Polêmica: Alex Atala e quilombolas divergem sobre Baunilha do Cerrado

Os produtores alegam não ter recebido nem 10% do aporte destinado ao projeto. Chef nega acusações

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atualizado 18/07/2019 16:56

Uma polêmica envolvendo produtores quilombolas e o premiado chef Alex Atala tem movimentado a gastronomia brasileira. A discussão tem origem no dia 13 de abril, durante o lançamento da linha Ecossocial Kalunga, com diversos produtos, entre eles a pimenta-de-macaco e gergelim. Os insumos são produzidos no Território do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, maior quilombo do Brasil, que engloba os municípios goianos de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás. No entanto, a disputa entre o mais famoso cozinheiro do Brasil e os produtores se daria em torno da Baunilha do Cerrado.

De um lado, os quilombolas ouvidos pelo site De Olho nos Ruralistas alegam terem sido lesados pela medida do chef de registrar o uso do nome da iguaria no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Por meio do Projeto Baunilha do Cerrado, porém, o cozinheiro afirma, por meio de nota, que tomou a decisão para proteger “preservar o projeto, proteger a baunilha de uma possível super exploração em estado selvagem e cumprir com o convênio com a Fundação Banco do Brasil”.

Kalungas

O projeto foi beneficiado com aportes de R$ 424 mil, voltados a “ajudar os quilombolas a formar uma cadeia produtiva da espécie”. A Fundação Banco do Brasil, parceira na empreitada, garantiu pouco mais de R$ 382 mil dessa verba, que deveria ser usada em melhorias e capacitações para os kalungas.

No entanto, Associação Quilombo Kalunga (AQK), parceira local de Atala na execução das atividades, alega não ter sido convidada para o lançamento de abril e receber apenas 10% dos benefícios obtidos com o projeto. A advogada da entidade, Andrea Gonçalves, reconhece o desgaste entre o chef e os quilombolas.

“Caiu muito mal na comunidade a notícia do lançamento, de ter visto os produtos com uma identidade visual que ela não ajudou a elaborar, mas que carrega seu nome, quando oficinas e outras promessas não aconteceram como tinha sido combinado”, disse ao portal De Olho nos Ruralistas.

No meio da gastronomia, o assunto tem gerado debates. Carmen Virginia, do Altar em Recife, pronunciou-se em seu Instagram a favor dos quilombolas, reclamando da apropriação de seu produto pelo chef brasileiro.

 

 

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Sei que muitos dos meus companheiros de trabalho vao me achar a pior das cozinheiras, vao me chamar de treteira, dificil, uma pessoa a quem nao se deve ter por perto! Mas como boa filha de Xango, eu sou pela justiça, o que é certo pra mim e o que eu como guardiã dos saberes ancestrais do meu povo, nao posso me calar diante do sofrimento secular que vivemos! Esse é meu lugar de fala e eu nao abro mao ao direito de falar sobre A apropriaçao de alguns chefs a culturas que nao sao as dele! É muito facil ter grana pra viajar, estudar nas melhores escolas, aprender tecnicas, chegar com sua dolma branca e vim pra nossos terreiros, nossos quilombos, nossas aldeias em busca do nosso tesouro! A nossa sabedoria é nosso maior tesouro! Sei que eu ja ajudei a alguns que vieram me procurar, confesso que cai na armadilha do eu te mostro o caminho em troca voce me divulga, bem o que acontece com um negro quando se envolve com um branco de alma voces ja sabem, eis ai o resultado! Sou famosa, muitos me amam, mas nao consigo ter um mes em que eu nao tenha que me preocupar com as contas a pagar e o medo de fechar meu restaurante me acompanha sempre! Ja eles, haaaaa os privilegiados estao escrevendo livros, estao fazendo jantares caros, estao dando palestras a custo de ouro, estao com projetos em museus, estao ganhando dinheiro com uma cultura que nao os pertencem! Antes de ser do Brasil, desculpa usada por eles, isso vem de um povo, o povo preto, indio! Ta achando que é mimimi? Enumere ai a quantidade de chefs pretos com notoriedade desse país! Enumere as mulheres pretas! A desigualdade esta ai! A pervesidade esta nos numeros! Eu to chorando porque sei que ha pessoas que estao passando o que passei, estao sofrendo mais ate que eu, porque eu sobrevivi e todos nos tambem,quem teve seu povo enjaulado, capturado, escravizado nao cai com qualquer noticia de colonizador em pleno seculo 21! Apenas olhem o tipo de idolos que voces elegem, o tipo de gente que voces aplaudem, o tipo de gente que voces abrem suas bocas pra colocar uma comida feita pelas maos deles! Que Exú tome conta, preste conta e feche o caminho impedindo a entrada dos maus coracoes aos meus quilombos, favelas e terreiros!

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Até o momento, Atala se pronunciou por meio de nota. Leia a íntegra:

Fizemos esses pedidos com o objetivo de exclusivamente preservar o projeto, proteger a baunilha de uma possível super exploração em estado selvagem e cumprir com o convênio com a Fundação Banco do Brasil.

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