Cannes: “À Genoux Les Gars”, de Antoine Desrosières
Comédia sexual adolescente perturba pela leviandade com que trata homens abusivos
atualizado
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Quem diria que um dos filmes mais comentados deste começo de Festival, em Cannes, seria uma comédia sexual para adolescentes aonde todos os protagonistas são descendentes de imigrantes árabes? Tudo bem que o que se discute não é a qualidade do filme, mas sim sua existência (com a descrição acima) e subsequente inclusão na maior mostra paralela do Festival, Un Certain Regard. Esta cidade, e seu festival de cinema, não deveriam representar o “top do top” da cinefilia mundial?
Ora, o escracho também tem lugar no templo do cinema! Rim (Inas Chanti) e Yasmina (Souad Arsane) são duas adolescentes, irmãs, no segundo grau. Rim, mais velha e mais estereotipicamente bonita, namora Majid (Mehdi Dahmane) galã com sobrancelhas prontas para o cinema. Sempre ao lado de Majid, vemos Salim (Sidi Mejai), seu melhor amigo e “parça”, sempre na espreita para faturar Yasmina, a mais intelectual do grupo. A primeira vez que vemos os quatro é perfeitamente exemplar, embora difícil de engolir, da adolescência urbana. Fora da aula, eles estão num restaurante de fast food debatendo o que é pior: sexo gay ou estupro.
“À Genoux Les Gars”, é um filme vulgar, aonde todos só falam de uma coisa: sexo; mais especificamente, da variedade oral, já que as meninas ainda estão incertas sobre perder a virgindade. Só que, por vezes, o filme parece um tanto implausível, como em seu ponto de conflito. Quando Rim parte numa viagem de escola, Majid e Salim convencem Yasmina a fazer um boquete no namorado de sua irmã, enquanto Salim filma tudo no celular. Após a filmagem, Yasmina fica refém da chantagem dos meninos, que a querem como uma escrava sexual. As duas meninas, assim, precisam bolar um plano de revanche.
Não precisa falar muito para explicar que a política sexual do filme é confusa. Explícitos estão os assédios dos dois meninos, assim como a dominação que eles exercem nas meninas. (O fenômeno do “revenge porn”, aonde um dos dois participantes de um ato sexual, quase sempre o homem, solta na internet uma filmagem explícita do outro como revanche por alguma desavença é um dos mais debatidos do judiciário atual.) Defensores dirão que, no final das contas, este filme é sobre as duas meninas criando forças para punir os meninos. O título, que se traduz como “Coloquem-se de joelhos, meninos!” já indica isso.
Mesmo assim, cada um terá que decidir por si mesmo se a experiência é aproveitável. A energia do filme vem de seus diálogos, incessantes, rápidos e de aparência completamente natural aos seus personagens. É tiro após tiro, e quando você se choca por alguma coisa falada, o tempo de reação é mínimo, pois ainda vem mais três outras coisas logo atrás. Tudo está estritamente em termos adolescentes, pois nada dos eventos apresentados ficam conhecidos por adultos (exceto talvez em uma das sequencias mais divertidas do filme, que envolve um quarto de hotel).
Adultos provavelmente saíram atônitos e desgostos do filme, especialmente com todos os abusos de homens em cima de mulheres que estão aparecendo todos os dias nos noticiários. Como o filme absurdamente e idioticamente adolescente que “À Genoux Les Gars” é, talvez os mais jovens não se incomodem.
Avaliação: Regular (2 estrelas)
