Cannes: leia crítica de Era Uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino

Auteur americano volta ao que faz de melhor em uma homenagem a Los Angeles e à década de 1960

Andrew Cooper/Sony Pictures/DivulgaçãoAndrew Cooper/Sony Pictures/Divulgação

atualizado 20/08/2019 16:33

Eu sei que você está esperando que essa fábula comece no verão de 1969, afinal, é quando a conhecida história sobre o assassinato da atriz Sharon Tate e seus amigos pela alucinada “família Manson” acontece. Mas as coisas começaram a dar errado antes e quando nos encontramos pela primeira vez com o ator de TV Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê/assistente/melhor amigo, Cliff Booth (Brad Pitt), ainda é 8 de fevereiro. Faz sol, estamos na Califórnia e o mundo ainda vive em pleno suingue.

A decadência está no ar e Dalton sabe disso. Ele é um famoso ator de TV que tentou fazer carreira no cinema, mas fracassou. Então, ele retorna às telinhas, sem o mesmo prestígio, e passa a interpretar vilões que terminam espancados por jovens vaqueiros ou mortos a tiros em um piloto de programa.

Cliff, por outro lado, está sempre bem. Ele sabe que seu melhor vive no passado, mas não se importa. O homem ama seu cachorro, trailer, emprego e colega. Sente-se tão feliz começando uma briga no set com Bruce Lee quanto consertando uma velha antena no telhado de Dalton.

Lá estão eles, Tarantino parece dizer, vivendo os bons e maus bocados de uma existência digna de Hollywood. A câmera os segue de cima, uma visão divina iluminando uma Los Angeles dos anos 1960 muito autêntica – não dá nem para imaginar como ele conseguiu filmar planos de época tão abertos. Os detalhes de set e dos objetos de cena são um fetiche aqui, pois o diretor já fazia esse tipo de coisa antes que alguém sonhasse com Mad Men.

Este é, afinal, um sonho de Tarantino, com muitos pés, música, nomes, referências, cenários e gravações de western, além velhos amigos fazendo pequenos papéis. Vemos diversas cenas de filmes antigos e programas de TV aparecerem em todo tipo de tela.

Eventualmente, no entanto, os anos 1960 deram errado, e morando na casa ao lado de Dalton estão Sharon Tate (Margot Robbie) e Roman Polanski. Eles estão por aí, parte da high society, dançando de festa em festa e entretendo amigos, mais surdos do que todo mundo para a Guerra do Vietnã no rádio e ignorando aqueles hippies estranhos em cada esquina.

Os mais familiarizados com o que aconteceu no verão seguinte perceberão facilmente quem é todo mundo. Na era do podcast, por que não entrar em You Must Remember Manson? Duas das sequências centrais (uma filmagem de TV no oeste e outra no Rancho Spahn, lar do famoso culto) são os melhores momentos do filme.

Pitt e DiCaprio desempenham seus melhores papéis, assim como Robbie, que mesmo com pouco a fazer, nunca esteve tão linda em cena. Margaret Qualley é um destaque especial atuando como membro da família Manson.

No momento no qual The Mamas & The Papas toca na trilha sonora, no entanto, é hora de o sonho da Califórnia virar um pesadelo; e, neste ponto, Tarantino entra em um campo minado. Talvez ele consiga sair dessa, talvez não, e a internet se divertirá bastante nos próximos meses debatendo tudo isso.

Desde a infeliz morte de sua verdadeira musa, a montadora Sally Menke, o cineasta tem sido puro id, sem ninguém para lhe dizer quando pisar no freio. Ele sabe que tudo isso é material sensível, mas ao final desta belíssima e imperfeita homenagem à cidade dos sonhos, você verá que ele já passou por aqui antes.

Avaliação: Ótimo

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