Cannes: “Se Rokh”, de Jafar Panahi

Meta-narrativa do diretor iraniano Jafar Panahi, censurado e preso por seu governo, é uma denúncia às dificuldades impostas nas mulheres

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Se Rokh
1 de 1 Se Rokh - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

Quando uma obra de arte é produzida, e lançada ao mundo, ela deixa de pertencer ao artista e é possuída por quem se dispõe a apreciá-la. Nem sempre o resultado é o esperado, de fato, em “Se Rokh”, um diretor e uma atriz são expostos ao pior possível. O filme começa com um vídeo selfie de um smartphone: a jovem Marziyeh (Marziyeh Rezaei), que sonha em ser atriz por admirar o trabalho de Behnaz Jafari (Behnaz Jafari), diz que seu pai a proibiu de seguir seu sonho depois que ela é aceita numa universidade de artes. Desesperada, ela parece se enforcar no vídeo, recebido por Jafar Panahi (Jafar Panahi). O personagem, uma versão do próprio diretor, leva o vídeo à atriz e os dois partem para o vilarejo em busca da jovem.

O que ocorre em seguida é um road trip improvável, e mais leve e bem-humorado do que a premissa do filme parece prometer. Os dois tem poucas pistas sobre a identidade da menina e apenas uma menção ao vilarejo em que ela mora. O que fica logo aparente é que Panahi não está interessado em apenas descobrir o que aconteceu com esta menina, mas também fazer uma análise de sua sociedade para tentar refletir sobre quais são as forças que levariam uma jovem a tomar a atitude de Marziyeh.

Pahani e Jafari desconfiam que o vídeo seja fake. Afinal, se a menina se enforcou em um local remoto, quem teria enviado a eles as imagens? É uma questão metalinguística que remonta a um filme como um todo. Se Jafari e Panahi estão interpretando a si mesmos, o que estamos vendo realmente aconteceu? A resposta é um ‘não’ bem óbvio, pois se estivéssemos vendo uma realidade, seria difícil que ela fosse tão bem filmada, para dizer o mínimo.

Grande parte do filme é dado à estrutura de típicos road-movies: encontros dos protagonistas, habitantes de cidades, com diferentes personagens ruralistas e “simples”. Estes encontros não movimentam a trama para frente, mas formam retratos sobre as pessoas e as culturas por onde os personagens passam. É por meio deles que estes filmes revelam suas verdadeiras naturezas, a exploração das forças que formam um país, ou uma realidade. Aqui, Panahi está explorando o machismo. Enquanto ele e Jafari procuram uma menina impedida de fazer o que quiser com sua vida, e são forçados sempre a entrarem em conversas sobre virilidade masculina (em uma cena, um pedaço de prepúcio tem uma participação).

Tudo isso ainda leva a Shahrazade, nome interessante para uma ex-atriz que, neste filme, se auto-exilou da profissão pelos constantes mau-tratos que sofreu na mão de diretores abusivos. Pouco a pouco, e sem a maior pretensão, Panahi conta a história de três gerações de mulheres, marcadas pela dominância dos homens. Não é uma história necessariamente iraniana, mas sim global.

Falando pouco e mostrando muito, “Se Rokh” lembra um conto de Ernest Hemingway. Contido, preciso metafórico… perfeito.

Avaliação: Excelente (5 estrelas)

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