizado
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Kristen Stewart é praticamente realeza em Cannes. Além de seus filmes como atriz, apresentou seu primeiro trabalho na direção no festival de 2017. Era um curta-metragem chamado Come Swim, aonde um homem anônimo luta contra um possível afogamento. O filme não é literal, mas um retrato impressionista de pensamentos e emoções, indicando que a estrela buscava uma estética bem autoral para fazer firmar sua voz. Agora em 2025, apresenta seu primeiro longa-metragem que, curiosamente, também lida com uma personagem envolta em água.A história é de uma figura real, a nadadora e depois escritora Lidia Yuknavitch.
Vivida por Imogen Poots, Lidia tem uma história de vida temerosa. O pai (Michael Epp) era sexualmente abusivo dela quando criança, mesmo se, vez ou outra, a irmã mais velha (Thora Birch), tentava protegê-la. A mãe (Susannah Flood) vivia num estado que misturava depressão com o abuso que acontecia na própria casa. Ao contar esta história, que sabemos ter um tipo de final feliz, já que o livro em que se baseia existe, Stewart se interessa pelo sensorial, menos em mostrar e mais em fazer sentir. E o que ela busca fazer o espectador sentir é o abuso que permeia a vida de grande parte das mulheres.
O título do filme, que se traduz em A Cronologia da Água, já remete ao impressionismo do curta-metragem anterior de Stewart. Quando se equilibra os temas de traumas e memórias pessoais, certas personagens nunca tem controle absoluto de quando sofrem acometidas pelo que passou. Para Lidia, o refúgio vinha sempre em coisas auto-destrutivas, como drogas, álcool e sexo casual. Eventualmente ela consegue fugir do lar através de competições de natação, a única vertente construtiva de suas várias atividades.
Desta maneira, a água do título vira também um tipo de salvação. Outra é a escrita, quando os sonhos olímpicos de Lidia são interrompidos por sua auto-destruição. Nisso, pelo menos, ela consegue uma mentoria masculina positiva. É Ken Kesey, autor de Um Estranho no Ninho, interpretado aqui pro Jim Belushi como o ex-hippie frito que era na vida real. A literalidade do livro nunca está distante do impressionismo das imagens do filme, com uso constante de voice-over para a narração.
É um papel que demanda muito de sua atriz, e por isso é interessante notar que o caminho fácil seria que a própria Stewart estivesse no elenco, e nas mãos de uma direção menos ambiciosa, seria esta a escolha comercial a ser feita. Em vez disso, é Imogen Poots que domina a cena, com uma ferocidade ainda não vista em sua carreira.
Avaliação: Bom (3 estrelas)
