Saiba o que foi descartado nas 6 mil toneladas de lixo do Césio-137
O Césio-137 deixou um rastro invisível de destruição, transformando casas, objetos e até animais em milhares de toneladas de lixo radioativo
atualizado
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O acidente com o Césio-137, em Goiânia, ocorrido em 1987, não deixou apenas vítimas – ele também gerou uma das maiores operações de coleta de resíduos contaminados já realizadas no Brasil. Ao todo, cerca de 6 mil toneladas de lixo radioativo precisaram ser retiradas de circulação para conter os efeitos da radiação e evitar novas contaminações.
Mas, afinal, o que havia nesse material descartado?
Assim que a contaminação foi confirmada, teve início a chamada “Operação Césio-137”, uma força-tarefa que mobilizou técnicos, cientistas e órgãos públicos. Enquanto mais de 112,8 mil pessoas eram monitoradas, equipes percorriam a cidade identificando focos de radiação.
A história da tragédia é contada na série especial do Metrópoles “Memórias radioativas”:
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- Césio-137: relembre a história de Leide, vítima símbolo da tragédia
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Sete áreas principais foram isoladas. Nesses locais, 42 casas foram evacuadas e, em casos mais graves, sete precisaram ser demolidas.
Tudo o que apresentava risco, e não podia ser descontaminado, era automaticamente classificado como rejeito radioativo.
O que foi descartado
A lista do que precisou ser eliminado impressiona. Não eram apenas materiais técnicos, mas fragmentos inteiros da vida das pessoas.
Entre os itens descartados estavam:
- Móveis inteiros: sofás, camas, armários e mesas contaminados pela poeira radioativa;
- Roupas e tecidos: peças usadas no contato direto com o material, muitas vezes responsáveis por espalhar a contaminação;
- Utensílios domésticos: pratos, talheres, panelas e objetos de cozinha;
- Objetos pessoais: joias, brinquedos, eletrodomésticos e itens de uso diário;
- Fotografias e documentos: registros familiares, certidões e papéis que não puderam ser recuperados;
- Equipamentos e sucatas metálicas: especialmente do ferro-velho onde a cápsula foi aberta;
- Partes de construções: portas, janelas, telhados, pisos e paredes inteiras;
- Solo contaminado: toneladas de terra removidas de quintais, ruas e terrenos.
- Animais domésticos e de criação: cachorros, gatos, galinhas e outros animais que tiveram contato com a radiação e também se tornaram fontes de contaminação.
Em muitos casos, não havia alternativa. Mesmo objetos com valor afetivo ou histórico precisaram ser descartados. A radiação havia penetrado os materiais de tal forma que a descontaminação era impossível.
“Quando foram demolir minha casa, me perguntaram se eu pudesse salvar alguma coisa, o que escolheria. Respondi: ‘as fotos dela [Leide]’. Eu dizia: ‘Quero tirar muitas fotos suas antes de você começar a perder os primeiros dentinhos’. Ela se foi com seis anos. Não consegui ver ela sem os dentinhos. Tenho uma fotinha dela no armário. Em alguns dias acordo mais triste, mais deprimida. Mas quando olho para aquele sorrisão, penso: ‘Não posso ficar assim. Tenho que lutar. Tenho que reagir’”, desabafa Lourdes das Neves, mãe de Leide das Neves, vítima-símbolo da tragédia.

Locais destruídos e enterrados
Os dois pontos diretamente ligados ao início da tragédia – o ferro-velho de Devair e a casa onde os catadores manusearam a cápsula – foram completamente eliminados.
Nesses terrenos, o procedimento foi radical:
- retirada de todo o material contaminado;
- escavação do solo;
- cobertura com camadas de concreto para selar qualquer resquício de radiação.
Até hoje, não é permitida a construção nesses locais.
Já o terreno da antiga clínica de radioterapia, onde o aparelho foi abandonado, teve outro destino. Anos depois, a área foi reocupada e hoje abriga o Centro de Cultura e Convenções de Goiânia.

Para onde foi todo esse lixo
A remoção do material contaminado gerou outro problema: onde armazenar tudo isso com segurança.
Inicialmente, cogitou-se enviar o lixo radioativo para a Serra do Cachimbo, no Pará, mas a proposta foi rejeitada após forte reação popular. Diante do impasse, decidiu-se que os resíduos permaneceriam em Goiás.
Foi então construído um repositório no Parque Estadual Telma Ortegal, no município de Abadia de Goiás, a cerca de 22 km de Goiânia, na região metropoliana. Ao todo, cerca de 6 mil toneladas de materiais contaminados foram recolhidas.
O repositório foi projetado para resistir ao tempo. A estrutura é composta por módulos de concreto com barreiras múltiplas de proteção, sistemas de drenagem e isolamento ambiental.
A estimativa é que o local mantenha os rejeitos seguros por cerca de 300 anos, período necessário para que os níveis de radioatividade do Césio-137 caiam significativamente.


















