Eleições diretas ou indiretas? O xadrez da sucessão de Castro no Rio
STF julga na próxima semana o modelo de escolha do governador-tampão. Políticos se dividem sobre formato
atualizado
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A sucessão de Cláudio Castro (PL) no comando do Rio de Janeiro entrou em compasso de espera. No tabuleiro, a peça que falta mover está no Supremo Tribunal Federal (STF), que deve definir, na próxima semana, qual será o modelo de escolha do governador-tampão.
Desde 2025, o estado assiste à própria linha sucessória se desfazer, peça por peça. O colapso se consumou na última semana, quando Castro renunciou na véspera do julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que o condenou à inelegibilidade.
Sem vice-governador e com o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) impedido de assumir, o comando do estado caiu no colo do presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto (na foto em destaque).
Tudo indicava que Couto seguiria um roteiro discutido há meses e convocaria eleições indiretas, nas quais os deputados estaduais escolheriam o novo chefe do Executivo.
Mas tudo mudou a partir de desdobramentos judiciais. Problemas na certidão de julgamento de Castro e uma ação no Supremo que questionava as regras desse pleito indireto fizeram o desembargador recuar.
A crise mudou de patamar na sexta-feira (27/3). O ministro do STF Cristiano Zanin suspendeu as eleições indiretas e deixou em aberto a possibilidade de duas eleições diretas em poucos meses, com a escolha do governador feita pelo voto popular, nas urnas.
O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, decidiu colocar as ações em julgamento no próximo dia 8. Caberá ao plenário decidir como será escolhido o governador que vai concluir o mandato de Castro: pelo voto dos membros da Alerj ou pela população.
Até pouco tempo, as eleições indiretas eram tratadas como praticamente certas. Os deputados estaduais correram para aprovar uma lei com regras para o pleito — agora também sob questionamento no Supremo.
Nos bastidores, nomes já circulavam como possíveis candidatos, como o ex-secretário de Castro e pré-candidato ao governo Douglas Ruas (PL) e o ex-deputado André Ceciliano (PT).
Diante da possibilidade de o Supremo decidir por outro formato, o tabuleiro voltou a se mexer. Lideranças políticas passaram a se preparar não só para a hipótese de eleição indireta, mas também para uma eventual disputa direta. O modelo é defendido sobretudo pela oposição a Castro, que vê aí uma brecha para furar o bloqueio de uma Alerj dominada pelo grupo do ex-governador.
Eduardo Paes e Douglas Ruas
O PSD, partido do ex-prefeito do Rio Eduardo Paes, é peça fundamental dessa disputa. A sigla é autora das três ações que embaralharam o cenário: duas que questionam o rito da escolha do sucessor de Castro e uma que anulou a eleição de Douglas Ruas para a presidência da Alerj.
Paes, que tem elevado o tom contra aliados de Castro, assumiu a linha de frente na defesa das eleições diretas. Nas redes sociais, o pré-candidato ao governo nas eleições de outubro repete que apenas esse modelo garantiria uma disputa “limpa e com paridade de armas”.
O ex-prefeito também sinalizou que pode entrar na disputa, caso esse formato prevaleça. Em críticas, ele acusa o grupo de Castro de tentar se perpetuar no poder para “continuar usando a máquina do Estado para roubar mais uma eleição como fizeram em 2018 com o Witzel e em 2022”.
Do outro lado, refletindo a polarização que já se desenha para outubro, o PL também reposicionou peças. Douglas Ruas, escolhido como pré-candidato ao governo, passou a defender publicamente a realização de eleições diretas.
Provável adversário de Paes, Ruas também se colocou à disposição para disputar o mandato-tampão em eleições diretas. Dirigentes do PL preferiam a via indireta, por meio da qual Douglas Ruas teria mais chances de sair vitorioso, dada a atual composição da Alerj.
Eleições de outubro
Por trás dos movimentos de Ruas e Paes há uma convergência: os dois enxergam o mandato-tampão como um trampolim para a disputa de outubro.
No caso de Eduardo Paes, o terreno parece mais favorável: o ex-prefeito lidera as pesquisas de intenção de voto. Douglas Ruas, por sua vez, ainda busca se tornar conhecido do eleitorado e aposta no peso da máquina estadual para impulsionar o desempenho.
Juristas avaliam que não haveria impedimento para que o vencedor — seja em eleição direta ou indireta — dispute o governo em outubro. Há, contudo, uma trava no horizonte seguinte: a eleição de 2030.
Especialista em direito eleitoral e sócio do Barcelos Alarcon Advogados, Guilherme Barcelos afirmou que o vencedor da eleição fora de época já chegará a 2026 na condição de candidato à reeleição.
“Independente do modelo, se direta ou indireta, quem for eleito irá exercer o mandato 2023/2026, tudo com caráter de definitividade. A eleição em 2026 já seria à título de reeleição, se assim fosse o caso”, disse.
O advogado Emerson Delgado, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), destacou que o TSE já se manifestou sobre o tema em outras ocasiões.
“Quem sagrar-se vencedor na eleição suplementar do Rio de Janeiro, poderá se candidatar para o pleito eleitoral em outubro. Mas, em razão de ter disputado reeleição em outubro de 2026, não poderá ser reeleito em 2030”, afirmou.
Os passos da crise do Rio
- Vácuo no governo: O Rio está sem governador (Cláudio Castro renunciou) e sem vice (Thiago Pampolha renunciou em 2025).
- Crise na Alerj: Sem governador e vice, o substituto imediato seria o presidente da Assembleia, mas Rodrigo Bacellar foi afastado do posto e cassado.
- Comando interino: Por conta do colapso na linha sucessória, quem governa o estado hoje é o presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto.
- Presidência vaga: A Alerj deve eleger um novo presidente nos próximos dias. A Justiça determinou que a Casa aguarde a substituição de Bacellar. O TRE-RJ já anunciou o novo eleito, mas algumas formalidades ainda precisam ser cumpridas.
- Guerra jurídica: O STF decide no dia 8 de abril se o “governador-tampão” será escolhido pelos deputados (eleição indireta) ou pelo povo nas urnas (eleição direta).
Caminho paralelo
Enquanto isso, Ruas também tenta avançar em outra frente do tabuleiro. Com a cassação de Rodrigo Bacellar, partidos governistas articulam para levá-lo à presidência da Alerj.
Assumir o comando da Alerj colocaria Ruas no segundo posto da linha sucessória e abriria a possibilidade de ele assumir o governo interinamente das mãos de Ricardo Couto.
A tentativa, por ora, esbarrou na Justiça. A Assembleia chegou a elegê-lo na última semana, mas o Tribunal de Justiça do Rio determinou que o processo aguarde a substituição formal de Bacellar.













