Cannes 2018: o Metrópoles viu e avaliou 34 filmes; leia as críticas

Premiação será anunciada na tarde deste sábado (19/5)

Mustafa Yalcin/Anadolu Agency/Getty ImagesMustafa Yalcin/Anadolu Agency/Getty Images

atualizado 05/02/2019 19:38

O Festival de Cannes, em 2018, está navegando num redemoinho de mudanças, e decidiu ser progressista em algumas vertentes e conservador em outras. Com as bombásticas revelações de assédio e violência sexual reveladas após o estopim das acusações contra o mega-produtor Harvey Weinstein, figurinha carimbada da Riviera Francesa, os organizadores fizeram de tudo para dar destaque às vozes femininas. Neste ano, a presidente do júri é a atriz Cate Blanchett (é a 11a mulher a empenhar a função, em 71 festivais) e, na seleção principal, concorrem 3 filmes dirigidos por mulheres (poucos, porém um número alto para seu histórico). Além disso, o Festival organizou um disque-denúncia para situações de assédio. Finalmente, os organizadores permitiram um protesto em pleno tapete vermelho: no dia 13, mais de 80 mulheres marcharam para conscientizar sobre a falta de mulheres nas equipes de cinema.

Na outra vertente, o Festival baniu de vez filmes de estúdios streaming, mais notavelmente o Netflix. Vale lembrar que dois filmes da rede concorreram à Palma de Ouro em 2017, mas, embora bem avaliados pela crítica, não levaram nenhum prêmio para casa. De maneira conservadora e atrasada, os organizadores demandam apenas candidatos que prometem uma janela de mais de um ano entre a estreia em cinemas franceses e uma subsequente disponibilidade para streaming. Qualquer filme do Netflix e etc será bem-vindo em mostras paralelas, porém não poderão concorrer à estatueta. Diante disto, o canal retirou todos os seus filmes inscritos do Festival.

O Metropoles assistiu 34 filmes, e constatou que a seleção de 2018 foi composta de filmes menos arriscados, que ambicionaram menos os dois extremos das classificações, 5 estrelas (3 filmes) e 1 estrela (1 filme). Classificamos 6 filmes como ótimos (4 estrelas) e 13 filmes como bons. 11 filmes ficaram com a pecha de regulares.

Confira abaixo um resumo de nossas avaliações:

5 Estrelas

Se Rokh de Jafar Panahi

Festival de Cannes/Divulgação

O filme começa com um vídeo selfie de um smartphone: a jovem Marziyeh (Marziyeh Rezaei), que sonha em ser atriz por admirar o trabalho de Behnaz Jafari (Behnaz Jafari), diz que seu pai a proibiu de seguir seu sonho depois que ela é aceita numa universidade de artes. Desesperada, ela parece se enforcar no vídeo, recebido por Jafar Panahi (Jafar Panahi). O personagem, uma versão do próprio diretor, leva o vídeo à atriz e os dois partem para o vilarejo em busca da jovem. O que ocorre em seguida é um road trip improvável, e mais leve e bem-humorado do que a premissa do filme parece prometer.

Grande parte do filme é dado à estrutura de típicos road-movies: encontros dos protagonistas, habitantes de cidades, com diferentes personagens ruralistas e “simples”. Estes encontros não movimentam a trama para frente, mas formam retratos sobre as pessoas e as culturas por onde os personagens passam. É por meio deles que estes filmes revelam suas verdadeiras naturezas, a exploração das forças que formam um país, ou uma realidade. Falando pouco e mostrando muito, “Se Rokh” lembra um conto de Ernest Hemingway. Contido, preciso metafórico… perfeito.

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Zimna Wojna de Pawel Pawlikowski

Festival de Cannes/Divulgação

Logo após o calor da Segunda Guerra, países começariam um conflito de cultura e influência. Na Polônia rural, dois diretores musicais, o pianista Wiktor (Tomasz Kot) e a produtora Irena (Agata Kulesza), estão realizando testes para uma trupe que percorrerá a Europa Oriental com um ato musical tradicional. Uma jovem, Zula (Joanna Kulig), rapidamente conquista seu espaço no grupo e no interesse de Wiktor. Com o passar do tempo, os dois vão ficando mais bem sucedidos e cada vez mais próximos, até virarem amantes. Quando a troupe é convidada para uma performance em Paris, Wiktor sugere que ele e Zula fujam para o ocidente.

Contar uma história que se passa por décadas, com personagens bem definidos, em tantos países, e que ainda dá a sensação de compartilhar duas vidas inteiras é para os melhores roteiristas e diretores. Não se trata aqui de um filme feliz, mas no cinema de arte, quantos amores terminam felizes para sempre? O desenrolar da trama ocorre durante duas décadas, em mais de três países. Mas enquanto nenhum tiro é disparado, o terror da repressão está presente em tudo do filme. Mesmo quando os personagens conseguem liberdade, suas circunstâncias continuam proibindo-os de experimentarem a real felicidade.

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Climax de Gaspar Noé

Festival de Cannes/Divulgação

Após um ensaio da apresentação que farão em uma turnê americana, mais de uma dúzia de dançarinos começam a comemorar e se descontrair. Por um certo tempo estão felizes, fofocando e trocando ideias até que, um por um, começam a sentir coisas estranhas. Alguém encheu a sangria de LSD, sem que os outros soubessem e, durante o resto do filme, vemos uma intensa “bad trip” coletiva levar todos do céu ao inferno.

Em matéria de narrativa, “Clímax” é o filme menos ambicioso da carreira do diretor. Sua narrativa mais ambiciosa, “Enter the Void”, tentou encobrir toda a existência de uma vida, de nascimento à morte. Dividiu críticos e ninguém assistiu. “Love”, seu filme mais recente, quis retratar um triângulo amoroso com sexo explícito. Com atores limitados, mas com disposição para fazer tudo que seu diretor pedisse, não impressionou. Noé, finalmente, parece ter resolvido falar mais com menos.

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4 Estrelas

Manbiki Kazoku de Hirokazu Kore-Eda

Festival de Cannes/Divulgação

Na primeira vez que vemos o cinquentão Osamu Shibata (Lily Franky) e o menino Shota (Jyo Kairi), os dois estão executando uma jogada ensaiada para furtar comida de um mercadinho. Enquanto a relação de pai e filho geralmente desencoraja este tipo de comportamento, o novo filme do japonês Hirokazu Kore-Eda, cujo título traduzido quer dizer “Furtadores”, é sobre uma família atípica, em mais de uma maneira. Osamu e a esposa Nobuyo (Sakura Ando) são dois vigaristas veteranos, engajados em manter sua família alimentada e abrigada enquanto ensinam seu truques e estratégias para as crianças.

A maior parte do filme consiste em ver o dia-a-dia desta família (com outros 4 integrantes), sentir tensão quando algo os ameaça, divertir-se com seus trambiques e emocionar-se em seus momentos de tranquilidade. O desfecho é menos previsível que se espera, e enquanto um tanto de tensão emocional é prevista, os solavancos são mais fortes do que o esperado. Enquanto vários filmes parecem se enrolar em seus epílogos, aonde a ação principal já terminou e o que acontece parece supérfluo, “Manbiki Kazoku” parece recomeçar.

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Capharnaüm de Nadine Labaki

Festival de Cannes/Divulgação

Não escolhemos o fato de termos nascidos, assim como quem são os nossos pais ou em qual país emergimos do ventre. Mas, se resolvermos não nos conformamos com estes fatores, podemos exigir alguma providência jurídica? Zain (Zain Al Rafeea), um menino libanês de 12 anos está num tribunal no começo de “Capharnaüm”, em pé defronte aos seus pais, processando-os por trazerem ele ao mundo. É uma premissa com apelo instantâneo, e resta à diretora Nadine Labaki entregar uma história à altura.

Em matéria de estética, Labaki parece unir as vontades do neo-realismo italiano com um pouco da tecnologia atual. Câmeras na mão, que penetram os caminhos estreitos de Beirute se juntam a planos aéreos feitos por drones. É fácil lembrar de “Cidade de Deus”, mas sem o aspecto de video-clipe e o excesso de filtros. O fato de que Labaki consegue contar essa história de uma maneira que não mergulha nem em misery porn e nem em melodrama, junto com as atuações das duas crianças, compensa.

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Dogman de Matteo Garrone

Festival de Cannes/Divulgação

De vez em quando um filme expressa exatamente o que deve se esperar dele pelo título. O protagonista de “Dogman”, é Marcello (Marcello Fonte), pequeno e magricela dono de um petshop que compartilha o nome do filme, numa cidade pequenininha da costa italiana. Como profissional, ele é talentoso. Domina e tranquiliza cães com o dobro de seu tamanho e de sua ferocidade. Ele também é popular: joga futebol com os amigos e tem bom relacionamento com outros comerciantes da área, que confiam nele. Separado, adora quando a filha vem visitá-lo, levando-a para mergulhar na praia local e sonhando em viajar com ela para um local exuberante e exótico.

Só que a cidade, economicamente arrasada e esteticamente deserta, tem um cão raivoso à solta. Marcello crê ter um grande amigo em Simone (Edoardo Pesce), o brutamontes mafioso que manda na região. Constantemente atrás de Marcello pela cocaína que este consegue (nem a pessoa mais inocente de uma Itália consumida pela máfia é um santo), Simone destrói tudo em sua volta e deixa a bagunça para Marcello resolver. O relacionamento entre os dois é o foco central do filme: um mundo cão, uma briga de cachorro grande, um osso duro de doer.

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Burning de Lee Chang-Dong

Festival de Cannes/Divulgação

Uma voz do passado chama a atenção de Jongsu (Ah-In Yoo), que caminha distraídamente por uma rua de Seoul. Mesmo sem reconhecer Haemi (Jong-Seo Jun), ele para e rende sua atenção para esta garota cujo trabalho é usar roupas mínimas e segurar placas de promoção para lojas da rua. Haemi pede que Jongsu venha regularmente para seu apartamento e alimente seu gato enquanto ela está fora numa viagem à África. Quando Haemi retorna, Jongsu vai buscá-la no aeroporto, e é surpreendido por Ben (Steven Yeun), que chega junto ela. Rico, charmoso e seguro de si, Ben é um contra-ponto direto a Jongsu, relativamente pobre e sem ambições ou perspectivas de vida. Os conflitos entre os membros deste triângulo é o que sustenta o resto da trama.

“Burning”, poderia virar (e de certa forma até é) mais uma história de um homem jovem em busca de uma mulher desaparecida. Só que em Murakami, não são as respostas que importam, mas sim as perguntas, e quem for assistir o filme esperando explicações ficará frustrado. O diretor Lee Chang-Dong incorpora ao audi-visual toda a ambiguidade e abstração do autor japonês que inspirou este filme, talvez provando ser seu melhor adaptador para o cinema.

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The House That Jack Built de Lars Von Trier

Divulgação/Festival de Cannes

O filme mais recente de Von Trier toma a forma de uma conversa entre Jack (Matt Dillon), um serial-killer, e Verge (Bruno Ganz), cuja imagem fica oculta até o final do filme. O tom da conversa é uma mistura entre o confessional, o terapeutico e o teórico, aonde imaginamos que Verge pode ser um padre, um terapeuta ou um intelectual. A conversa entre os dois gira em torno de uma teoria de Jack: que seus assassinatos são obras de arte. Ele resolve então contar 5 episódios de sua vida para Verge, afim de convencê-lo.

Se considerarmos que Jack é Lars von Trier, e os assassinatos sua obra cinematográfica, enxergo como clara a metáfora de que, até considerando todo o bafafá negativo que o lançamento de uma obra sua crie, von Trier sempre consegue fazer o seu próximo filme. Oras, se este diretor é uma pessoa tão ruim quanto pensam (assim como seria um serial-killer), por que diabos ele nunca para de trabalhar? Jack, alias, é um assassino que nunca se livra de suas vítimas, preferindo preservar os corpos em um antigo frigorífico, guardando-os por toda parte, como se fossem DVDs de filmes aos quais ele poderá sempre consultar. Assim como os corpos que Jack guarda, as obras de von Trier não desaparecem quando ele as termina.

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Mandy de Panos Cosmatos

Festival de Cannes/Divulgação

Red (Nicolas Cage) e Mandy (Andrea Riseborough) vivem num Éden particular–uma mansão no meio de um bosque verdante. Quando estão separados ele trabalha num moinho de madeira e ela desenha e pinta em seus cadernos. Juntos, se amam e contemplam tópicos místicos, como quais são seus planetas favoritos. Um dia, Mandy é avistada por uma gangue itinerante cujo líder espiritual (Linus Roache) decide tomá-la como sua. O casal sofre uma invasão doméstica e Mandy é morta enquanto Red assiste a tudo enrolado em arame farpado, torturado. Largado para trás, ele sobrevive, e decide se vingar.

Quanto menos se disser sobre as peripécias de Cage, melhor, mas só para se ter uma ideia, o filme envolve demônios de verdade em motocicletas e um machado de aço forjado pelo próprio Red numa cena mais ousada que qualquer outra de “Game of Thrones”. Ah, e também uma pequena participação de Bill Duke, mais conhecido por brigar com Schwarzenegger em “Comando para Matar”.

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3 Estrelas

BlacKkKlansman de Spike Lee

Festival de Cannes/Divulgação

Ron Stallworth (John David Washington) é o primeiro policial negro da cidade de Colorado Springs, no meio da década de 1970. Um dia, ele responde via telefone a um anúncio da Ku Klux Klan na lista telefônica e decide investigar a célula local, composta de caipiras idiotas reunidos em torno de um líder bem inteligente, e portanto sinistro. Como Stallworth não pode mostrar a cara para estas pessoas, ele mantém contato apenas telefonico, e recruta outro policial, este judeu (Adam Driver), para interpretá-lo nas reuniões presenciais.

“BlacKkKlansman” é um filme professorial demais para se perpetuar na memória histórica cinematográfica. Talvez por se tratar de um momento importante e necessário para se lançar um filme com estes temas, Lee tenha feito questão de uma linguagem didática e clara, a fim de aumentar o apelo e a digestão de sua mensagem. Afinal, quem já conseguiu seu lugar no panteão pode tudo.

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Les Filles du Soleil de Eva Husson

Festival de Cannes/Divulgação

Os extremistas do ISIS nunca encararam uma força tão destemida quanto o esquadrão de mulheres lideradas por Bahar (Golshifteh Farahani), a Unidade Kurda de Proteção às Mulheres (YPJ na língua original). Escondidas nas montanhas, elas acumulam vitórias e se preparam para tentar liberar a cidade onde viviam, antes desta ser atacada. Nossa entrada neste grupo é providenciada por Mathilde (Emmanuelle Bercot), fotógrafa de guerra francesa que espera superar um trauma pessoal ao contar a história destas guerreiras furiosas.

Como filme e narrativa, ele não é muito diferente de qualquer obra de estúdio americano. Husson inova ao contar sua história com protagonistas interessantes, mas o faz da maneira mais tradicional possível. Todos os clichês estão lá: a música que explicita os momentos de emoção, os largos planos de paisagem e contemplação da beleza natural que é palco da crueldade humana, e a coleção de relatos traumáticos que beiram a categorização de misery porn (até o parto obrigatório em uma situação adversa acontece).

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En Guerre de Stéphane Brizé

Festival de Cannes/Divulgação

Laurent Amédéo, um operário de fábrica, é um dos líderes de uma greve no sul da França. Como o filme começa já no meio do embate, vamos descobrindo as poucos que a fábrica automotiva, da companhia Perrin Indústrias, será fechada, pois a administração, localizada na Alemanha, decidiu que ela não consegue ser competitiva. Só que dois anos, os operários da fábrica já tinham combinado um congelamento de salários baseado na promessa de manter a fábrica aberta. Após um aproveitamento da situação fiscal, e de uma grande distribuição de lucros para seus acionistas, a Perrin (empresa fictícia) decidiu quebrar o acordo.

Como o próprio título já indica, este é um filme de conflito. Mas não de uma maneira poética ou existencial. Essa guerra é na trincheira, acompanhando o passo a passo das amarguras que os operários deste filme sofrem. Brizé não está interessado em mediar os dois lados, afinal, na história aqui retratada, só um dos lados tem algo a perder.

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Jiang Hu Er Nv de Jia Zhang-Ke

Festival de Cannes/Divulgação

Como é típico no trabalho de Jia Zhang-Ke, seu novo filme começa numa pequena cidade industrial do interior Chinês. Só que a mina local já quebrou, e as perspectivas de tempos melhores se esfumaçaram. Qiao (Zhao Tao), tenta dar uma assistência ao pai, que se dedica cada vez mais ao álcool, após perder seu emprego na mina. Talvez para contrastar com isto, ela é a namorada apaixonada do mafioso local, Guo Bin (Liao Fan), dono de uma boate noturna.

Qiao fica bem mais energizada quando está com o namorando. Carinhosa e paciente com o pai, feroz e intimidadora com Bin e seus comparsas. O chefe de Bin, um construtor corrupto fascinado por dança de salão (um dos detalhes de personalidade mais hilários de toda a obra do diretor), é assassinado e o gângster de segunda categoria é promovido a um ranking ao qual ele não está minimamente preparado. De fato, quando membros de uma gangue rival o cercam para matá-lo, Bin é resgatado pela namorada no que é, claramente, a mais bem fotografada e acelerada do filme. Presa pela polícia, Qiao diz que a arma usada no episódio é dela, para proteger o verdadeiro dono, seu namorado. Condenada a 6 anos de prisão, ela termina sua sentença fixada em reencontrar Bin. Por mais que o mundo mude, a atração gravitacional de nossos passados é forte demais para um recomeço limpo.

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Lazzaro Felice de Alice Rohrwacher

Festival de Cannes/Divulgação

Lazzaro (Adriano Tardiolo) é um lavrador jovem e ingênuo que mora no pequeno vilarejo Inviolata, e trabalha com a família locadora do terreno no plantio e colheita de tabaco. A família, por sua vez, é vigorosamente explorada pela dona da terra, a Marquesa Alfonsina de Luna (Nicoletta Braschi). O cenário pastoral, lindo e antiquado, remete ao começo do século, porém um detalhe ou outro, como o uso da eletricidade e o uso de um walkman e, eventualmente, de um celular indicam que algo está errado na temporaneidade do conto.

No final das contas, “Lazzaro Felice” é uma fábula, como a presença do realismo mágico indica, sobre distúrbios capitalistas. O problema é que, até o final da obra, o espectador percebe que sua mensagem é um tanto confusa. Rohrwacher tenta de tudo para dar um destino final ao seu personagem, mas parece não ter conseguindo pensar em algo tão forte quanto a proposta inicial do filme.

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Yomeddine de A. B. Shawky

Festival de Cannes/Divulgação

O egípcio Beshay (Rady Gamal) foi colocado numa colônia para leprosos enquanto criança. Hoje com 40 anos e curado da doença, embora ela tenha deixado seu corpo permanentemente desfigurado, ele montou uma vida para si mesmo na colônia. Munido de um jegue, ele coleta lixo para reciclagem e é casado com uma outra membra da colônia, que sofre distúrbios psicóticos. No começo do filme, Beshay está esperando a esposa sair do tratamento, mas é em vão. Viúvo, ele decide voltar para a família que o abandonou. Junto com ele, escondido em sua carroça, vai um de seus amigos, a criança órfã Mohammed, (Ahmed Abdelhafiz), apelidado de Obama.

O diretor estreante, A. B. Shawky, tem um pilar importante na presença do não-ator Rady Gamal, que realmente contraiu a doença em sua juventude. Ele interpreta Beshay como uma pessoa feliz, que nunca se porta como vítima e cuja única indicação de alguma decepção é esta busca de resolução com sua família. O roteiro extirpa excessos de sentimentalidades dentro do possível, e reserva tudo para o encontro final de Beshay com seu pai. A conversa entre os dois é o ponto inesquecível desta história, bem escrito ao ponto de ser surpreendente, crescendo com uma trilha sonora afetante e uma montagem primorosa.

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Todos Lo Saben de Asghar Farhadi

Festival de Cannes/Divulgação

Laura (Penélope Cruz), espanhola de nascença, porém casada e radicada na Argentina volta à vila espanhola aonde cresceu para um casamento de família. Seu marido, Alejandro (Ricardo Darín), ficou em casa por causa do trabalho. Acontece que todo mundo na vila sabe que Laura, quando adolescente, vivia um romance com Paco (Javier Bardem), e as razões pela qual ela desistiu de tudo e mudou para a Argentina são desconhecidas. Durante a festa de casamento, a filha mais velha de Laura (ela tem outro, um menino) é sequestrada e os criminosos pedem um valor de resgate que ela não conseguirá pagar.

Farhadi está interessado em consequencias das decisões destas pessoas, tanto as do presente quanto as do passado, por isso ele oferece a revelação do que aconteceu com Laura. É por esse foco singular em causa e efeito que ele consegue criar histórias tão tensas sem maniqueísmo. Em seus filmes, todos tem suas falhas e suas virtudes, e tudo isso reflete nas camadas de revelações que vão forçando todos a tomarem decisões drásticas.

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Whitney de Kevin MacDonald

Festival de Cannes/Divulgação

O gênero do biopic musical já está um tanto batido. Tão batido que, com tantos artistas reais para se conhecer e discutir, talvez os documentários tenham uma vantagem por serem mais relevantes do que as ficções, numa instância aonde a vida real é mais interessante que a arte. O blockbuster mais recente é “Whitney”, sobre a americana Whitney Houston, morta em 2012, afogada em uma banheira de um quarto de hotel após uma longa luta contra as drogas.

O formato é o clássico que conta a história de uma pessoa desde o nascimento até sua morte. Ele começa com uma montagem em alta velocidade do estrelato de Whitney, embalado por uma versão acapella de “I Wanna Dance with Somebody”, para depois revelar que sua mãe, Cissy Houston, uma bem-sucedida cantora de background a educou desde o berço para ser a maior voz da indústria musical, ensinando-a a cantar com “a cabeça, o coração, e as vísceras. Sua vida familiar se despedaça com a separação dos pais e depois ela segue para uma carreira no show business que a levaria para o desastre.

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Wildlife de Paul Dano

Festival de Cannes/Divulgação

O menino Joe (Ed Oxenbould) – que se assemelha fisicamente ao diretor – está testemunhado o término do casamento de seus pais, Jerry (Jake Gyllenhaal) e Jeanette (Carey Mulligan). De classe média, a família está entrando na pobreza, devido à incapacidade de Jerry, veterano da Segunda Guerra, de manter um emprego. Orgulhoso, ele não permite que a esposa volte à trabalhar. Quando ele consegue um emprego arriscado, que requer muito tempo fora de casa, o casamento termina de vez e Jeanette resolve se virar na vida.

O olhar do roteiro – aquele do menino Joe – é a principal artimanha em manter o filme discreto. Joe, afinal, ainda não entende o mundo dos adultos, assim como não fica tão exposto ao que os adultos em sua volta estão fazendo. À medida em que o tempo passa, Joe vai se inserindo neste novo contexto, e o resultado é uma história de “coming of age” exemplar por sua sutileza e delicadeza.

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O Grande Circo Místico de Cacá Diegues

Festival de Cannes/Divulgação

O nascimento e a vida d’O Grande Circo Místico, comprado pelo aristocrata Frederic Knieps (Rafael Lozano), descendente de austríacos completamente apaixonado pela contorcionista Beatriz (Bruna Linzmeyer). É para ela que Knieps compra o circo, mas a vida que ele fantasia, dedicada ao seu grande amor já é interrompida enquanto Beatriz está grávida do primeiro filho. O filme retrata 100 anos da família, durante 5 gerações.

Filmes feitos no esplendor da terceira idade, especialmente aqueles que se referem às artes, se atolam no pântano da nostalgia com enorme frequencia. A arte, retratada por artistas, é sempre divina, pura e transcendente. A expectativa para um filme chamado “O Grande Circo Místico”, com a direção de Cacá Diegues, um dos diretores fundadores do Cinema Novo, era de um grande água-com-açúcar, pelo menos para quem desconhece o poema homônimo inspirador do filme, de Jorge de Lima. Bela surpresa descobrir que o filme passa longe disto. Embora não isento do amor à arte, o filme brasileiro sustenta uma outra tese: o preço alto pago por quem se dedica à criação.

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Gongjak de Jong-Bin Yoon

Festival de Cannes/Divulgação

De vez em quando, a vida acelera a relevância da arte. Tal é o caso em “Gongjak” um filme sobre um espião sul-coreano que começa a se infiltrar no governo da ditadora vizinha em 1993, quando o mundo começou a se preocupar com a possibilidade da Coreia do Norte desenvolver armas nucleares. O filme se diz verídico, inspirado em depoimentos do agente secreto “Black Venus”, Park Suk-young (Hwang Jung-min), que infiltrou a alta cúpula do Partido Comunista Norte Coreano posando como um empresário corrupto.

Quem espera um thriller de bombas a explodir e de relógios em contagem regressiva se decepcionará com esta trama mais ponderosa e consequente. Mantendo-se como “história real”, o diretor se livrou do espetáculo cinematográfico e decidiu contar uma história sobre relacionamentos. Não é a espionagem do bangue-bangue, mas sim a de conversas escusas em salas privadas, regadas a uísque e fumaça.

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Leave No Trace de Debra Granik

Festival de Cannes/Divulgação

Will (Ben Foster) e Tom (Thomasin McKenzie) parecem brincar de pique-esconde numa floresta. Will estuda a paisagem vagarosamente, absorvendo cada detalhe sem andar pelas árvores e pela folhagem, até que avista sua filha. “Você não cobriu sua meia direito,” ele explica. O sutil sinal de uma cor que não pertencia aquele cenário. A brincadeira é coisa séria, e se assemelha mais a um treinamento do que uma atividade de lazer. Pai e filha moram escondidos da sociedade, acampados na natureza.

Filmes como “Capitão Fantástico” ou até mesmo “Rambo”, que cobrem o mesmo tipo de proposta, preferem discursar, como personagens arquetipais com visões de mundo reduzidas à vilania. Debra Granik, quer algo mais realista, sempre. Seus filmes focam em pessoas que vivem à margem da sociedade e assim desenvolvem seus próprios sistemas de ordem.

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Gräns de Ali Abbasi

Festival de Cannes/Divulgação

Romeu e Julieta, Bogart e Bacall, Tracy e Hepburn… Os casais do cinema são inúmeros. Mas mesmo depois de um século inteiro, ninguém preparou o espectador para um casal tão estranho quanto Tina (Eva Melander) e Vore (Eero Milonoff). Ela é uma agente alfandegaria, que passa o dia assistindo passageiros entrando no país. Seu faro é tão apurado que, caso recebesse uma postagem para Guarulhos, sozinha acabaria com todo o contrabando de brasileiros que viajam à Miami para fazer compras. Um dia, na alfândega, Tina se depara com Vore, que tem seus mesmos defeitos fisionômicos. Ele a olha faminto, lambe os lábios como se estivesse para devorá-la. A conexão é imediata, e Tina fica tão atordoada que ela nem consegue denunciá-lo pelo contrabando que traz.

“Gräns” degringola um pouco no final, à medida que vai se movendo cada vez mais longe de um filme sobre um relacionamento a fim de estabelecer uma mitologia que expandiria o universo destes dois personagens. Aqui entra uma questão: os rumos novos do final da história seriam ditados pela tradição folclórica mais conhecida pelas plateias norueguesas?

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2 Estrelas

Leto de Kirill Serebrennikov

Festival de Cannes/Divulgação

A primeira cena do filme é um espetáculo: em um longuíssimo plano-sequencia, um grupo de adolescentes anda por um beco imundo e escala a lateral de um edifício, entrando por uma pequena janela no prédio abandonado, percorrendo os corredores e escadas apinhados de gente para ver um show de rock. A época é anos 80, e numa Rússia ainda fora do período reformista da perestroika, a música ocidental não é muito bem aceita — o Clube de Rock Leningrado, na cidade epônima, é um dos únicos lugares com uma licença governamental para isso.

Todo esse foco em ambiente resulta em uma escassez de personagem. Não no número deles, mas sim em sua profundidade. Além dos roqueiros que conhecemos não serem tão interessantes quanto deveriam, ficaram desprovidos de um sentido de tensão e conflito, um tanto apáticos quanto à suas próprias vidas fora do rock. E com tanta conversa sobre esse assunto, os outros ficaram deficientes. Ao descompasso de outros filmes de rock, “Leto” vive, vibra e reverbera nas cenas músicas, em vez das cenas dramáticas. Descobrir, no final de contas, que esta é uma história sobre pessoas reais, só sublima o fato de quão interessante teria sido conhecê-los melhor.

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Le Livre d’Image de Jean-Luc Godard

Festival de Cannes/Divulgação

Jean-Luc Godard se comunica cada vez mais com plateias menores. Desinteressado em fazer cinema para grandes públicos, e lutando para inovar o sistema de linguagem da própria sétima arte desde a década de 60, seus filmes mais recentes estavam ficando cada vez mais eruditos. “Le Livre d’Image”, porém, mostra um diretor brincalhão e sorridente, pelo menos por grande parte de sua direção. O filme cai ao final porque Godard não é de ferro, e volta a lecionar de maneira opaca.

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Plaire, Aimer et Courir Vite de Christophe Honoré

Festival de Cannes/Divulgação

É importante notar o tempo no novo filme do francês Christophe Honoré. Se trata, na maior parte de suas 2 horas e vinte minutos de um romance, mas por se passar no distante ano de 1993, é um romance iniciado à moda antiga: sem celulares, redes sociais e com desencontros telefônicos. Tal acomodação ainda remete a um tempo quando as pessoas liam livros inteiros, pois Jacques (Pierre Deladonchamps) é um escritor soropositivo e Arthur (Vincent Lacoste) é um estudante e leitor voraz, que já conhece o trabalho do homem por quem se apaixonará.

Esta normalidade, porém, é o ponto fraco de “Plaire, Aimer et Courir”, pois se trata de um filme perfeitamente regular, cujo nível de interesse do espectador variará conforme ele goste ou não de passar tempo com os personagens.

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Netemo Sametemo de Ryusuke Hamaguchi

Festival de Cannes/Divulgação

Geralmente quando vemos que um filme dirigido por um homem tem o nome de uma mulher, imaginamos que se tratará de uma história idealizada, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Asako (Erika Karata), que começa o filme como uma estudante na faculdade, reverte esse olhar, sendo ela a agente desta história. Asako ignora os conselhos de seus amigos, que a advertem contra Baku (Masahiro Higashide), seu novo namorado, que tem fama de galanteiro inconsequente, e fica completamente apaixonada por ele. Os dois são jovens bonitos e interessantes, ela um tanto CDF, ele bad boy. Um dia Baku some, sem dar explicações, deixando Asako para trás, sem respostas e inconformada.

O filme tem, claro, muita conversa sobre as intermitências do amor, suas versões e suas desilusões, mas nada do que se discute será lembrado pelas pessoas expostas a elas. Similarmente, a imagem dos dois atores principais, jovens e bonitos, reflete a limitação de experiência de vida que eles conseguem expressar. Vários atores cujos rostos já contam histórias, talvez elevassem o material do filme a algo mais interessante, mas eles não foram escalados para o filme.

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Solo: A Star Wars Story de Ron Howard

Festival de Cannes/Divulgação

Han Solo, o piloto cínico e veterano que encontra propósito e amizade ao se juntar à Rebelião da trilogia Star Wars inicial, sempre foi o favorito dos fãs. Visto pela primeira vez num boteco em Tattooine, contratado por Luke Skywalker e Obi-Wan Kenobi para contrabandeá-los para fora do planeta, ele nunca precisou ter seu passado explicado. Além de ser um personagem arquetipal, o arco dramático de sua vida que realmente interessa foi este iniciado no episódio quatro.

“Solo” oscila entre ser um verdadeiro space western (pela primeira vez não vemos nenhum uso da Força num filme Star Wars, ou mesmo membros do governo imperial) e um fan-fiction esclarecedor de tudo que se imaginou e tudo que não se imaginou sobre Han Solo. Como filme, a obra não é ruim–sem riscos e sem charme, embora funcional.

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Fahrenheit 451 de Ramin Bahrani

Festival de Cannes/Divulgação

Guy Montag (Michael B. Jordan) é um bombeiro típico num futuro aonde sua profissão não é apagar fogos, mas sim acendê-los. O governo, distópico e altamente vigilante de seus cidadãos, tornou ilegal a existência de livros, e qualquer evidência de literatura deve ser prontamente incinerada, e seu portador preso. Montag, porém, é uma alma sensível e propensa a questionar a sociedade após um confronto de ideias.

A primeira metade do filme, ocupada em nos situar nesta realidade, é uma grande promessa. Bahrain erra, porém, ao inventar uma trama diferente da original para aparentemente “atualizá-la” aos jovens de hoje (leia-se fãs de super-heróis), aonde todos os personagens estão em busca de um objeto qualquer, o famoso MacGuffin. A sequencia final é um confronto ou uma batalha por esse misterioso objeto, capaz de impactar toda a população da Terra (ou por sua destruição, ou através de uma transmissão de conteúdo controverso, como neste caso).

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Arctic de Joe Penna

Festival de Cannes/Divulgação

Overgard está no meio de seu calvário: sozinho na neve do Ártico, ele habita um avião acidentado (a dica que ele era um tripulante é um crachá), maneja os equipamentos de pesca que ele implantou para se alimentar e confere a bateria de seu localizador, colocado no alto de uma pequena montanha. O dia é preenchido por esta rotina, que oscila entre uma real esperança de ser salvo com um método de manter o desespero à margem. De vez em quando, um enorme urso polar aparece para rondar o acampamento e roubar seus peixes.

YouTuber já famoso e estabelecido, Penna estreia em Cannes como um diretor tecnicamente ambicioso e capaz. Como todos os outros filmes do gênero de “Arctic”, porém, a trama é um tanto previsível. Resta a ele levar seu primor técnico a um filme realmente inovador.

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El Ángel de Luís Ortega

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Filmes sobre criminosos reais são sempre um baú de complicações. Além das necessárias liberdades artísticas com evento e diálogos, arrisca-se sempre vangloriar pessoas repreensíveis. Geralmente, são casos bem conhecidos, e cada espectador já leva consigo uma análise prévia sobre o personagem em destaque. “El Ángel”, do argentino Luís Ortega traz uma história em grande parte desconhecida por quem não acompanhou o caso de Carlos Robledo Puch (Lorenzo Ferro), uma escalada de crimes, de invasão à domicílio até assassinato em série, especialmente depois que ele fica amigo de Ramon (Chino Darin), colega de escola galanteador.

A vida de Puch certamente criou um buraco nas vidas de quem conhecia suas vítimas e da sociedade argentina de sua época, algo que deixa todos com sede de respostas. Claro que é muito difícil e arriscado oferecer isto num filme, coisa que “El Ángel” não faz. No fim das contas, porém, o filme não faz nada demais.

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Le Grand Bain de Gilles Lellouche

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Mathieu Amalric, nascido para interpretar personagens deprimidos e ansiosos, é Bertrand, pai de família desempregado há dois anos. Ele se recusa a pedir a ajuda do cunhado, e sua esposa tenta apoiá-lo o máximo possível, mesmo enquanto ele vai perdendo o respeito de seus filhos e conhecidos. Por razão nenhuma, ele decide entrar num time de nado sincronizado junto com um roqueiro que nunca conseguiu o sucesso (Jean-Hugues Anglade), um vendedor de piscinas falido (Benoît Poelvoorde), um porteiro tímido (Philippe Katerine), um destemperado recém divorciado (Guillaume Canet) e um imigrante que não fala francês (Balasingham Thamilchelvan).

Se nada da trama impressiona, toda a graça do filme vem de seus intérpretes. Completamente foras de forma e socados em sunguinhas, tentando executar acrobacias aquáticas, e resmungando uns com outros, a turma em muito lembra o esquadrão do clássico inglês “Ou Tudo ou Nada”, em que operários sem recursos fazem strip-tease para pagarem as contas. “Le Grand Bain” é uma fórmula divertida, duas horas de entretenimento para quem quer esvaziar a cabeça e sair sorrindo.

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À Genoux Les Gars de Antoine Desrosières

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O escracho também tem lugar no templo do cinema! Rim (Inas Chanti) e Yasmina (Souad Arsane) são duas adolescentes, irmãs, no segundo grau. Rim, mais velha e mais estereotipicamente bonita, namora Majid (Mehdi Dahmane) galã com sobrancelhas prontas para o cinema. Sempre ao lado de Majid, vemos Salim (Sidi Mejai), seu melhor amigo e “parça”, sempre na espreita para faturar Yasmina, a mais intelectual do grupo.

Adultos provavelmente saíram atônitos e desgostos do filme, especialmente com todos os abusos de homens em cima de mulheres que estão aparecendo todos os dias nos noticiários. Como o filme absurdamente e idioticamente adolescente que “À Genoux Les Gars” é, talvez os mais jovens não se incomodem.

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Joueurs de Marie Monge

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Ella (Stacy Martin) é uma jovem mulher francesa confortável na vida que leva. Ela trabalha no bistrô do pai, mas não é uma mera funcionária. Gerente, sabe fazer o negócio rodar e comanda os funcionários. Um dia, o jovem Abel (Tahar Rahim) vem pedir um emprego como lavador de pratos. Desconfiada, Ella começa a duvidar do que ele lhe fala, mas a lábia é boa, e Abel já passa a primeira noite no restaurante. Na hora de fechar, de madrugada, ele furta o dinheiro do caixa e Ella o persegue até um clube de apostas underground. Lá, Abel consegue seduzí-la e iniciá-la no submundo.

Tahar Rahim e Stacy Martin são dois atores franceses bem interessantes, e a união dos dois, pela primeira vez na telona, cria a expectativa de algo poderoso, de faíscas, até, como o título em inglês sugere (“Treat Me Like Fire”, se traduz em algo como “trate-me como fogo”). Realmente, ambos entregam boas performances. Seus personagens, porém, não são nem minimamente interessantes.

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1 Estrela

Under the Silver Lake de David Robert Mitchell

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Sam (Andrew Garfield, em seu melhor papel desde “Red Riding”) é um personagem totalmente ocioso que mora em um daqueles prédios pequenos e descaracterizados que povoam as largas avenidas que entram e saem de Los Angeles. Sem emprego, atividades, ou hobbies, além de um enorme repertório geek na cabeça, Sam passa os dias espiando uma vizinha de topless, conversando com outros amigos slackers, transando com uma menina que tenta ser atriz, indo para festas e conhecendo pessoas, tudo bem aleatoriamente, e tentando convencer seu síndico a não despejá-lo por falta de pagamento. Quando sua vizinha desaparece, Sam tenta descobrir o que aconteceu, caindo cada vez mais fundo num buraco sem fim de teoria da conspiração.

O problema aqui é que o filme lança um mistério e o deixa sem resposta, mas sim que ele fornece uma explicação para tudo que aconteceu, numa das piores cenas de pura exposição já filmadas em Hollywood, sem graça e inelegante. Pior ainda é aquela muleta que sempre aparece em filmes extremamente criativos: pode ser que tudo a que assistimos não passe de um delírio de um protagonista com problemas mentais (as dicas estão lá desde o que começo). Muito barulho por nada.

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