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A minissérie “Emergência Radioativa”, produzida pela Netflix e com estreia nesta quarta-feira (18/3), mal chegou à plataforma e já é alvo de críticas de vítimas do acidente com o Césio-137 e de representantes de entidades culturais de Goiânia. As reclamações envolvem, principalmente, a ausência de consulta aos sobreviventes durante o desenvolvimento da produção e a decisão de gravar grande parte das cenas fora da capital goiana.
A produção retrata o acidente radiológico ocorrido em 1987, considerado o maior do mundo fora os de usinas nucleares. A trama acompanha médicos e físicos que atuaram para identificar a contaminação e conter a disseminação da substância radioativa após a desmontagem do aparelho de radioterapia em um ferro-velho.

Embora a série tenha sido anunciada como uma reconstituição ficcional do episódio, sobreviventes afirmam que a forma como o projeto foi conduzido desprezou a história das pessoas diretamente afetadas pela tragédia.
Vítimas dizem que não foram ouvidas
Uma das principais críticas parte da Associação das Vítimas do Césio-137. Segundo o presidente da entidade, Marcelo Santos Neves, integrantes da associação não foram procurados para contribuir com o roteiro ou relatar experiências vividas durante o acidente.
“Não fomos ouvidos para a gravação da série, que é baseada na nossa história. As gravações nem aconteceram em Goiânia, foram feitas em São Paulo. Como é que você faz uma obra contando essa história e não chama quem realmente viveu tudo isso?”, questiona.

De acordo com ele, uma equipe de produção chegou a visitar Goiânia para conhecer locais ligados ao episódio, mas sem diálogo direto com os sobreviventes. Para o presidente da associação, a ausência desse contato pode resultar em versões incompletas da história.
“Isso gerou uma indignação geral entre nós. Cada vez que alguém vê um trecho dessa história sendo contado, muitas feridas são reabertas. Imagine pessoas como a dona Lourdes, por exemplo, que revive situações muito dolorosas. Contar essa história sem ouvir quem viveu tudo isso pode trazer versões erradas ou incompletas. O que as vítimas querem é reconhecimento”, afirma Marcelo Santos Neves.
A “dona Lourdes” é Lourdes das Neves, mãe de Leide das Neves, menina de seis anos que morreu após ingerir Césio-137 e que se tornou um dos principais símbolos da tragédia.
A única pessoa procurada pela equipe para falar sobre o episódio foi Suely Lina Moraes Silva, ex-presidente da associação. Ela relata que acompanhou um pequeno grupo da produção durante uma visita a locais relacionados ao acidente. Segundo Suely, cerca de cinco pessoas participaram da pesquisa de campo e foram levadas até o lote onde funcionava o ferro-velho de Devair, próximo à casa dela. Após esse primeiro contato, no entanto, não houve novas conversas com a equipe.
Críticas sobre gravações fora de Goiânia
Além das manifestações das vítimas, o Conselho Municipal de Cultura de Goiânia divulgou uma carta aberta direcionada à Netflix e à equipe responsável pela minissérie. No documento, o órgão critica a decisão de gravar a maior parte das cenas em São Paulo.
Para o conselho, o acidente com o Césio-137 faz parte da memória coletiva da capital goiana e deveria ser retratado no local onde ocorreu. “Esse episódio não é apenas um fato histórico: ele é parte da memória viva do povo goianiense. Foi aqui, em nossas ruas e casas, que famílias inteiras sofreram, choraram e resistiram”, diz trecho da carta.

O documento lembra que a realização das gravações na cidade poderia ter gerado impacto cultural e econômico positivo para Goiânia.
“Trazer a filmagem para cá não seria apenas fazer justiça à nossa história, mas também gerar empregos, movimentar a economia local e fortalecer a cultura brasileira com mais verdade e representatividade.”
O acidente com o Césio-137
O acidente radiológico aconteceu em setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia abandonado foi retirado do antigo prédio do Instituto Goiano de Radioterapia e levado para um ferro-velho.
Ao desmontar o equipamento, trabalhadores tiveram contato com a cápsula que continha Césio-137. O material radioativo foi fragmentado e acabou sendo levado para diferentes locais, o que ampliou a contaminação.

A tragédia resultou em quatro mortes e mais de mil pessoas afetadas pela radiação. O episódio foi classificado pela Agência Internacional de Energia Atômica como o maior acidente radiológico do mundo fora de usinas nucleares.
O que diz a Netflix
Em nota enviada ao Metrópoles, a Netflix afirmou que buscou garantir rigor histórico na produção da minissérie “Emergência Radioativa”. Segundo a plataforma, a equipe responsável pelo projeto consultou especialistas de diferentes áreas durante o desenvolvimento do roteiro, entre eles médicos e físicos que participaram diretamente do enfrentamento ao acidente radiológico de 1987.
Ainda de acordo com a empresa, também foram ouvidas pessoas que vivenciaram a tragédia de perto e que contribuíram com relatos utilizados na construção dramática dos personagens apresentados na série.
Sobre as críticas relacionadas às locações das gravações, o diretor da produção, Fernando Coimbra, afirmou que a escolha por filmar parte das cenas fora de Goiânia esteve ligada à necessidade de recriar a aparência da cidade no fim da década de 1980. Segundo ele, a capital goiana passou por mudanças urbanísticas significativas nas últimas décadas, o que dificultaria encontrar cenários que reproduzissem com fidelidade o ambiente da época.
“Eram muitos os desafios, e um dos principais foi como reconstruir a Goiânia de 1987. Na época, era uma capital ainda jovem, com forte influência do ambiente rural ao redor. Os locais onde viviam essas pessoas tinham casinhas com muros baixos e ruas de terra”, explicou.
Por esse motivo, parte das cenas foi gravada em cidades do interior de São Paulo, como Cabreúva, onde, segundo o diretor, ainda existem áreas com características semelhantes às da capital goiana na década de 1980.
Outras locações utilizadas pela produção incluem municípios como Sorocaba, Campinas e Osasco. No caso das cenas envolvendo estádios, por exemplo, a equipe optou por gravar em Sorocaba devido às reformas e modernizações ocorridas no Estádio Olímpico de Goiânia ao longo dos anos.
A produção também realizou captações na própria capital goiana. De acordo com Coimbra, imagens aéreas e externas de ruas da cidade foram gravadas para reforçar a presença de Goiânia na narrativa.
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