Medicina do sono: como o descanso influencia a segurança de motoristas

Medicina do sono e respeito ao relógio biológico ajudam a reduzir fadiga, microcochilos e riscos em viagens de ônibus

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Foto colorida de motorista de ônibus a noite - Metrópoles.
1 de 1 Foto colorida de motorista de ônibus a noite - Metrópoles. - Foto: Unsplash

Viajar de ônibus continua sendo uma das principais alternativas para deslocamentos entre cidades brasileiras. Em 2024, o transporte rodoviário interestadual registrou 43,6 milhões de passageiros, segundo levantamento citado pela Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati).

O número representa crescimento de 24,9% em relação ao ano anterior, com cerca de 9 milhões de passageiros a mais nas estradas. Por trás de cada viagem, especialmente nas rotas noturnas, existe um fator silencioso que pode influenciar diretamente a segurança: o sono do motorista.

Mais do que cansaço comum, a privação de sono altera o funcionamento do cérebro, reduz reflexos, compromete a tomada de decisão e aumenta o risco de microcochilos ao volante. Em uma atividade que exige vigilância contínua, poucos segundos podem ser suficientes para provocar acidentes graves.

Nos últimos anos, especialistas em medicina do sono passaram a defender uma mudança importante no setor de transporte: adaptar a rotina de trabalho ao relógio biológico dos profissionais.

O corpo não funciona da mesma forma o dia inteiro

O relógio biológico regula funções fundamentais do organismo ao longo das 24 horas, incluindo atenção, vigília, temperatura corporal, produção hormonal e tempo de reação.

Segundo Alberto Ogata, médico conselheiro da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), dirigir por longos períodos em horários incompatíveis com o funcionamento natural do organismo aumenta os riscos nas estradas.

“Durante a madrugada e no início da tarde há quedas fisiológicas naturais de alerta, mesmo em pessoas saudáveis. Quando o motorista permanece muitas horas na estrada nesses períodos, especialmente se já acumulou dívida de sono, aumenta o risco de lapsos de atenção, microssonos, erros de julgamento e redução da capacidade de reagir a imprevistos”, afirma.

O médico explica que cada pessoa possui um cronotipo — perfil biológico que indica se o organismo funciona melhor pela manhã, à noite ou em horários intermediários.

Quando o profissional trabalha em horários incompatíveis com o próprio cronotipo, o cérebro opera em um momento biologicamente programado para descanso. Na prática, isso pode provocar irritabilidade, dificuldade de concentração, lentidão cognitiva e pior percepção de risco.

Sono ruim pode causar efeitos parecidos com álcool

A ciência já demonstrou que a privação de sono pode comprometer a capacidade de dirigir de maneira semelhante ao consumo de bebida alcoólica.

Segundo o médico Sergio Vieira Barros, especialista em medicina do sono, a sonolência ainda é subestimada no Brasil, apesar dos impactos reais na capacidade de reação. “O cérebro pode ‘apagar’ por até cinco segundos. A pessoa muitas vezes nem percebe”, explica.

Segundo ele, um veículo a 80 km/h percorre cerca de 22 metros por segundo. Quando o motorista está cansado, aumenta o risco de tomada de decisão tardia, perda da noção de risco e falhas na coordenação motora.

Além da privação total de sono, noites mal dormidas também acumulam a chamada “dívida de sono”, reduzindo progressivamente a atenção e o controle emocional.

Foto colorida de estradas interestaduais a noite - Metrópoles.
Motoristas que dormem mal podem apresentar lapsos de atenção, microcochilos e redução do tempo de reação, aumentando riscos nas viagens interestaduais

Distúrbios do sono muitas vezes passam despercebidos

Muitos motoristas convivem durante anos com alterações no sono sem diagnóstico. Entre os problemas mais comuns observados em avaliações clínicas estão insônia, dessincronização do ritmo biológico, irritabilidade, transtornos de humor, hipertensão, diabetes e obesidade.

A apneia obstrutiva do sono é uma das condições que mais preocupam especialistas. O distúrbio provoca interrupções respiratórias durante a noite e impede que o descanso seja realmente reparador. Mesmo dormindo várias horas, a pessoa pode acordar cansada, apresentar sonolência diurna e dificuldade de concentração.

Segundo Ogata, motoristas com apneia não tratada possuem maior risco de acidentes, principalmente pela redução da vigilância e da capacidade de reação. Algumas empresas de transporte rodoviário passaram a incorporar estratégias de medicina do sono para reduzir riscos relacionados à fadiga.

Algumas companhias, como o Grupo Guanabara, adotam avaliações de cronotipo, exames de polissonografia e monitoramento de distúrbios do sono em motoristas.

A proposta é adequar escalas ao perfil biológico de cada profissional e identificar precocemente sinais de exaustão, apneia e privação de sono. Além do acompanhamento médico, motoristas passam por avaliações de atenção antes das viagens e realizam pausas programadas ao longo das rotas.

Para Barros, programas preventivos ajudam não apenas a reduzir acidentes, mas também a melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.

“O sono de qualidade é um regulador emocional e físico. Transtornos de sono não tratados são gatilhos silenciosos para ansiedade, depressão e exaustão extrema”, afirma.

Como motoristas podem usar a medicina do sono a favor da saúde

  • Respeitar horários regulares para dormir e acordar, mesmo nos dias de folga.
  • Procurar avaliação médica diante de ronco intenso, cansaço constante ou dificuldade para dormir.
  • Evitar refeições pesadas antes de dirigir durante a madrugada.
  • Fazer pausas programadas em viagens longas.
  • Reduzir exposição a telas e luz intensa antes do horário de descanso.
  • Identificar o próprio cronotipo para entender quais horários favorecem melhor desempenho.
  • Investigar sinais de microcochilos, irritabilidade e lapsos de atenção.
  • Buscar tratamento para apneia, insônia e outros distúrbios do sono.

Os especialistas defendem que a sonolência ao volante precisa ser tratada como tema de saúde pública e segurança viária. Para quem viaja de ônibus, o debate vai além do conforto durante a viagem.

Em um cenário com milhões de passageiros circulando pelas rodovias brasileiras todos os anos, entender como o relógio biológico interfere no desempenho humano pode ajudar a prevenir acidentes e proteger vidas dentro e fora das estradas.

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