Césio-137: saiba quem foi responsabilizado pela tragédia em Goiânia

Um dos maiores desastres radiológicos do mundo, o caso do Césio-137 expôs falhas e levou à responsabilização de instituições e médicos

atualizado

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Túmulos de vítimas do acidente radiológico com Césio-137, que marcou Goiânia em 1987 - Metrópoles
1 de 1 Túmulos de vítimas do acidente radiológico com Césio-137, que marcou Goiânia em 1987 - Metrópoles - Foto: Hugo Barreto/Metrópoles @hugobarretophoto

A tragédia com Césio-137 em Goiânia, no ano de 1987, não apenas deixou mortos e feridos, como também desencadeou uma longa discussão sobre quem deveria responder pelo desastre.

As investigações apontaram uma série de falhas que colocaram diferentes instituições e pessoas no centro da responsabilização pelo maior caso de contaminação radioativa fora de uma usina nuclear no mundo.


Memórias radioativas

A história completa do acidente com Césio-137 é contada na série de reportagens especiais do Metrópoles “Memórias radioativas”. Confira:


Na esfera criminal, cinco pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal (MPF) sob acusação de homicídio culposo e lesão corporal culposa.

Entre elas estavam os médicos Carlos de Figueiredo Bezerril, Orlando Alves Teixeira e Crizeide de Castro Dourado, proprietários do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), além do físico Flamarion Barbosa Goulart e do proprietário do imóvel onde o equipamento com Césio-137 foi deixado, Amaurillo Monteiro de Oliveira.

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Instalações da clínica de onde foi retirada a cápsula do Césio 137, em Goiânia
Cápsula de onde saiu o Césio-137 que causou desastre em Goiânia
Terreno onde funcionava a clínica de radioterapia de onde foi retirada a cápsula de Césio-137 que deu origem ao acidente radiológico em Goiânia, em 1987. Anos depois, o espaço foi reocupado e hoje abriga o Centro de Cultura e Convenções de Goiânia
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Terreno onde funcionava a clínica de radioterapia de onde foi retirada a cápsula de Césio-137 que deu origem ao acidente radiológico em Goiânia, em 1987. Anos depois, o espaço foi reocupado e hoje abriga o Centro de Cultura e Convenções de Goiânia

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Instalações da clínica de onde foi retirada a cápsula do Césio 137, em Goiânia
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Instalações da clínica de onde foi retirada a cápsula do Césio 137, em Goiânia

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Cápsula de onde saiu o Césio-137 que causou desastre em Goiânia

Reprodução/Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)

A acusação apontou que o equipamento radioterápico foi abandonado sem comunicação à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão responsável pela fiscalização. O local também ficou sem controle de acesso após a retirada de estruturas do prédio, o que permitiu a entrada de catadores e a remoção do material radioativo.

Em 1992, a sentença de primeira instância condenou quatro dos acusados a três anos de detenção. A pena, no entanto, foi substituída por medidas alternativas, como prestação de serviços à comunidade. Amaurillo foi absolvido nesse primeiro julgamento, sob o entendimento de que já não tinha vínculo com o instituto na época.

Idas e vindas das condenações

O caso seguiu para o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que revisou a decisão em 1995. Os desembargadores reconheceram a prescrição das acusações de lesão corporal culposa, mas alteraram outros pontos da sentença.

Amaurillo, antes absolvido, passou a ser condenado por homicídio culposo, com pena de um ano e dois meses de detenção. Já os demais tiveram as penas elevadas para três anos e dois meses, com previsão de cumprimento em regime aberto.

A mudança, porém, não se manteve integralmente. Em 1996, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu restabelecer a substituição das penas de prisão por medidas alternativas para quatro dos condenados.

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Túmulo de Leide das Neves
Túmulo de Maria Gabriela Ferreira
Túmulo de Israel Batista
Túmulo de Admilson Alves. Não há fotos disponíveis dele
Túmulos das quatro vítimas do acidente radiológico com Césio-137 permanecem próximos entre si, em área separada das demais sepulturas do cemitério
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Túmulos das quatro vítimas do acidente radiológico com Césio-137 permanecem próximos entre si, em área separada das demais sepulturas do cemitério

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Túmulo de Leide das Neves

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A decisão foi baseada na regra que impede o agravamento da pena quando apenas a defesa recorre. No ano seguinte, os réus foram beneficiados por indulto presidencial, de Fernando Henrique Cardoso, o que extinguiu as punições.

Com isso, apesar das condenações, não houve cumprimento de pena de prisão em regime fechado no caso.

Campo cível

No campo cível, a responsabilização teve como foco a reparação dos danos causados à coletividade. Em ação movida pelo MPF, a Justiça reconheceu a responsabilidade da CNEN por falhas na fiscalização do material radioativo. A autarquia foi condenada ao pagamento de R$ 1 milhão por danos difusos, valor destinado ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos.

Além da indenização, a decisão impôs obrigações de longo prazo, como a manutenção de atendimento médico e acompanhamento das vítimas, inclusive com monitoramento contínuo da população exposta à radiação. Também foram fixadas condenações individuais: o Ipasgo, Flamarion Barbosa Goulart e Amaurillo Monteiro de Oliveira tiveram de pagar R$ 100 mil cada.

Outros entes públicos não foram responsabilizados. A União foi excluída sob o entendimento de que não teve atuação direta no caso, enquanto o Estado de Goiás ficou fora da condenação por prescrição do pedido.

Outro ponto que marcou o desfecho jurídico foi a ausência de punição criminal para pessoas jurídicas. Na época do acidente, a legislação brasileira ainda não previa de forma estruturada a responsabilização penal de empresas em situações como essa, o que limitou o alcance das decisões.

O acidente com Césio-137

O acidente com o Césio-137 ocorreu em setembro de 1987, após a violação de um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica desativada, em Goiânia. Catadores retiraram do equipamento uma cápsula com material altamente radioativo, que acabou sendo manipulada e compartilhada sem que houvesse conhecimento dos riscos.

A substância, que emitia um brilho azulado, atraiu a atenção de moradores e contribuiu para a disseminação da contaminação. Ao todo, quatro pessoas morreram em decorrência da exposição, e centenas foram afetadas, necessitando de atendimento médico.

Considerado um dos maiores acidentes radiológicos em área urbana no mundo, o caso deixou consequências que permanecem até hoje, tanto na saúde das vítimas quanto no impacto social.

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