Cannes: “Fahrenheit 451”, de Ramin Bahrani

Nova versão de clássico sci-fi acerta muito em atualizar sua premissa, mas erra ao trocar o original por uma trama insossa

atualizado

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Festival de Cannes/Divulgação
fahrenheit 451
1 de 1 fahrenheit 451 - Foto: Festival de Cannes/Divulgação

O mundo é uma distopia. Cada vez menos livros são lidos e mais telas são assistidas. Líderes de instituições governamentais consideram mais suas próprias versões e interpretações de eventos do que fatos devidamente ocorridos. Poderia ser uma reflexão do estado atual das coisas, mas é apenas a versão mais recente de “Fahrenheit 451”, obra do lendário autor e pensador Ray Bradbury. É um evento televisivo (a produção é da HBO) exibido no palácio cinematográfico de Cannes, que ano passado estreou os primeiros capítulos de “Twin Peaks” e dois filmes do NetFlix.

O enredo conta a história de Guy Montag (Michael B. Jordan), um bombeiro típico num futuro aonde o sua profissão não é apagar fogos, mas sim acendê-los. O governo, distópico e altamente vigilante de seus cidadãos, tornou ilegal a existência de livros, e qualquer evidência de literatura deve ser prontamente incinerada, e seu portador preso. Montag, porém, é uma alma sensível e propensa a questionar a sociedade após um confronto de ideias.

“Fahrenheit 451” tem todos os ingredientes de uma grande e ambiciosa obra. O livro, como já mencionado, é um clássico. O filme original foi dirigido por ninguém menos que François Truffaut. Ramin Bahrani, que começou com filmes de baixo orçamento focados mais nas vidas de seus personagens do que em tramas calculadas, tem todas as ferramentas para traduzir em imagens o conflito ideológico que rasga Montag por dentro. Seus dois atores principais estão em seus respectivos auges: Michael B. Jordan sai de uma performance mundialmente reconhecida em “Pantera Negra” e Michael Shannon, que vive seu antagonista, o capitão do corpo de bombeiros Beatty, foi o vilão de “A Forma da Água”, ganhador do Oscar de melhor filme neste ano. Além disto tudo, as incríveis mudanças tecnológicas dos últimos 50 anos tornam versões anteriores do filme obsoletas.

Bahrani, também roteirista, conseguiu fazer muito da proposta. Jordan e Shannon estão excelentes em seus papéis, e a ambientação do filme, além de um tanto de tempo dado para vermos os personagens quando estão sozinhos, nos dá informações contraditórias sobre quem eles realmente são. A outra vertente bem montada do filme é a tecnologia apresentada, com o uso de redes sociais incorporado ao corpo de bombeiros, e a presença constante de inteligência artificial em nossos aparelhos e lares como instrumento de vigilância governamental. Assim, a primeira metade do filme, ocupada em nos situar nesta realidade, é uma grande promessa. Bahrain erra, porém, ao inventar uma trama diferente da original para aparentemente “atualizá-la” aos jovens de hoje (leia-se fãs de super-heróis).

É um roteiro comum pra quem tenta criar um universo novo inteiro dentro de um filme e depois precisa formular uma história dentro. Todos os personagens estão em busca de um objeto qualquer, o famoso MacGuffin, e a sequencia final é um confronto ou uma batalha por esse misterioso objeto, capaz de impactar toda a população da Terra (ou por sua destruição, ou através de uma transmissão de conteúdo controverso, como neste caso). O livro original não tem nada disso, e embora Bahrain tenha sido impecável em atualizar a tecnologia do material original para que tudo reflita o momento que vivemos hoje, a atualização da trama não ficou derivativa.

Avaliação: Regular (2 estrelas)

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