atualizado
Sobreviventes da tragédia com o Césio-137, em Goiânia, afirmam viver uma nova forma de abandono: a defasagem inflacionária das pensões pagas pelo Estado de Goiás.
As pessoas expostas ao material radioativo recebem, atualmente, pensões de R$ 954 ou de R$ 1.908. Os valores estão sem reajuste desde 2018.
Vítimas que recebem o valor inferior ao salário mínimo reclamam que a quantia não cobre as despesas básicas, especialmente quando há problemas de saúde decorrentes da radiação.

Para os sobreviventes, a conta não fecha. Uma delas é Lourdes das Neves Ferreira, de 74 anos, mãe de Leide das Neves — a menina que se tornou símbolo do acidente com o Césio-137.
Leide morreu aos seis anos de idade, dias após se contaminar ao ingerir um ovo cozido com as mãos sujas de material radioativo.

Lourdes conta que após o falecimento da filha a vida nunca mais foi a mesma. Além de Leide, ela perdeu o marido e a residência da família, demolida durante o processo de descontaminação. Hoje, vivendo em Aparecida de Goiânia (GO), lida sozinha com as despesas da casa e os tratamentos de saúde. Apenas os medicamentos que precisa tomar custam cerca de R$ 500 por mês — mais da metade da pensão paga pelo governo.
“Antes a gente tinha toda a assistência. Ganhava medicação, podia ser o preço que fosse. Tinha o salário, tinha a cesta básica, tinha tudo. Depois saíram cortando. O que o governo paga hoje não dá para a gente sobreviver direito. Costumo falar que não vivo, vegeto. E a única coisa que quero é ter um final de vida digno”, desabafa.
Nos últimos anos, ela precisou recorrer a empréstimos consignados, cujas parcelas são descontadas diretamente da pensão. Atualmente, depende de doações de cestas básicas e medicamentos.
Outro sobrevivente que relata dificuldades é Donizeth Rodrigues de Oliveira, de 61 anos. Após sofrer oito infartos, não tem condições de trabalhar.

“Já infartei oito vezes. Tomo bastante medicação e não tenho dinheiro para comprar. O que a gente ganha do governo hoje é uma quantia irrisória.”
Donizeth relata sofrer com diabetes, perda de audição, problemas renais e uma hérnia abdominal. Sem renda suficiente, passou a sobreviver recolhendo recicláveis nas ruas.
“Hoje a gente está passando fome. O que ganha não dá para comer, não dá para comprar remédio, não dá para pagar energia. Eu era uma pessoa normal. Trabalhava e mantinha minha família. Hoje não dou conta.”
Após o acidente radiológico com o Césio-137, em setembro de 1987, o governo de Goiás criou a Fundação Leide das Neves (FunLeide) para acompanhar os sobreviventes. Posteriormente, a instituição foi reestruturada e transformada no Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara), atualmente vinculado à Secretaria de Estado da Saúde.
A unidade é responsável pelo acompanhamento médico das vítimas e de seus descendentes. Na prática, porém, os radioacidentados relatam dificuldades de acesso a informações e acompanhamento clínico. Segundo os relatos, o Cara — que deveria ser referência no monitoramento de longo prazo das vítimas — não cumpre plenamente esse papel.

Imagem aérea do terreno onde funcionava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, palco do acidente radiológico com Césio-137
Vai e vem no reajuste das pensões
Desde 2018, as pensões pagas pelo Estado de Goiás às vítimas do acidente radiológico com o Césio-137 estão sem reajuste. As tentativas recentes de atualizar o benefício esbarraram em entraves políticos.
Em julho de 2023, o governador Ronaldo Caiado (União Brasil) vetou um projeto do deputado estadual Major Araújo (PL) que previa o reajuste das pensões. O governo apontou inconstitucionalidade da proposta por falta de estudo de impacto orçamentário e financeiro.
No ano seguinte, um novo projeto foi apresentado pelo deputado Issy Quinan (MDB) na Assembleia Legislativa. A proposta chegou à Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Casa, mas teve a análise interrompida após pedido de vista do líder do governo, Talles Barreto (União Brasil), em junho de 2024.
Em setembro de 2025, a Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Alego decidiu encaminhar o projeto de reajuste para análise do governo estadual antes de qualquer votação. O texto foi enviado à Secretaria da Economia do Estado de Goiás e à Secretaria de Estado de Relações Institucionais de Goiás. Essa foi a última movimentação registrada no sistema legislativo.
O governo de Goiás foi acionado em 2 de março pelo Metrópoles para esclarecer a defasagem no valor das pensões e respondeu, nessa terça-feira (17/3), às vésperas da publicação da reportagem. Pelas redes sociais, o governador Ronaldo Caiado anunciou o envio de um projeto de lei para reajustar os benefícios em 69,92%. Com a proposta, os valores mensais passariam de R$ 1.908 para R$ 3.242 e de R$ 954 para R$ 1.621, respectivamente.
O texto ainda precisa ser apreciado pelos deputados estaduais e aprovado para entrar em vigor.

Para esclarecer sobre o atendimento às vítimas, a reportagem procurou a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás.
À secretaria foram enviadas perguntas sobre dados atualizados dos radioacidentados, critérios para reconhecimento de novas vítimas e funcionamento do atendimento prestado.
Inicialmente, algumas informações chegaram a ser respondidas, mas dias depois o órgão informou que os dados não haviam passado pela validação institucional necessária e não poderiam ser utilizados como posicionamento oficial. Em nova comunicação, a secretaria afirmou que não se manifestaria mais sobre o caso.

Leia as outras matérias da série Memórias radiotivas:
Memórias radioativas: vítimas do Césio-137 lutam para não serem esquecidas
Césio-137: relembre a história de Leide, vítima-símbolo da tragédia
O que dizem as vítimas do Césio-137 sobre a série da Netflix









