Cannes: “Under the Silver Lake”, de David Robert Mitchell

Terceiro filme de um diretor identificado como uma promessa norte-americana é a mais ambiciosa e criativa bomba do Festival.

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
Under the Silver Lake
1 de 1 Under the Silver Lake - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

Um dos apelidos de Los Angeles é “cidade dos sonhos”, tanto por ser o centro do showbusiness americano quanto pelo clima incansavelmente ensolarado, sua luz filtrada por uma camada de fumaça e neblina, o famoso “smog”. Como sabemos que o número de pessoas que lá realizam seus sonhos é bem menor do números de pessoas que lá são derrotadas, é justo dizer que a cidade também abriga um sem-número de pesadelos. Por isso é o cenário ideal para “Under the Silver Lake”, um filme populado pelas pessoas à beira desta indústria dos sonhos, ainda tentando ser parte dela, se envolvendo em conspirações, mistério, sexo e violência-tudo misturado com toques de esquizofrenia paranóica.

Sam (Andrew Garfield, em seu melhor papel desde “Red Riding”) é um personagem totalmente ocioso que mora em um daqueles prédios pequenos e descaracterizados que povoam as largas avenidas que entram e saem de Los Angeles. Sem emprego, atividades, ou hobbies, além de um enorme repertório geek na cabeça”, Sam passa os dias espiando uma vizinha de topless, conversando com outros amigos slackers, transando com uma menina que tenta ser atriz, indo para festas e conhecendo pessoas, tudo bem aleatoriamente, e tentando convencer seu síndico a não despejá-lo por falta de pagamento.

Após um encontro com uma vizinha jovem e loira (Riley Keough-claramente formatada como uma das famosas “loiras de Hitchcock”), aonde os dois fumam maconha e assistem um filme de Marilyn Monroe, ela desaparece no meio da noite, junto com tudo que havia em seu apartamento. Sam passa o resto do filme tentando descobrir o que aconteceu com ela, caindo cada vez mais fundo num buraco sem fim de teoria da conspiração que envolve a morte de um dos homens mais ricos da cidade, um autor de quadrinhos, um circuito de túneis subterrâneos, uma rede de starlets prostitutas, um mapa numa caixa de cereal e o autor de todas as músicas pop e rock dos últimos 70 anos, entre outros.

Em termos de referência, o diretor e roteirista David Robert Mitchell coloca o detetive de “O Longo Adeus”, clássico dos anos 70 de Robert Altman, numa trama de Thomas Pynchon, que escreveu o livro em que é baseada a obra “Vício Inerente”, de Paul Thomas Anderson. David Lynch também exerce forte influência. É por isso que qualquer descrição de “Under the Silver Lake” o faz parecer o filme mais intrigante do ano, e eis seu paradoxo: o filme é uma obra-prima sobre conspirações e paranóia por grande parte de suas duas horas e meia de duração, até cair de um penhasco tão alto, que a cratera resultante ofusca muito de sua virtude.

Percorrer o caminho do roteiro é intrigante, curioso e finalmente frustrante. Como o título sugere, o tema é procurar o que está por trás da superfície dos objetos, das pessoas e dos acontecimentos que nos cercam. Isso de forma tão erudita às vezes, que daria uma ótima análise em termos estritamente semiológicos. No final das contas, porém, esta obra parece mais uma colagem de ideias jogadas aleatoriamente numa parede, só pra ver o que cola.

“Under the Silver Lake” é enterrado pelos mesmos problemas de “It Follows”: apesar de uma premissa interessante e um diretor jovem com arcabouço de mestre veterano na linguagem cinematográfica, fatores que criam tom e ambiente acima da média no cinema norte-americano, a trama simplesmente não sustenta as soluções-ou a falta delas- apresentadas no ato final. Por ser um filme muito mais ambicioso, “Silver Lake” tem uma queda mais acentuada e mais espalhafatosa do que “It Follows”.

O problema não é que o filme lança um mistério e o deixa sem resposta, mas sim que ele fornece uma explicação para tudo que aconteceu, numa das piores cenas de pura exposição já filmadas em Hollywood, sem graça e inelegante. Pior ainda é aquela muleta que sempre aparece em filmes extremamente criativos: pode ser que tudo a que assistimos não passe de um delírio de um protagonista com problemas mentais (as dicas estão lá desde o que começo). Muito barulho por nada.

O autor Thomas Pynchon é uma clara influência no roteiro, mas assistir o já mencionado “Vício Inerente” em uma sessão com este filme exemplifica por que ele está acima de seus imitadores. É algo difícil de explicar, pois todos os ingredientes são parecidos. Assim como num livro de Pynchon, acompanhar “Under the Silver Lake” com um glossário que explique tudo que o autor está fazendo deve ser uma experiência genial. A diferença é que os textos de Pynchon tem graça mesmo sem a assistência.

Uma certa menção deve ser feita ao tratamento que o filme confere às várias e estonteantes mulheres que o habitam. Absolutamente todas tratadas como objeto de desejo ou como vítimas de violência. “Under the Silver Lake” é um filme pós-moderno, e por isso podemos até dizer que o filme as trata assim com ironia, como que para evidenciar o tratamento histórico dessas personagens pelos filmes que vieram antes, mas mesmo com esta distância, o filme com certeza irá gerar muito mau sentimento no espectador, especialmente pelo clima pós-Weinstein em Hollywood.

Uma das inúmeras dicas de que Sam é um narrador não muito confiável é que, ao mesmo tempo em que um assassino de cães está à solta na cidade, ele mesmo ouve várias mulheres latindo, em vez de falando.

Avaliação: Ruim (1 estrela)

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