A Febre leva cinco Candangos no 52º Festival de Brasília

A última noite do Festival de Brasília contou com protestos diversos. O longa A Febre, de Maya Da-Rin, foi o grande premiado do evento

atualizado 02/12/2019 15:35

Myke Sena/Especial para o Metrópoles

A 52ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro vai anunciou, na noite deste sábado (30/11/2019), os vencedores na Mostra Competitiva e na Mostra Brasília BRB. Foram 792 filmes inscritos e 111 selecionados para as 13 mostras que compõem o evento. O longa A Febre, de Maya Da-Rin, foi o maior vencedor da noite, com cinco Candangos, e ainda levou o principal prêmio do evento, o de Melhor Longa-Metragem.

“Esse público é aguerrido, é político. Gostaria de agradecer à equipe, que mesmo na adversidade, conseguiu contar essa história linda. Vivemos um momento crítico: o ministro da Educação odeia a educação. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos odeia as mulheres, o secretário de Cultura odeia a cultura, o secretário do Audiovisual odeia o audiovisual. A todos esses que estão atravancando nosso caminho, eles passarão, nós passarinho”, afirmou afirmou o produtor do longa, Léo Mechi, ao receber a estatueta.

A cineasta Sabrina Fidalgo venceu o Candango na categoria Melhor Direção pelo curta Alfazema e usou o microfone para falar de representatividade. “Sou uma mulher negra, sempre sonhei em fazer cinema. Nunca tive no espelho alguém como eu para me inspirar. Machistas não passarão! Mulheres violentadas em roteiros de homens perversos não passarão! Fora Bolsonaro!”, discursou.

Ganhador do prêmio de Direção de Arte por Piedade, o diretor Claudio Assis se emocionou no palco. “É com satisfação que recebo esse prêmio. A gente está vivendo esse mundo, mas não era para estarmos vivendo um mundo cruel. É emocionante estar aqui para poder vivenciar, para poder celebrar. Nós estamos fudidos nesse país. Nós vamos vencer”, afirmou.

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Depois de protagonizar o longa A Febre, o ator Régis Myrupu venceu o prêmio de Melhor Ator da noite. “Esse prêmio é muito importante para o Régis. Todos os atores indígenas estão vivendo um momento difícil. Temos muito a aprender com quem está nessa resistência há mais tempo. Precisamos nos inspirar nos indígenas, negros, LGBTs que estão lutando há muitos anos”, afirmou Léo Mechi, que recebeu a estatueta pelo colega.

Outro longa de destaque foi Alice Júnior, de Gil Baroni: o longa recebeu quatro estatuetas na premiação nacional, de Melhor Trilha Sonora, Melhor Montagem, Melhor Atriz Coadjuvante para Thais Schier e Melhor Atriz para Anne Celestino. “Quero agradecer ao Gil, um diretor incrível, e a todas as mulheres trans e travestis que abriram passagem para eu chegar até aqui. Transfóbicos não passarão!”, discursou.

O ator Severino Dadá levou um Candango por sua atuação no curta A Nave, de Mané Socó, e fez um dos discursos mais divertidos da noite. “Esse de Melhor Ator eu não esperava. Mando um recado para Brad Pitt e todos os canastrões hollywoodianos: o Dadá está aqui”, brincou.

Mostra Brasília

Na Mostra Brasília BRB, o longa Dulcina, de Glória Teixeira, levou o maior número de Candangos: Melhor Atriz (o prêmio foi dividido entre ido Galvão, Carmem Moretzsohn, Iara Pietricovsky, Theresa Amayo, Glória Teixeira e Françoise Fourton) e Melhor Longa tanto pelo júri popular, quanto pelo júri oficial.

“Sou muito grata a todo o grupo que fez Dulcina. Quero dizer que quem tem que dizer o que o artista pode ou não falar, é o artista. Precisamos de liberdade de expressão”, defendeu a diretora.

O curta Escola sem sentido, Thiago Foresti, também se destacou com três estatuetas: Melhor Ator para Wellington Abreu e Melhor Curta, tanto no júri popular quanto no oficial. Ao receber o prêmio, o diretor revelou que o filme será exibido gratuitamente no site oficial da obra.

Outros prêmios

O Prêmio Marco Antônio Guimarães, dedicado ao filmes que melhor usam arquivos cinematográficos e memória do cinema brasileiro, foi para o longa Chico Mendes – Um legado a defender, de João Inácio.

O longa Escola sem sentido, de Tiago Foresti, levou o Prêmio Saruê. No palco, o ator Wellington Abreu reclamou por um melhor tratamento dos docentes brasileiros. “País que não respeita professores não deve ser chamado de país”, argumentou. O Prêmio Canal Brasil, por sua vez, reconheceu a animação Sangro, de Tiago Minamisawa, Bruno H. Castro e Guto BR. “Espero que o filme mude a vida de muitas pessoas, são 37 mil pessoas vivendo com HIV atualmente”, comentou Minimisawa.

De Thaís Borges, o filme O tempo que resta foi reconhecido o melhor longa-metragem pelo Prêmio Abraccine e, ao receber a honraria, a equipe foi aplaudida de pé pela plateia. “Essa luta não vai parar. Se Deus quiser, esse filme vai nos ajudar na nossa luta. Que a vida seja para a ser vivida”, afirmou a extrativista Osvalinda Alves, retratada na produção. O filme Carne, de Kamila Kater, levou o Prêmio Abraccine de curta-metragem.

Hors-concours

Com atraso de uma hora, a cerimônia de premiação começou com o diretor Vladimir Carvalho no palco, pedindo uma salva de palmas para Cacá Diegues, presidente do júri oficial: na última sexta-feira (29/11/2019), o cineasta se acidentou no hotel onde está hospedado e apareceu para a última noite de evento com a cabeça enfaixada.

“Não tive tempo de ser sintético, como diria padre Antônio Vieira. Quero compartilhar com vocês uma data comemorativa: eu subi nesse palco há exatos 50 anos. Faz meio século que frequento o Festival”, contou o diretor, em seu discurso de abertura que antecedeu a exibição de seu filme, Giocondo Dias – Ilustre Clandestino. O público respondeu com gritos de “Bravo, Vladimir!”.

O cineasta falou um pouco sobre o documentário e o personagem principal da obra, um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e aproveitou para tecer críticas ao governo. “Giocondo foi um democrata de esquerda, atravessou duas ditaduras, um homem necessário. Seu maior legado foi a legalidade do Partidão. Hoje temos um presidente que fundou um partido com uma bandeira feita com balas de fuzil. Abaixo Bolsonaro!”, bradou, ao que a plateia respondeu com gritos de “Fora Bolsonaro”.

A tônica política se fez presente antes mesmo do início da cerimônia: no foyer do Cine Brasília, um grupo de manifestantes reproduziu um protesto realizado em diversas cidades da América Latina nesta sexta-feira (29/11/2019). De olhos vendados, as mulheres cantaram as palavras de ordem: “A culpa não é minha, nem onde eu estava, nem o que eu vestia. O abusador é você”.

O Festival em números

A organização do Festival de Brasília divulgou, na noite de encerramento das atividades, os números relativos ao evento. Foram investidos R$ 4 milhões, sendo R$ 3,3 milhões do Governo do Distrito Federal e R$ 634 mil de patrocínios. A expectativa é que o evento vá movimentar R$ 55,8 milhões em negócios. Um total de 89 projetos foram selecionados em 218 reuniões.

Foram gerados mil empregos diretos e a estimativa é a de que 6,5 mil empregos indiretos tenham se formado em torno do Festival. Abarcando nove regiões administrativas do Distrito Federal, as oficinas formativas capacitaram 122 pessoas.

Veja os vencedores dos prêmios no Festival

Mostra Competitiva

Melhor Som

A febre, de Maya Da-Rin. Som de Felippe Schultz Mussel, Breno Furtado, Emmanuel Croset (longa-metragem)

A nave de Mané Socó, de Severino Dadá. Som de Guma Farias e Bernardo Gebara (curta-metragem)

Melhor Trilha Sonora

Alice Júnior, de Gil Baroni. Trilha Sonora de Vinicius Nisi (longa-metragem)

Alfazema, de Sabrina Fidalgo. Trilha sonora de Vivian Caccuri (curta-metragem)

Melhor Direção de Arte

Piedade, de Cláudio Assis. Direção de arte de Carla Sarmento (longa-metragem)

Parabéns a você, de Andreia Kaláboa. Direção de arte de Isabelle Bittencourt (curta-metragem)

Melhor Montagem

Alice Júnior, de Gil Baroni. Montagem de Pedro Giongo (longa-metragem)

A nave de Mané Socó, de Severino Dadá. Montagem de André Sampaio (curta-metragem)

Melhor Fotografia

A febre, de Maya Da-Rin. Fotografia de Bárbara Alvarez (longa-metragem)

Parabéns a você, de Andreia Kaláboa. Fotografia de João Castelo Branco (curta-metragem)

Melhor Roteiro

O tempo que resta, de Thaís Borges. Roteiro de Thaís Borges (longa-metragem)

Carne, de Kamila Kater. Roteiro de Camila Kater e Ana Julia Carvalheiro (curta-metragem)

Melhor Ator

Régis Myrupu, por A Febre, de Maya Da-Rin (longa-metragem)

Severino Dadá, por A nave, de Mané Socó (curta-metragem)

Melhor Atriz

Anne Celestino, por Alice Júnior, de Gil Baroni (longa-metragem)

Teuda Borges, por Angela, de Marília Nogueira (curta-metragem)

Melhor Ator Coadjuvante

Cauã Reymond, por Piedade, de Cláudio Assis (longa-metragem)

Melhor Atriz Coadjuvante

Thais Schier, por Alice Júnior, de Gil Baroni (longa-metragem)

Melhor Direção

Maya Da-Rin, por A Febre (longa-metragem)

Sabrina Fidalgo, por Alfazema (curta-metragem)

Prêmio Técnico Edina Fujii

Carne, de Kamila Kater

Melhor longa-metragem, júri popular

O tempo que resta, de Thaís Borges

Menção honrosa para curta-metragem

Ari y Yo, de Adriana de Faria

Prêmio Técnico Cinemática

Rã, de Julia Zakia e Ana Flavia Cavalcanti

Prêmio Especial do Júri

Claudio Assis, pelo longa Piedade

Menção Honrosa do Júri

Boca de Ouro, de Daniel Filho

Melhor Longa-Metragem

A Febre, de Maya Da-Rin

Melhor Curta- Metragem

Rã, de Julia Zakia e Ana Flavia Cavalcanti

 

Mostra Brasília BRB

Melhor Trilha Sonora

Mito e música a mensagem de Fernando Pessoa, de André Luiz Oliveira e Rama Oliveira. Trilha de André Luiz Oliveira

Melhor Montagem

Ainda temos a imensidão da noite, filme de Gustavo Galvão. Montagem de Marcius Barbieri

Melhor Direção de Fotografia

Ainda temos a imensidão da noite, filme de Gustavo Galvão. Direção de fotografia de André Carvalheira

Melhor Roteiro

Mito e música a mensagem de Fernando Pessoa, filme de André Luiz Oliveira e Rama de Oliveira. Roteiro de Rama de Oliveira

Melhor Ator

Wellington Abreu, por Escola sem sentido, de Thiago Foresti

Melhor Atriz

Bido Galvão, Carmem Moretzsohn, Iara Pietricovsky, Theresa Amayo, Glória Teixeira e Françoise Fourton por Dulcina, de Glória Teixeira

Melhor Direção

Adriana Vasconcelos, por Mãe

Melhor Curta-Metragem, Júri Popular

Escola sem sentido, de Thiago Foresti

Melhor Longa-Metragem, Júri Popular

Dulcina, de Glória Teixeira

Melhor Curta-Metragem

Escola sem sentido, de Thiago Foresti

Melhor Longa-Metragem

Dulcina, de Glória Teixeira

 

Prêmio Saruê

Escola sem sentido, de Tiago Foresti

Prêmio Marco Antônio Guimarães

Chico Mendes – Um legado a defender, de João Inácio

Prêmio Canal Brasil

Sangro, de Tiago Minamisawa, Bruno H. Castro e Guto BR

Prêmio Abraccine

Carne, de Kamila Kater (curta-metragem)

O tempo que resta, de Thaís Borges (longa-metragem)

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