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Quase quatro décadas após o acidente com o Césio-137, Goiânia ainda convive com as marcas invisíveis da tragédia. O fascínio provocado pelo “pó de brilho azul que reluz” foi breve. Mas para quem teve contato com o material radioativo, ficaram cicatrizes físicas, memórias difíceis de apagar e problemas de saúde que persistem até hoje.
Entre as vítimas do césio, se mantém a sensação de que, com o passar dos anos, o apoio do Estado foi se tornando cada vez mais distante — e a luta agora é para que suas histórias não sejam esquecidas.
Sobreviventes ouvidos pela reportagem relatam dificuldades para acessar atendimento de saúde e apontam defasagem na pensão vitalícia garantida pela lei estadual nº 14.226, de 8 de julho de 2002. Hoje, grande parte dos beneficiários recebe R$ 954 — valor mais baixo que um salário mínimo e sem reajuste desde 2018.
Entre os afetados, é recorrente a sensação de abandono institucional e de que, com o passar dos anos, a tragédia vem sendo gradualmente apagada pelo poder público.
“Nos primeiros anos, a gente tinha toda a assistência. Ganhava medicação, podia ser o preço que fosse. Tinha o salário, tinha a cesta básica, tinha tudo. Depois saiu cortando. O que o governo paga não dá para a gente sobreviver direito. Costumo falar que não vivo, vegeto”, desabafa Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide das Neves, criança que se tornou a vítima-símbolo da tragédia.

Como ocorreu o acidente do Césio-137
Era 13 de setembro de 1987, e seria apenas mais um dia comum na rotina dos catadores Roberto dos Santos Alves, de 21 anos, e Wagner Mota Pereira, 20, que viviam da coleta de recicláveis no Setor Aeroporto, região central da capital.
Os dois entraram em uma clínica de radioterapia abandonada na Avenida Paranaíba e, ali, encontraram uma cápsula de metal, cilíndrica e pesada, que guardava exatamente 19,26 gramas de Césio-137.
Os catadores não tinham ideia mas, naquele momento, ao manusear a cápsula, mudaram para sempre o rumo da própria vida, de suas famílias e conhecidos, e de toda uma cidade e estado. O material altamente radioativo provocaria quatro mortes, contaminaria gravemente centenas de pessoas e geraria cerca de seis mil toneladas de rejeitos radioativos.

Roberto e Wagner levaram a sucata para casa, localizada na Rua 57-A, e a abriram. Alguns dias depois, em 18 de setembro, venderam o objeto a Devair Alves Ferreira, então com 36 anos, proprietário de um ferro-velho situado a poucos quarteirões dali, na Rua 26-A. À noite, ao passar pelo pátio do estabelecimento, o dono do ferro-velho percebeu o intenso brilho azul que emanava do interior da peça recém-comprada. Atraído e encantado pela luminosidade, levou a cápsula para casa.
Nos dias seguintes, Devair passou a mostrar e a repartir pequenas porções do Césio-137 entre familiares e conhecidos. Em pouco tempo, aqueles que tiveram contato direto com o material começaram a sentir mal-estar, com tontura, enjoo, vômitos e diarreia.

Entre eles, cogitou-se que os sintomas fossem consequência de uma feijoada acompanhada de Coca-Cola que tinham comido durante a semana. Sem saber a verdadeira causa do problema, muitos procuraram farmácias ou hospitais e foram medicados como se tivessem uma doença infectocontagiosa.
Leide, a criança-símbolo da tragédia
Sem associar os sintomas ao contato com a peça, o irmão de Devair, Ivo Alves Ferreira, que vivia no Setor Norte-Ferroviário, levou parte do pó para casa, em um pedacinho de papel. No dia 24 de setembro, a filha de Ivo, Leide das Neves, de apenas 6 anos, brincou manuseando a substância e, em seguida, comeu um ovo sem lavar as mãos, ingerindo partículas radioativas. A menina se tornou vítima-símbolo da tragédia.

“Passados uns 15 minutos [que Leide comeu o ovo], ela começou a vomitar. Fiquei com medo de pôr ela no quarto e dar crise de vômito, sufocar. Aí levei para o meu quarto, botei no cantinho da minha cama. Aquele ponto lá no canto da cama, que ela passou um pedaço da noite, era o ponto mais forte de radiação que tinha na minha casa. Cheguei a ouvir que ela [Leide] era como uma bomba radioativa”, relata Lourdes.

No mesmo dia em que Leide foi contaminada, a tia da menina, Luiza Odete, hoje com 66 anos, também teve contato com o Césio-137. Foi a própria sobrinha quem lhe mostrou o pó de brilho azul que circulava pela casa. Na época, Odete morava em um barracão nos fundos do mesmo lote onde ficava a residência de Lourdes e Ivo, junto com o marido, Kardec Sebastião dos Santos, e os quatro filhos do casal.
“Morava nos fundos, então toda hora estava lá. Quando cheguei, entrei, e a Leide disse: ‘Titia, vem ver a pedrinha iluminante que o papai trouxe’. Essa frase nunca esqueci. Entrei no quarto e ela mesma apagou a luz. Aquilo brilhava como se soltasse raios. Fiquei ali por perto e peguei um pouquinho”, conta Odete, ao relembrar o primeiro contato com a substância.
No mesmo dia, durante uma brincadeira, Ivo pegou um pedaço de papel com o material radioativo e passou no pescoço de Odete. “Ele me segurou e disse: ‘Vou fazer a Odete ficar bonita’. Só com o papel que tinha trazido, passou no meu pescoço. Apenas o papel. O pó caiu no meu seio, deu lesão, ficou em carne viva”. As cicatrizes que Odete carrega até hoje escancaram a agressividade do Césio-137.
“Fui para casa e mostrei [o Césio] ao meu marido. Disse: ‘Olha isso aqui, que interessante, olha o tanto que brilha’, e apaguei a luz para ele ver. De madrugada, aquele pouquinho que levei brilhou no meio da cama. Tentei jogar no chão, mas acho que ficou na beirada. Deixou várias marcas no braço do meu esposo, queimaduras. Acordei com o pescoço ardendo, avermelhado, como se tivesse esfolado, como se tivesse escorregado de uma árvore”, afirma Odete.
Desconfiança e confirmação
Àquela altura, a situação já estava longe de parecer normal. Maria Gabriela, então com 37 anos e esposa de Devair, passou a desconfiar de que o pó luminoso pudesse estar por trás dos males que atingiam parentes e amigos.
Determinada a buscar ajuda, recolheu a cápsula e, em 28 de setembro, junto com Geraldo Guilherme da Silva Pontes, funcionário do ferro-velho, levou o material à Vigilância Sanitária. A atitude impediu que o acidente radiológico tomasse proporções ainda maiores e, por isso, Maria Gabriela passou a ser reconhecida como uma heroína.
“Pegamos o ônibus 2525 da HP até a Vigilância Sanitária, e lá estava um técnico da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear). Foi ele quem salvou mais gente também, porque, se não fosse ele descobrir que a peça era radioativa, estaríamos todos mortos”, relembra Geraldo, hoje com 72 anos.
Ao descer do ônibus, Geraldo carregou a fonte radioativa no ombro por dois quarteirões até chegar ao prédio onde o material seria examinado. Ele carrega cicatrizes pelo corpo devido ao contato com o Césio-137.

Quando a cápsula com o material radioativo foi levada à Vigilância Sanitária, ainda não se tinha dimensão do que estava por vir. A sucata com o material radiológico chegou dentro de uma sacola plástica e permaneceu por horas no pátio do prédio, sem que se soubesse exatamente do que se tratava.
Coube ao físico Walter Mendes, então com 29 anos e servidor da Secretaria de Saúde, avaliar a substância, no dia seguinte. Com um medidor de radiação emprestado do escritório regional da Nuclebrás, ele identificou que se tratava de material altamente radioativo. A orientação foi imediata: todos deveriam deixar o local. Pouco depois, o prédio foi isolado pelo Corpo de Bombeiros e pela Polícia Militar.
“Na primeira tentativa de identificação do material, a aproximadamente 70 metros da Vigilância, o detector já indicava a presença de material radioativo. Achei que o detector estava com defeito e retornamos à Nuclebrás. Um outro detector foi disponibilizado. Retornei à Vigilância e, no mesmo local da primeira medição, o detector confirmava a presença de material radioativo. Na realidade, o detector não conseguia medir normalmente, indicando que estava na presença de um campo de radiação muito intenso”, relembra Walter.

Naquele momento, ficou claro que Goiânia enfrentava algo muito maior do que um objeto desconhecido que brilhava no escuro. O que começou como curiosidade revelou-se uma emergência radiológica que mobilizou autoridades, isolou bairros e espalhou medo entre milhares de pessoas. Casas foram interditadas, famílias afastadas de suas rotinas e centenas de moradores passaram a conviver com os efeitos da contaminação.
“O acidente de Goiânia deixou lições para toda a comunidade científica que utiliza a tecnologia nuclear. As ações empregadas para mitigar o acidente levaram ao aprimoramento e à criação de novos protocolos e procedimentos, como radioproteção, caracterização de rejeitos, comunicação com o público e mídia. O trabalho com instituições afins foi essencial para a descontaminação das áreas, o atendimento médico aos radioacidentados, a criação de um arcabouço legal para esse tipo de acidente e o fortalecimento do poder regulatório”, ressalta o físico Walter Mendes.
Uma cidade em pânico

Na madrugada de 30 de setembro, técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) foram ao ferro-velho onde a cápsula havia sido aberta. O proprietário, Devair Ferreira, familiares e vizinhos foram retirados da área em um ônibus da Polícia Militar, enquanto o terreno era interditado. Autoridades da área nuclear e da saúde pública passaram a ser informadas sobre o que começava a ser reconhecido como um acidente radiológico.
“Um dia descobriram o que era. Saímos de casa. Foi um pavor, mas não tínhamos noção do que ia acontecer. Entramos num ônibus e fomos direto para o Estádio Olímpico. Lá diziam: ‘Quem tem lesão fica no ônibus; quem não tem, desce’. Eu tinha lesão, meu marido tinha, meus filhos não. Foi o momento da separação. Nunca tinha ficado sem eles”, relembra Luiza Odete, emocionada.

Nas primeiras horas daquele dia, equipes técnicas chegaram a Goiânia para mapear a extensão da contaminação. Vestindo roupas de proteção e carregando detectores de radiação, percorriam ruas e residências em busca de novos focos.
A cena chamava a atenção de moradores e provocava apreensão. Nos dias que se seguiram, além das medições e dos isolamentos, foi preciso explicar à população o que estava acontecendo em uma cidade que, de repente, se via no centro de uma emergência nuclear.
Com a confirmação de que se tratava de material radioativo, o governo estadual convocou a população para passar por exames de medição de radiação. A mobilização levou milhares de pessoas ao Estádio Olímpico Pedro Ludovico, no Centro da cidade, transformado em ponto de triagem. Filas se formaram ao redor do estádio enquanto técnicos avaliavam quem poderia ter sido contaminado.

Ao todo, 112,8 mil pessoas foram monitoradas. Em 249 delas foi detectado algum nível de contaminação. Em pouco mais de uma centena, o material estava apenas nas roupas ou nos objetos pessoais.
Entre as pessoas contaminadas, 129 precisaram de acompanhamento médico especializado. Algumas foram mantidas em semi-isolamento em estruturas improvisadas no próprio Estádio Olímpico e na Fundação do Bem-Estar do Menor. Outras foram encaminhadas ao Hospital Geral de Goiânia, onde equipes médicas passaram a lidar com um tipo de emergência raramente visto no país: lesões causadas por radiação.
As vítimas que morreram na tragédia
Os quadros mais graves exigiram transferência para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, referência nacional no tratamento de radioacidentados, em 1º de outubro. Ao todo, 14 pacientes foram levados para a unidade em aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB). Eles chegaram com comprometimento do sistema hematopoiético, contaminação interna e lesões cutâneas provocadas pela radiação.
A exposição ao Césio-137 deixou diferentes marcas. Oito pacientes desenvolveram a Síndrome Aguda da Radiação, caracterizada por alterações gastrointestinais e hematológicas. Outros apresentaram lesões na pele semelhantes a queimaduras graves, com bolhas, infecções e necrose.
Quatro pessoas morreram nas semanas seguintes no Rio de Janeiro, todas em decorrência de complicações provocadas pela radiação.
Saiba quem foram as vítimas da tragédia:
Os corpos retornaram a Goiânia em aeronaves do Exército, sob forte esquema de segurança. Para muitos moradores, a cena lembrava uma operação militar. A cidade, que semanas antes acompanhava com apreensão o trabalho de técnicos, médicos e demais profissionais de saúde, agora se via diante do impacto humano da tragédia.
Velório marcado por preconceito
Como se não bastasse a dor imposta pelo acidente, os sobreviventes também passaram a enfrentar o peso do preconceito. No Cemitério Parque, uma multidão de mais de 2 mil pessoas tentou impedir o enterro de Leide das Neves e de sua tia Maria Gabriela Ferreira, temendo que os corpos contaminassem o local. Tijolos e pedras foram usados para bloquear a entrada do cemitério, em um protesto alimentado pelo pânico que ainda dominava parte da população.
Os caixões, revestidos internamente com chumbo, pesavam cerca de 700 quilos e precisaram ser içados por guindastes até as sepulturas. Depois do enterro, os túmulos foram concretados como parte dos procedimentos de contenção da contaminação.
A mãe da menina, Lourdes das Neves Ferreira, chegou ao velório sem o marido, Ivo Ferreira, que permanecia internado no Rio de Janeiro para tratamento. Em meio à tensão, ela só conseguiu se aproximar do caixão da filha após a intervenção da então primeira-dama de Goiás, Sônia Santillo.
Com o passar dos anos, outras perdas se somaram à história do acidente. Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho onde a cápsula foi aberta, morreu sete anos depois, aos 43 anos, vítima de cirrose hepática. Após o acidente, ele desenvolveu depressão e passou a enfrentar problemas com alcoolismo. Já Ivo Ferreira, pai de Leide e irmão de Devair, faleceu 15 anos após o episódio, em decorrência de enfisema pulmonar.

As cicatrizes do Césio-137
Com a confirmação da contaminação, foi organizada uma força-tarefa para conter os efeitos do acidente e proteger a população. A chamada “Operação Césio-137” reuniu equipes técnicas e órgãos públicos encarregados de mapear as áreas atingidas, isolar locais contaminados e evitar a disseminação da radioatividade.
Enquanto a população passava por exames, equipes especializadas percorriam a cidade em busca de focos de contaminação. Sete áreas principais foram identificadas. Nelas, casas foram interditadas, famílias removidas e ruas isoladas. Ao todo, 42 residências precisaram ser evacuadas e sete acabaram demolidas durante o processo de descontaminação.
Durante quase três meses, técnicos da CNEN se revezaram em equipes semanais para monitorar os locais afetados, retirar resíduos e reduzir os níveis de radiação. Tudo o que não pôde ser descontaminado — móveis, roupas, utensílios domésticos, fotografias, documentos e objetos pessoais — foi recolhido como rejeito radioativo. Muitos desses itens, carregados de história, foram descartados como resíduos.
“Quando foram demolir minha casa, me perguntaram se eu pudesse salvar alguma coisa, o que escolheria. Respondi: ‘as fotos dela [Leide]’. Eu dizia: ‘Quero tirar muitas fotos suas antes de você começar a perder os primeiros dentinhos’. Ela se foi com seis anos. Não consegui ver ela sem os dentinhos. Tenho uma fotinha dela no armário. Em alguns dias acordo mais triste, mais deprimida. Mas quando olho para aquele sorrisão, penso: ‘Não posso ficar assim. Tenho que lutar. Tenho que reagir’”, desabafa Lourdes, mãe de Leide.


Os dois terrenos diretamente ligados ao início da tragédia — o ferro-velho de Devair e o lote onde moravam os catadores que encontraram a cápsula com o Césio — foram destruídos durante o processo de descontaminação. O solo dos locais recebeu camadas de concreto para impedir qualquer contato futuro com a radiação, e até hoje não são permitidas construções.
Já o terreno onde funcionava a clínica de radioterapia teve outro destino. Anos depois, o espaço foi reocupado e hoje abriga o Centro de Cultura e Convenções de Goiânia.

O depósito de rejeitos radioativos
Enquanto as áreas urbanas eram isoladas, surgia outro desafio: definir o destino dos rejeitos radioativos. Inicialmente, chegou-se a discutir o envio do material para a Serra do Cachimbo, no Pará. A proposta, porém, enfrentou forte resistência e gerou protestos em diferentes regiões do país. Nenhum estado queria assumir o armazenamento dos resíduos.
Diante do impasse, o governo federal definiu que cada unidade da federação seria responsável por guardar os rejeitos produzidos em seu próprio território. A solução encontrada foi construir um repositório permanente no Parque Estadual Telma Ortegal, em Abadia de Goiás, a cerca de 22 quilômetros de Goiânia.

Antes disso, o material já havia sido levado de forma provisória para o local. Cerca de 700 caixas metálicas, cinco contêineres marítimos e 2 mil tambores foram armazenados em um depósito transitório, somando aproximadamente 1.600 metros cúbicos de rejeitos — quase 1.700 toneladas de material contaminado.
O repositório definitivo foi projetado para garantir o isolamento por longo prazo. A estrutura, formada por grandes módulos de concreto, conta com sistemas de drenagem e barreiras de proteção para impedir a infiltração de água e o contato com o ambiente externo. O espaço foi planejado para manter os resíduos seguros por cerca de 300 anos, período estimado para a redução significativa da radioatividade.



Ao todo, cerca de 6 mil toneladas de materiais contaminados foram recolhidas. Entre os resíduos estavam restos de 49 casas, mais de 50 veículos e trechos de 45 ruas, além de árvores, calçadas, roupas, utensílios domésticos e outros objetos atingidos pela radiação. Tudo o que não pôde ser descontaminado foi tratado como rejeito nuclear e permanece armazenado sob controle técnico.
Abandono e apagamento da tragédia
Com o fim da descontaminação e o isolamento dos rejeitos, a resposta emergencial ao acidente foi encerrada. Para as vítimas, no entanto, as consequências continuaram. Muitos passaram a conviver com sequelas físicas, necessidade de acompanhamento médico permanente e dificuldades financeiras.
Os atingidos pelo acidente foram classificados conforme o nível de exposição à radiação. O Grupo 1 reuniu pessoas com contato direto e intenso com o material radioativo, que desenvolveram sintomas graves da radiação e precisaram de internação hospitalar. O Grupo 2 incluiu vítimas com contaminação relevante identificada por exames, mas sem quadro agudo grave. Já o Grupo 3 incluiu pessoas com exposição indireta ou níveis mais baixos de radiação, além de profissionais que atuaram na resposta à emergência.

Para acompanhar os sobreviventes, o governo de Goiás criou ainda em 1987 a Fundação Leide das Neves (FunLeide), voltada à assistência médica e social das vítimas. A estrutura foi sendo modificada ao longo dos anos até dar origem ao Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara), atualmente vinculado à Secretaria de Estado da Saúde.
A missão do Cara é monitorar os efeitos do Césio-137 na saúde dos radioacidentados e também de seus descendentes — filhos, netos e bisnetos — além de concentrar dados epidemiológicos sobre o acidente. No entanto, vítimas ouvidas pela reportagem contam que a estrutura vem sendo sucateada ao longo do tempo.


Além do atendimento médico, os atingidos passaram a receber pensões vitalícias previstas em leis estaduais e federais. O benefício, que deveria representar uma forma de reparação, tornou-se outro ponto de tensão.
Desde 2018, as pensões pagas pelo Estado de Goiás não recebem reajuste. Atualmente, a maioria dos atingidos recebe cerca de R$ 954, quantia inferior ao salário mínimo e considerada insuficiente para custear medicamentos, exames e despesas básicas.
Respostas oficiais
Para esclarecer a situação das pensões e do atendimento às vítimas, a reportagem procurou a Secretaria de Estado da Saúde e o governo de Goiás.
À Secretaria de Saúde, foram encaminhadas perguntas sobre dados atualizados dos radioacidentados, critérios de reconhecimento de novas vítimas e o funcionamento do atendimento prestado pelo Cara.
Inicialmente, algumas informações chegaram a ser enviadas, mas, dias depois, o órgão informou que os dados não haviam passado pela validação institucional necessária e, portanto, não poderiam ser considerados oficiais. Na nova comunicação, a secretaria afirmou que não se manifestaria sobre o caso.
Já o governo de Goiás foi acionado em 2 de março para esclarecer a defasagem no valor das pensões e respondeu apenas às vésperas da publicação da reportagem, nessa terça-feira (17/3).
Pelas redes sociais, o governador Ronaldo Caiado anunciou o envio à Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) de um projeto de lei que prevê reajuste de 69,92% nas duas categorias da pensão especial vitalícia paga às 603 vítimas do acidente com o Césio-137.
Entre os sobreviventes do acidente, a percepção é de descaso. “Hoje, nós não temos nem o valor que tem o lixo. O rejeito radioativo que está em Abadia tem mais valor do que a gente. O lixo eles vigiam todos os dias. Nós não”, afirma Donizeth Rodrigues, de 61 anos, que trabalhava para Ivo Ferreira — irmão de Devair Alves Ferreira — na época do acidente.
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