Cannes: “Plaire, Aimer et Courir Vite”, de Christophe Honoré
Romance entre um escritor e um estudante é regular demais para merecer muito destaque.
atualizado
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É importante notar o tempo no novo filme do francês Christophe Honoré. Se trata, na maior parte de suas 2 horas e vinte minutos de um romance, mas por se passar no distante ano de 1993, é um romance iniciado à moda antiga: sem celulares, redes sociais e com desencontros telefônicos. Tal acomodação ainda remete a um tempo quando as pessoas liam livros inteiros, pois Jacques (Pierre Deladonchamps) é um escritor soropositivo e Arthur (Vincent Lacoste) é um estudante e leitor voraz, que já conhece o trabalho do homem por quem se apaixonará.
Embora passemos mais tempo com Jacques, o filme é sobre os dois e suas vidas: seus amantes, suas descobertas, suas dificuldades e reflexões. Importante ressaltar novamente o tema da temporalidade, pois existe uma diferença de 10 anos em suas idades, e, mais de uma vez, é sugerido que Arthur é um paralelo do que Jacques costumava ser. Enquanto o mais jovem está maturando sua sexualidade, Jacques está lamentando as limitações e o possível término de sua atividade sexual como portador da doença. Os dois se conhecem num cinema, e são mostrados com vários amantes diferentes, mas enquanto a vida de Arthur é pulsante, a de Jacques é terminal. Existe neste filme um contraste constante entre uma geração desprevenida para a AIDS e uma que se criou após ela não ser mais uma sentença de morte.
Qualquer refresco que o filme dá é em seu alívio cômico, o vizinho Mathieu (Denis Podalydès). Em um relacionamento platônico com Jacques, sem menção alguma de um dia os dois terem tido um caso ou mesmo se interessado em tentar, Mathieu é aquele amigo do protagonista de uma comédia romântica que não precisa carregar o filme em seus ombros, e por isso pode aproveitar pra se divertir em cena.
Há algo a se dizer numa época em que um filme romântico entre dois homens gays contém a normalidade de um que junta um homem com uma mulher. O cinema queer é um gênero por si só, e recheado de filmes de vanguarda. Se mostrar dois homens vivendo uma história de amor já era um tabu, jovens cineastas aproveitavam para também experimentar com fotografia e com a forma narrativa.
Esta normalidade, porém, é o ponto fraco de “Plaire, Aimer et Courir”, pois se trata de um filme perfeitamente regular, cujo nível de interesse do espectador variará conforme ele goste ou não de passar tempo com os personagens. Como não se trata de um spoiler dizer que Jacques é soropositivo, uma nova barreira precisa ser vencida por filmes como este: o uso da AIDS como a força trágica que separa casais. Assim como filmes hetero pecam pelo excesso de acidentes veículares, o ato final sempre consiste em um membro do casal morrendo lentamente enquanto o outro cuida dele, se fortalecendo emocionalmente pela morte.
Avaliação: Regular (2 estrelas)
