Césio-137: saiba o que aconteceu com as principais vítimas em Goiânia
Tragédia com Césio-137 em Goiânia causou mortes a curto e longo prazo, além de sobreviventes marcados pela radiação
atualizado
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O acidente com o Césio-137, em Goiânia no ano de 1987, tirou vidas e deixou sobreviventes que carregam sequelas até hoje, quase 40 anos depois.
Considerado o maior desastre radiológico já registrado no Brasil e um dos maiores do mundo, o caso começou após a retirada de uma cápsula de um aparelho de radioterapia abandonado, cujo material radioativo foi manuseado sem conhecimento dos riscos e acabou se espalhando entre moradores.
A exposição ao césio mobilizou uma ampla operação de saúde pública. Ao todo, 112,8 mil pessoas foram monitoradas pelas autoridades. Dentre elas, 249 apresentaram algum nível de contaminação, e 129 precisaram de acompanhamento médico. Os casos mais graves foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, referência no tratamento de radioacidentados.
Memórias radioativas
A história completa do acidente com Césio-137 é contada na série de reportagens especiais do Metrópoles “Memórias radioativas”. Confira:
- Memórias radioativas: vítimas do Césio-137 lutam para não serem esquecidas
- Césio-137: relembre a história de Leide, vítima símbolo da tragédia
- Césio-137: pensões das vítimas estão sem reajuste há 7 anos
- O que dizem as vítimas do Césio-137 sobre a série da Netflix
- Saiba tudo sobre o Césio-137, material que causou tragédia em Goiânia
Nas semanas seguintes, quatro pessoas morreram em decorrência direta da radiação. Outras vítimas faleceram anos depois, enquanto sobreviventes ainda convivem com sequelas físicas e psicológicas deixadas pela contaminação.
Veja o que aconteceu com as principais vítimas.
Leide das Neves Ferreira

Símbolo do acidente, Leide das Neves Ferreira tinha 6 anos quando entrou em contato com o pó de brilho azulado levado para casa pelo pai. Encantada, brincou com o material e chegou a ingerir a substância ao comer um ovo com as mãos contaminadas.
Ela morreu em 23 de outubro de 1987, em decorrência da exposição à radiação.
Maria Gabriela Ferreira

Esposa de Devair Ferreira, dono do ferro-velho onde a cápsula foi aberta, Maria Gabriela teve papel decisivo ao suspeitar dos efeitos do material e levá-lo à Vigilância Sanitária, retirando a fonte radioativa de circulação. É vista como heroína.
Ela morreu em 23 de outubro de 1987, aos 37 anos, em decorrência da exposição à radiação.
Israel Baptista dos Santos

Funcionário do ferro-velho, Israel participou da abertura do aparelho de radioterapia e teve contato direto com o pó radioativo durante o manuseio.
Ele morreu em 27 de outubro de 1987, aos 22 anos, em decorrência da exposição à radiação.
Admilson Alves de Souza
Também trabalhador do ferro-velho, Admilson ajudou a desmontar o equipamento e entrou em contato direto com o material contaminado, que chegou a ser exibido a outras pessoas.
Ele morreu em 18 de outubro de 1987, aos 18 anos, em decorrência da exposição à radiação.
Devair Alves Ferreira

Dono do ferro-velho onde a cápsula foi aberta, Devair sobreviveu aos efeitos imediatos da radiação, mas morreu sete anos depois, aos 43 anos, vítima de cirrose hepática.
Após o acidente, enfrentou depressão e sentimento de culpa. Diante das consequências da tragédia, desenvolveu alcoolismo, o que contribuiu para o agravamento de sua saúde.
Ivo Ferreira
Pai de Leide, Ivo morreu 15 anos após o acidente. A causa foi enfisema pulmonar, agravado pelo tabagismo e por sequelas físicas e psicológicas associadas à exposição à radiação.
Ele também enfrentou depressão e sofrimento emocional após a morte da filha.
Sobreviventes
- Odesson Alves Ferreira
Irmão de Devair, Odesson tinha 32 anos quando foi contaminado. Ele entrou em contato com o material ao manuseá-lo na casa do irmão, sem saber dos riscos. Chegou a trabalhar por oito dias como motorista de ônibus enquanto estava contaminado, transportando cerca de mil pessoas por dia.
Internado em isolamento por meses, sofreu graves consequências físicas: perdeu a palma da mão, que precisou ser reconstruída, e teve parte do dedo indicador amputada. Hoje, atua como ativista pelos direitos das vítimas.

- Lourdes das Neves
Mãe de Leide, Lourdes perdeu a filha na tragédia e teve a casa destruída por contaminação, sendo transformada em lixo radioativo. Após o acidente, dedicou-se a cuidar do marido, Ivo, que enfrentou depressão profunda.
Atualmente, vive em uma casa doada pelo governo de Goiás, em Aparecida de Goiânia. Hoje tem 74 anos.

- Luiza Odete
Tia de Leide, Luiza teve contato direto com o material após ser chamada pela sobrinha para ver a “pedrinha iluminante”. Durante uma brincadeira, Ivo pegou um pedaço de papel com o material radioativo e passou no pescoço de Odete, que lhe causou lesões graves, principalmente no pescoço.
Ela ficou internada por meses e carrega cicatrizes permanentes da contaminação. Hoje tem 66 anos.

- Geraldo da Silva Pontes
Funcionário do ferro-velho, Geraldo ajudou Maria Gabriela a levar a cápsula com o material radioativo até a Vigilância Sanitária, carregando-a no ombro por dois quarteirões.
Ele também foi contaminado e até hoje apresenta cicatrizes pelo corpo. Atualmente, tem 72 anos.

