Crítica: A Febre traz visão descolonizada sobre povos indígenas

O segundo longa da mostra competitiva do Festival de Brasília narra a história de uma família indígena urbana em busca de suas origens

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atualizado 25/11/2019 18:01

O cinema brasileiro é injusto com os indígenas do Brasil. Por anos a fio, os realizadores não-índios apontaram suas câmeras para esses personagens com a curiosidade de um europeu ao desembarcar de uma caravela. Sem credibilidade, sem voz própria, essas personagens quase sempre foram retratadas do ponto de vista externo, segundo a ordem do colonizador. Perspectiva que tem se modificado nos últimos anos, como mostra o longa-metragem A Febre, segundo filme da competitiva do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Seu protagonista, o vigia do Porto de Manaus, representante do povo Desana, é o índio docilizado que os brancos toleram. Justino (Regis Myrupu) cumpre a jornada de um operário do sistema capitalista e parece aceitar seu lugar à margem da sociedade brasileira como morador de uma periferia de Manaus. Mas, uma forte inquietação habita o corpo de Justino como um vírus que o deixa febril: a volta para as origens, a volta para a aldeia.

Numa proposta de olhar lançado para uma perspectiva particular de uma família indígena urbana, o roteiro dirigido por Maya Da-Rin se desvia dos clichês de representações dos povos originários do Brasil e propõe uma nova forma de pensamento do cinema sobre esses personagens.

A esperança, porém, é que no futuro realizadores indígenas tenham em mãos as câmeras que contarão as próprias histórias, como deixou claro a atriz Rosa Peixoto (Vanessa) durante a apresentação no palco do Cine Brasília. O papel de Justino rendeu a Regis Myrupu o prêmio de melhor ator do Festival de Locarno, na Suíça.

Avaliação: Excelente

Curtas-metragens

A lombra é forte em Caranguejo Rei, curta pernambucano dirigido por Enock Carvalho e Matheus Farias. A narrativa brinca no campo da fantasia ao modo do cinema pernambucano enlaçando uma trama sobre mercado imobiliário e realismo fantástico. É sempre bom ver o ator Tavinho Teixeira nas telas de cinema, mas seu protagonista, Eduardo, sofre com as precariedades do roteiro. A narrativa se sedimenta ao longo da projeção terminando em um não lugar narrativo. É pura visualidade e forte edição de som.

Avaliação: Bom

A despretensão do documentário Ari y Yo é a melhor virtude do segundo curta-metragem da mostra competitiva do Festival de Brasília. Um filme de encontro, narrado em primeira pessoa pela diretora Adriana de Faria, acompanha as serelepices da menina cubana de nove anos, Arislay. História simples, enredo idem, mas com uma grande pequena protagonista.

Avaliação: Bom

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