As Donas do Pedaço: veja boleiras do DF que cresceram com seus doces

A história de quatro mulheres empreendedoras lembra a trama criada Walcyr Carrasco para a protagonista da novela global

Raimundo Sampaio/Esp. MetrópolesRaimundo Sampaio/Esp. Metrópoles

atualizado 20/07/2019 18:26

Farinha de trigo, fermento e leite somados à dedicação, persistência, sonho e amor ao ofício. Esses foram os ingredientes usados por Maria da Paz, protagonista da novela global A Dona do Pedaço, para superar as dificuldades da vida e se tornar uma grande empresária no ramo da confeitaria. A fórmula, bem-sucedida na telinha, também transformou a história de várias boleiras do Distrito Federal, bastante procuradas pelos brasilienses amantes de doces.

Na trama criada por Walcyr Carrasco, a personagem interpretada pela atriz Juliana Paes usa uma receita da avó Dulce (Fernanda Montenegro), o bolo mágico — feito com canela em pó—, para começar o próprio negócio. Em Brasília, não faltam exemplos de mulheres que se fizeram empresárias graças a seus bolos, como Maria Amélia Campos Dias, que começou o ofício vendendo o produto na escola, ou Ivone Inácio Vieira, a ex-babá dona de uma das sobremesas mais famosas e disputadas da capital federal.

Para as boleiras da vida real, a novela mostra a possibilidade de se descobrir empresária com um trabalho artesanal, mas garantem: o caminho até a franquia criada por Maria da Paz é bem mais longo e irregular que o da novela. O Metrópoles entrevistou as confeiteiras Maria de Fátima, Cecília Falcão, Ludmilla Moura e Simonne Jabour – e suas filhas, Luiza e Gabriela – que, como a heroína de A Dona do Pedaço, carregam em seus catálogos receitas aprendidas com as mães e avós.

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As boleiras Ludmilla Moura, Gabriela Jabour, Cecília Falcão e Maria de Fátima: as donas do pedaço na vida real
Receitas de família

A mato-grossense Cecília Falcão faz seus doces na capital federal há 18 anos: boa parte dos sabores de seu catálogo são receitas de família, como é o caso do Tentador: à massa adocicada misturam-se goiabada e baba de moça. “A receita é da minha bisavó. Aprendi com minha avó paterna, que morava em Manaus. Esse bolo esteve sempre presente nos feriados, datas comemorativas e aniversários da família”, comenta.

Uma das memórias mais marcantes da infância em Campo Grande é a da festa de São Benedito. “Minha avó fazia tudo na casa dela, juntavam várias senhoras para assar bolos, biscoitos e salgados. Eu ficava no meio, observando e ajudando”, lembra a confeiteira. Da celebração, o quitute que mais lhe marcou a memória é o francisquito, um biscoito adocicado, que aos 10 anos Cecília já executava com perfeição.

Criada entre o Amazonas e Mato Grosso, sempre agarrada nas barras das saias das avós cozinheiras, Cecília acredita que seu destino não poderia ter sido diferente. Ainda assim, ela lembra do frio na barriga ao executar sua primeira encomenda, quando estava grávida de sete meses do terceiro filho. “Foi muito estressante, fiz tudo dentro do meu apartamento. Hoje, tenho uma cozinha semi-industrial em casa. Tem muita moda, é um trabalho que evolui muito, principalmente na parte de bolos”, comenta a confeiteira, que geralmente faz encomendas para casamentos e tira seu sustento do trabalho com bolos e doces.

De mãe para filha

Dos 54 anos de idade, Maria de Fátima dedicou 33 à arte de fazer e vender bolos. O talento para a confeitaria herdou da mãe, Maria da Glória, com quem aprendeu a cozinhar, ainda pequena. “Ela me ensinou os primeiros bolinhos, mas depois fui indo na raça, misturando ingredientes, criando receitas novas”, salienta.

Antes de transformar o hobby familiar em profissão, Maria de Fátima fez de tudo um pouco. Foi vendedora, passadeira e cozinheira, entre outras. “Nunca tive medo de trabalhar”, ressalta, com orgulho. Um dia, decidiu fazer o bolo de aniversário de um ano do filho Bruno. O resultado ficou tão incrível que a brasiliense passou a receber pedidos de amigos e familiares. “Só fui ter coragem de oferecer meus serviços para pessoas que eu não conhecia depois de uns quatro anos”, lembra.

Bastou vender o primeiro doce para o negócio deslanchar. Na época, sem a facilidade das mídias digitais na divulgação de seu trabalho, a boleira contou exclusivamente com a indicação dos clientes satisfeitos. “Até hoje não existe propaganda melhor que o boca a boca”, afirma.  Para quem sonhava com o dia em que venderia quatro bolos por fim de semana, o tamanho da empresa ainda a surpreende. “Eu comecei sozinha, fazia a receita, lavava a louça, limpava o chão… Hoje, além da minha família toda ter se engajado na empresa, ainda conto com a ajuda de 50 colaboradores”, conta.

É muita luta! A vida de uma confeiteira é bem árdua. Hoje em dia está na moda fazer bolo, doce, é até chique. Mas o nosso trabalho é virar a noite, colocar a mão na massa mesmo

Maria de Fátima
Dentro do lar

A Sweet Cake foi fundada há 26 anos com a iniciativa de Simonne Jabour. A confeiteira tinha acabado de ter a primeira filha e pensou em algo que pudesse fazer de casa, para que pudesse ficar perto da cria. “Com o tempo, o meu pai abriu uma lojinha, bem pequenininha, no Lago Sul, para a minha mãe”, lembra a primogênita, Gabriela Jabour.

A jovem conta que o sonho da mãe mudou o rumo de toda a família. O pai mudou de emprego para entrar na área alimentícia, Gabriela e a irmã, Luiza, aprenderam as técnicas de pâtisserie na França, e o irmão, Guto Jabour, abriu uma distribuidora de vinhos. “A influência dela moveu todos nós. As primeiras lembranças que tenho da minha infância são na lojinha minha mãe, vendo ela fazer os bolos e doces. Hoje o mesmo acontece com meu filho”, garante Gabriela.

Gabriela ajuda a mãe a cuidar de duas confeitarias, no Lago Sul e na 412 Sul, e a gerenciar 86 funcionários. “Nós relutamos em expandir mais, pois não queremos perder esse caráter artesanal”, explica, e completa: “Fazendo bolos minha mãe nos ensinou a persistir nos nossos sonhos. A não desanimar no primeiro obstáculo”.

Empreendimento apaixonado

Quando Ludmilla Moura conheceu o marido, Lucas Rodrigues, havia desistido do ofício que aprendeu na faculdade, gastronomia, para trabalhar em um escritório. O namorado, à época servidor público, se apaixonou não só pela moça, mas pelos doces que ela executava. Depois de muita insistência do amado, a cozinheira colocou o que sabia em prática e passou a confeitar em um ateliê montado na casa dos sogros. Um ano depois, o casal conseguiu passar a operação até um espaço próprio. Em novembro de 2018, os dois realizaram o sonho de se casar – e Lucas abandonou a carreira de concursado e optou por se dedicar à Dona Zuca.

O nome da empresa é uma homenagem a quem ensinou a Ludmilla o carro-chefe de sua confeitaria, o bolo gelado de abacaxi. A receita é de dona Zuca, avó da confeiteira que até hoje gosta de colocar as mãos na massa – dentro do que a artrose da senhorinha permite. “Ela sempre cozinhou e confeitou para vender a terceiros. Minha memória de infância é vê-la fazendo as decorações com bicos de confeiteiro, que eu guardo comigo até hoje. Eu achava aquele trabalho lindo”, lembra a neta.

A mais noveleira do quarteto entrevistado pelo Metrópoles, Ludmilla não perde um capítulo de A Dona do Pedaço. “O tempo passa muito rápido na novela, aqui de fora o sucesso é um pouco mais demorado. Me identifico com a Maria da Paz porque no começo, ela vendia bolos na rua. Eu ia muito a feiras no início da Dona Zuca, foi uma experiência legal para ver a reação imediata das pessoas ao meu trabalho”, comenta a confeiteira.

Cecília Falcão
Telefone para encomenda: (61) 3367-7246/ (61) 99970-5999. Mais informações no site

Dona Zuca
314 Norte (Área Comercial), Bloco E, Sala 106. (61) 99533-3636. Encomendas pelo site ou telefone

Maria de Fátima Cake Designer
716 Norte, Bloco C, Loja 30. Aberto de segunda a sexta, das 9h às 18h, e sábados, das 9h às 17h. Contato: (61) 3368-9321 ou (61) 9 9966-2846 (WhatsApp)
No Shopping DF Plaza (Águas Claras). (61) 3181-0905. De segunda a sábado, das 10h às 22h. Domingos e feriados, das 14h às 20h

Sweet Cake
SHIS QI 21, Bloco C, Lojas 24 e 36, Lago Sul, telefone (61) 3366-3531. 412 Sul, Bloco D, Loja 27, telefone (61) 3345-3531. De segunda a sexta, das 9h às 19h; sábado, das 8h30 às 18h30. Não abre domingo

 

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