Césio-137: o que aconteceu com o dono do ferro-velho palco da tragédia
Após contato com o Césio-137, dono de ferro-velho enfrentou contaminação, perdas na família e consequências duradouras na saúde e na vida
atualizado
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Uma das figuras centrais do acidente com o Césio-137 em Goiânia, Devair Alves Ferreira teve a vida profundamente impactada após entrar em contato com o material radioativo que desencadeou a maior tragédia radiológica do Brasil e uma das maiores do mundo.
Na época, Devair era dono de um ferro-velho localizado na Rua 26-A, no Setor Aeroporto. Em 18 de setembro de 1987, ele comprou de dois catadores uma peça metálica cilíndrica, retirada de uma clínica de radioterapia abandonada. Sem saber dos riscos, decidiu abrir o equipamento, que continha uma cápsula com exatamente 19,26 gramas de Césio-137, substância altamente radioativa.
Memórias radioativas
A história completa do acidente com Césio-137 é contada na série de reportagens especiais do Metrópoles “Memórias radioativas”. Confira:
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O material foi inicialmente armazenado em um depósito dentro do ferro-velho. Na noite daquele mesmo dia, ao perceber um brilho azul intenso vindo da peça, Devair ficou maravilhado e levou a cápsula para dentro de casa. Nos dias seguintes, passou a exibir o conteúdo a familiares e conhecidos, chegando a distribuir pequenas porções da substância.
Pouco tempo depois, começaram a surgir sintomas típicos de contaminação por radiação, como náuseas, vômitos, diarreia, tontura e lesões na pele. A esposa de Devair, Maria Gabriela Ferreira, desconfiou da relação entre o pó luminoso e o adoecimento de pessoas próximas. Em 28 de setembro, ela recolheu a cápsula e, com a ajuda de um funcionário do ferro-velho, levou o material à Vigilância Sanitária, onde foi identificada a presença de radioatividade.
Mortes
Ao todo, 112,8 mil pessoas foram monitoradas. Em 249 delas foi detectado algum nível de contaminação. Entre os contaminados, 129 precisaram de acompanhamento médico. Os casos mais graves foram transferidos em 1º de outubro para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, referência no tratamento de radioacidentados.
No total, 14 pacientes – entre eles, Devair – foram transportados em aeronaves da Força Aérea Brasileira, já com comprometimento do sistema hematopoiético, contaminação interna e lesões cutâneas severas.
Quatro pessoas morreram nas semanas seguintes em decorrência das complicações da radiação:
- Leide das Neves Ferreira, 6 anos, sobrinha de Devair — 23 de outubro
- Maria Gabriela Ferreira, 37 anos, esposa de Devair — 23 de outubro
- Israel Batista dos Santos, 20 anos, funcionário do ferro-velho de Devair — 27 de outubro
- Admilson Alves de Souza, 18 anos, funcionário do ferro-velho de Devair — 28 de outubro
Já Devair Alves Ferreira, embora tenha sobrevivido aos efeitos agudos da radiação, morreu sete anos depois, aos 43 anos, em decorrência de cirrose hepática — doença causada, principalmente, pelo consumo abusivo de álcool.
Após o desastre, o dono do ferro-velho enfrentou um quadro severo de depressão, somado ao sentimento de culpa. Em meio às consequências da tragédia que atingiu a família, Devair mergulhou no alcoolismo.
















