Cannes: “Lazzaro Felice”, de Alice Rohrwacher

Fábula italiana mistura o realismo mágico com a depressiva realidade de uma Itália moderna e corrupta

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Lazzaro Felice
1 de 1 Lazzaro Felice - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

O cinema é cheio de protagonistas que, sem intenção ou propriedade, e com fortes indícios de deficit cognitivo, formam a narrativa e a História humana para o bem. O caso mais famoso seria Forrest Gump, no filme homônimo, ou Chance, de “Muito além do jardim”. A diretora italiana Alice Rohrwacher, em seu novo filme, usa este tipo de personagem não para resolver a vida dos outros com sua simplicidade bondosa, mas sim para sofrer as agruras que ele não consegue compreender e processar.

Lazzaro (Adriano Tardiolo) é um lavrador jovem e ingênuo que mora no pequeno vilarejo Inviolata, e trabalha com a família locadora do terreno no plantio e colheita de tabaco. A família, por sua vez, é vigorosamente explorada pela dona da terra, a Marquesa Alfonsina de Luna (Nicoletta Braschi). O cenário pastoral, lindo e antiquado, remete ao começo do século, porém um detalhe ou outro, como o uso da eletricidade e o uso de um walkman e, eventualmente, de um celular indicam que algo está errado na temporaneidade do conto.

O que acontece é que a Marquesa está (obviamente) explorando seus lavradores, desconectando-os do mundo nos anos 90 e fazendo com que pensem ainda serem parte de um feudo econômico. Os lavradores, num reflexo da mesma moeda, reconhecem que tem uma existência miserável, e exorcizam o fardo de outras formas. A maneira mais pertinente recai sobre Lazzaro, que nunca declina uma tarefa pedida para ele, mesmo que não receba benefício algum, e é motivo de piada para todos os moradores do vilarejo de nome irônico.

Um dia, o simples camponês se envolve em uma trama criminosa, claro que sem saber, e apenas na intenção de ajudar os outros. Para ele, o resultado é o pior possível, e na primeira indicação que o filme não se passa em nossa realidade, mas em algo mágico. Lazzaro, sem perceber a passagem do tempo, se encontra na Itália moderna, 30 anos após seus dias na lavoura, sem ter envelhecido um dia.

A segunda metade do filme traz seu real propósito: comparar uma inocência pastoral de um país milenar com o que a modernidade, que a destruiu, espalhou na sociedade. Lazzaro reencontra a família, as crianças agora envelhecidas, e, obviamente, se envolve em novas estripulias com eles que, desempregados, tem de se virar com pequenos golpes e estelionatos para sobreviverem.

No final das contas, “Lazzaro Felice” é uma fábula, como a presença do realismo mágico indica, sobre distúrbios capitalistas. O problema é que, até o final da obra, o espectador percebe que sua mensagem é um tanto confusa. Rohrwacher tenta de tudo para dar um destino final ao seu personagem, mas parece não ter conseguindo pensar em algo tão forte quanto a proposta inicial do filme.

Avaliação: Bom (3 estrelas)

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