Césio-137: relembre a história de Leide das Neves, vítima-símbolo da tragédia

Após 38 anos do acidente, Lourdes das Neves conta como a filha de 6 anos foi contaminada e lembra o impacto da tragédia na família

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atualizado

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Passadas quase quatro décadas do acidente radiológico com Césio-137 em Goiânia, a lembrança de Leide das Neves Ferreira ainda atravessa a vida da mãe, Lourdes das Neves Ferreira, hoje com 74 anos. A menina, que tinha apenas seis anos quando morreu, tornou-se o rosto mais conhecido da tragédia que marcou para sempre a história da cidade.

Leide das Neves Ferreira, menina que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137, ocorrido em Goiânia, em 1987 - Metrópoles
Leide das Neves Ferreira, menina que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137, ocorrido em Goiânia

Tudo começou em 13 de setembro de 1987, quando os catadores Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira encontraram uma cápsula de metal em uma clínica de radioterapia abandonada na Avenida Paranaíba, em Goiânia. O objeto continha 19,26 gramas de Césio-137, material altamente radioativo.

Dias depois, os dois venderam a sucata a Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho. Encantado pelo brilho azul emitido pela cápsula, Devair levou o material para sua residência. A partir desse momento, a substância começou a se espalhar, dando início a um dos maiores acidentes radiológicos do mundo.

O irmão dele, Ivo Alves Ferreira — marido de Lourdes e pai de Leide — também teve contato com o objeto no ferro-velho. Curioso, tentou entender do que se tratava. “Ele enfiou uma chave de fenda dentro dela, tirou um pouquinho [do pó], colocou num papel e trouxe para casa. Chegando, colocou no chão do quarto das crianças e ficou ali, olhando, achando bonito”, conta Lourdes.

O contato de Leide com Césio-137

Leide teve contato com o Césio no dia 24 de setembro. Fascinada com a luz azul, a menina passou horas brincando com a substância. Naquele mesmo dia, a tia dela, Luiza Odete, também foi contaminada.

“Eu morava nos fundos [da casa de Lourdes e Ivo], então toda hora estava lá. Quando cheguei, entrei, e a Leide disse: ‘Titia, vem ver a pedrinha iluminante que o papai trouxe’. Essa frase nunca esqueci. Entrei no quarto e, assim que entrei, Leide apagou a luz. Aquilo brilhava como se soltasse raios. Fiquei ali por perto e peguei um pedacinho”, relembra Luiza.

Leide tocou no pó radioativo e, em seguida, pegou um ovo cozido para comer, com as mãos contaminadas pela substância. Minutos mais tarde, surgiram os primeiros sintomas.

“Passados uns 15 minutinhos, ela começou a vomitar. Estava com ela no colo, e ela vomitava que me molhava toda” , conta Lourdes, a mãe. Com medo de que a filha tivesse uma crise de vômito enquanto dormia sozinha, ela decidiu levá-la para seu próprio quarto. “Aquele canto da cama onde ela passou parte da noite era o ponto mais forte de radiação que tinha na minha casa. Cheguei a ouvir que ela era como uma bomba radioativa.”

O estado de saúde da menina se agravou nas semanas seguintes. Com a progressão dos sintomas e a confirmação da contaminação, ela foi inicialmente levada ao Hospital de Doenças Tropicais (HDT) e, posteriormente, transferida para o Hospital Geral de Goiânia (HGG). Em 1º de outubro, seguiu para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, referência nacional no tratamento de vítimas de radiação. Foi a última vez que Lourdes viu a filha com vida.

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Lourdes das Neves no terreno onde funcionava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, palco do acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia
Lourdes das Neves segura o retrato da filha, Leide das Neves Ferreira, que se tornou símbolo do acidente radiológico de Goiânia com Césio-137
Lourdes das Neves Ferreira, hoje com 74 anos
Lourdes das Neves Ferreira
Lourdes das Neves com a foto da filha, Leide das Neves Ferreira. A criança foi contaminada após brincar com o material radioativo retirado de um aparelho de radioterapia
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Lourdes das Neves com a foto da filha, Leide das Neves Ferreira. A criança foi contaminada após brincar com o material radioativo retirado de um aparelho de radioterapia

Hugo Barreto/Metrópoles @hugobarretophoto
Lourdes das Neves no terreno onde funcionava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, palco do acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia
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Lourdes das Neves no terreno onde funcionava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, palco do acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia

Lourdes das Neves segura o retrato da filha, Leide das Neves Ferreira, que se tornou símbolo do acidente radiológico de Goiânia com Césio-137
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Lourdes das Neves Ferreira, hoje com 74 anos
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Lourdes das Neves Ferreira, hoje com 74 anos

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Lourdes das Neves Ferreira

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A morte

Leide morreu em 23 de outubro de 1987, vítima de uma síndrome aguda da radiação. A contaminação interna severa provocou uma rápida deterioração de seu organismo, com infecção generalizada, hemorragias internas e falência de múltiplos órgãos.

Além dela, outras três pessoas morreram em consequência direta da exposição ao material: sua tia, Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos, esposa de Devair; e os funcionários do ferro-velho Israel Batista dos Santos, de 22 anos, e Admilson Alves de Souza, de 18.

Os caixões, revestidos internamente com chumbo, pesavam cerca de 700 quilos e precisaram ser içados por guindastes até as sepulturas. Depois do enterro, os túmulos foram concretados como parte dos procedimentos de contenção da contaminação.

E como se não bastasse a dor imposta pela tragédia, as vítimas também passaram a enfrentar o peso do preconceito. No Cemitério Parque, uma multidão de mais de duas mil pessoas tentou impedir o enterro de Leide das Neves e de Maria Gabriela Ferreira, falecida no mesmo dia, temendo que os corpos contaminassem o local. Tijolos e pedras foram usados para bloquear a entrada do cemitério, em um protesto alimentado pelo pânico que dominava parte da população.

Lourdes chegou ao velório sem o marido, Ivo Ferreira, que permanecia internado no Rio de Janeiro para tratamento. Em meio à tensão, ela só conseguiu se aproximar do caixão da filha após a intervenção da então primeira-dama de Goiás, Sônia Santillo, que apelou aos manifestantes para que permitissem a despedida.

A menina que sonhava em ser bailarina

Antes do acidente, a rotina da família seguia o ritmo comum de tantas outras pelo país. Ivo, assim como o irmão Devair, mantinha um ferro-velho. Lourdes se dedicava à casa e à criação dos três filhos. Ao lembrar de Leide, a mãe descreve uma menina carinhosa, inteligente e afetuosa, presença leve que preenchia os dias da família.

“Ela gostava muito de brincar, era vaidosa, ficava na frente do espelho jogando o cabelo e dizia que queria ser bailarina. No ano seguinte, iria colocá-la no colégio e procurar uma escola para ela fazer aulas de balé”, lembra a mãe.

Fotografia de Leide das Neves Ferreira guardada no armário por sua mãe, Lourdes das Neves, uma das lembranças que ela preservou da filha após o acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia, em 1987 - Metrópoles
Fotografia de Leide das Neves Ferreira guardada no armário pela mãe, Lourdes das Neves

Objetos pessoais viraram rejeitos radioativos

Com a confirmação da contaminação, foi estruturada uma força-tarefa para conter os impactos do acidente e proteger a população. Os trabalhos começaram com a identificação de imóveis, objetos e vias públicas que apresentavam níveis de radiação acima do permitido. Casas foram interditadas, famílias removidas e áreas isoladas. Sete residências acabaram demolidas – entre elas, a de Lourdes. Tudo o que não pôde ser descontaminado — móveis, roupas, utensílios domésticos, fotografias, documentos e objetos pessoais — foi recolhido como rejeito radioativo.

Antes da demolição, autoridades sanitárias perguntaram a Lourdes o que ela salvaria se pudesse. A resposta veio sem hesitar. “As fotos da Leide”, relembra. E assim foi feito. Mais de 10 fotos da menina foram descontaminadas. A mãe guarda todas em porta-retratos. “São meu tesouro, minha riqueza.”

Lourdes das Neves abraça os porta-retratos da filha, Leide das Neves Ferreira, que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia, em 1987 - Metrópoles
Lourdes das Neves abraça os porta-retratos da filha, Leide das Neves Ferreira, que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137

“Falava para a Leide: ‘Quero tirar bastante fotos suas antes de você começar a perder os primeiros dentinhos’. Ela se foi com seis anos. Não consegui ver ela sem os dentinhos”, diz emocionada.

A família nunca mais voltou à antiga residência. O governo estadual concedeu um novo imóvel para eles em Aparecida de Goiânia, cidade vizinha à capital. “Comecei tudo do zero. Mas a casa nova nunca estava completa, sempre faltava alguma coisa. Faltava ela.” O tempo não foi capaz de apaziguar o luto: passados 38 anos, a ausência de Leide ainda se faz presente no cotidiano da mãe.

“Às vezes me dá uma agonia, uma vontade de abraçar. Tenho uma fotinha dela no armário. Em alguns dias acordo mais triste, mais deprimida. Mas quando olho para aquele sorrisão, penso: ‘Não posso ficar assim. Tenho que lutar. Tenho que reagir’”, desabafa Lourdes, tomada pela saudade.

Ferro-velho onde teve início o acidente radiológico de Goiânia com Césio-137, após a chegada do aparelho de radioterapia que continha o material radioativo - Metrópoles
Ferro-velho onde teve início o acidente radiológico de Goiânia com Césio-137

A vida após a morte de Leide

Nos anos seguintes, Lourdes passou grande parte do tempo cuidando do marido, que enfrentava dores constantes e sequelas da radiação. “Minha vida parou”, resume. Ela o acompanhava em consultas e crises de dor que podiam ocorrer a qualquer momento: “Deixei de viver para cuidar.” Ivo Alves Ferreira morreu em 2003, vítima de um enfisema pulmonar.

Segundo ela, o marido carregou culpa pela morte da filha durante muitos anos. “Ele se culpava muito, mas nunca culpei ele. Nem culpei os dois rapazes que pegaram a peça. Eles não sabiam o que era. Também foram vítimas. Teve gente que chamou de ladrão, disse que, se não tivessem pegado a peça, nada teria acontecido. Nunca pensei assim”, afirma.

Lourdes perdeu a filha, o marido, a casa onde vivia e tudo o que havia construído até então. Hoje, ela tenta seguir em frente, com o pouco dinheiro que recebe para manter as contas em dia, garantir comida na mesa e comprar os remédios de uso contínuo.

Lourdes das Neves Ferreira

Por ter sido exposta ao Césio-137, a mãe de Leide recebe do governo estadual uma pensão prevista na Lei Federal nº 9.425/1996, que instituiu um benefício mensal, vitalício e indenizatório para as vítimas do acidente. O valor, reajustado pela última vez em 2018, é de apenas R$ 954, menos que um salário mínimo. Apenas os gastos com remédio chegam a R$ 500 mensais.

“Nos primeiros anos, a gente tinha toda a assistência. Ganhava medicação, podia ser o preço que fosse. Tinha o salário, tinha a cesta básica, tinha tudo. Depois saiu cortando. O que o governo paga hoje, não dá pra gente sobreviver direito. Costumo falar que não vivo, vegeto. E a única coisa que quero é ter um final de vida digno, acho que é um direito meu”, desabafa.

O governo de Goiás foi acionado em 2 de março para esclarecer a defasagem no valor das pensões e respondeu, nessa terça-feira (17/3), apenas às vésperas da publicação da reportagem.

Pelas redes sociais, o governador Ronaldo Caiado anunciou o envio à Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) de um projeto de lei que prevê reajuste de 69,92% nas duas categorias da pensão especial vitalícia paga às vítimas do acidente com o Césio-137.

Com a proposta, os valores mensais passariam de R$ 1.908 para R$ 3.242 e de R$ 954 para R$ 1.621. O texto ainda precisa ser aprovado pelos deputados estaduais para entrar em vigor.

Túmulo de Leide das Neves
Túmulos de vítimas do acidente radiológico com Césio-137, que marcou Goiânia em 1987 - Metrópoles
Túmulos de vítimas do acidente radiológico com Césio-137, que marcou Goiânia em 1987

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Memórias radioativas: vítimas do Césio-137 lutam para não serem esquecidas
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