Dólar fecha estável com Trump x Irã, Fed e inflação nos EUA. Bolsa cai
Mercados monitoraram escalada na tensão entre EUA e Irã e ataques ao Fed. Inflação norte-americana e serviços no Brasil também são destaques
atualizado
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O dólar encerrou a sessão desta terça-feira (13/1) operando praticamente estável, a R$ 5,37, em um dia marcado pelo aumento das preocupações do mercado em relação à situação política no Irã após as ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao regime teocrático dos aiatolás.
Ainda no cenário internacional, o mercado segue em alerta com a investigação liderada pelo Departamento de Justiça sobre o presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central norte-americano), Jerome Powell – desafeto público de Trump. Há forte preocupação em relação a possíveis ameaças à independência da autoridade monetária.
Nesta terça, os investidores também repercutiram os dados oficiais de inflação na maior economia do mundo em dezembro do ano passado, divulgados pelo Departamento do Trabalho – que mantiveram estabilidade em relação ao mês anterior e vieram em linha com as projeções do mercado.
Dólar
- A moeda norte-americana terminou a sessão em leve alta de 0,06%, cotada a R$ 5,375, perto da estabilidade.
- Na cotação máxima do dia, o dólar bateu R$ 5,394. A mínima foi de R$ 5,364.
- Na véspera, o dólar terminou a sessão com ganhos de 0,12% frente ao real, a R$ 5,372.
- Com o resultado, a moeda dos EUA acumula perdas de 2,07% frente ao real em 2026.
Ibovespa
- O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores do Brasil (B3), encerrou o pregão em baixa.
- Ao final da sesão, o indicador fechou em queda de 0,72%, aos 161,9 mil pontos.
- No dia anterior, o Ibovespa fechou com leve perda de 0,13%, aos 163,1 mil pontos.
- Com o resultado, a Bolsa brasileira acumula valorização de 0,56% no ano.
Trump sobe o tom contra o Irã
Nesta terça-feira, em publicação na Truth Social, Donald Trump incentivou os iranianos a manterem os protestos contra o regime dos aiatolás no país.
Na mesma postagem, o presidente dos EUA afirmou ter cancelado todas as reuniões com representantes do Irã até que, segundo ele, cesse o “assassinato sem sentido” de manifestantes.
“Patriotas iranianos, continuem protestando – ocupem suas instituições. Guardem os nomes dos assassinos e abusadores. Eles pagarão um preço alto. Cancelei todas as reuniões com autoridades iranianas até que o assassinato sem sentido de manifestantes pare. A ajuda está a caminho”, escreveu Trump em publicação.
Os protestos no Irã continuaram nesta terça. Uma autoridade iraniana afirmou que ao menos 2 mil pessoas, incluindo membros das forças de segurança, já foram mortas nas manifestações.
Na véspera, Trump já havia anunciado que qualquer país que negociar com os iranianos pagará uma tarifa de 25% no comércio com os EUA. “Com efeito imediato, qualquer país que faça negócios com a República Islâmica do Irã pagará uma tarifa de 25% sobre todas as transações comerciais realizadas com os EUA”, escreveu o presidente dos EUA em um comunicado divulgado na rede social Truth. “Esta ordem é final e irrecorrível”, acrescentou.
O anúncio do presidente norte-americano surge em meio a ameaças internas e externas contra o governo iraniano. Desde o fim de dezembro, o país enfrenta uma série de protestos contra a atual administração do país, sob o comando do aiatolá Ali Khamenei. Uma das principais reivindicações dos manifestantes diz respeito à crise econômica enfrentada pelo Irã, que há décadas é alvo de sanções internacionais.
Em meio ao caos que tomou diversas cidades iranianas, o governo teocrata enfrenta pressões vindas dos EUA – país que Khamenei acusa de estar por trás dos protestos com o objetivo de desestabilizar o Irã.
Com o aumento da repressão contra manifestantes, Trump ameaçou intervir no país. Em declarações recentes, o presidente dos EUA se mostrou disposto a “ajudar” civis iranianos em busca de “liberdade”.
Com as novas ameaças dos EUA ao Irã, a cotação internacional do petróleo voltou a subir forte e atingiu o maior patamar em dois meses, desde novembro do ano passado.
Por volta das 15h20, o contrato futuro para fevereiro do barril de petróleo do tipo WTI (referência para o mercado norte-americano) avançava 3% e era negociado a US$ 61,10.
No mesmo horário, o contrato futuro para março do petróleo do tipo Brent (referência para o mercado internacional) subia 2,44%, cotado a US$ 65,43.
Mais cedo, às 10 horas, o barril de petróleo Brent com vencimento em março subia 1,7%, chegando a US$ 64,95. O WTI também avançava 1,7%, cotado a US$ 60,35.
Independência do BC dos EUA sob ataque
Os mercados seguem preocupados com as possíveis ameaças à independência do BC dos EUA, alvo de uma investigação instaurada pela Procuradoria do Distrito de Columbia, que apura se o presidente da autoridade monetária, Jerome Powell, mentiu ao Congresso Nacional sobre os custos de uma reforma realizada na sede do Fed. A obra teve custos estimados em cerca de US$ 2,5 bilhões.
Em declaração conjunta divulgada nesta terça-feira, diversos bancos centrais globais ofereceram solidariedade a Powell, incluindo o presidente do Banco Central do Brasil (BC), Gabriel Galípolo.
“Manifestamos nossa total solidariedade ao Sistema da Reserva Federal e ao seu presidente, Jerome H. Powell. A independência dos bancos centrais é um pilar fundamental da estabilidade de preços, financeira e econômica, no interesse dos cidadãos que servimos”, afirmaram os bancos na declaração.
Segundo o comunicado, “é crucial preservar essa independência, com pleno respeito ao Estado de Direito e à responsabilidade democrática”.
“O presidente Powell serviu com integridade, focado em seu mandato e com um compromisso inabalável com o interesse público. Para nós, ele é um colega respeitado e altamente estimado por todos que trabalharam com ele”, pontuou o documento.
Entre os signatários do documento, além de Galípolo, estão Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE); Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra (BoE); Tiff Macklem, presidente do Banco do Canadá; François Villeroy de Galhau, presidente do Conselho de Administração do Banco de Compensações Internacionais (BIS); e Pablo Hernández de Cos, diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS).
Na véspera, Powell já havia recebido a manifestação de apoio de um grupo de ex-presidentes do Fed, ex-secretários do Tesouro dos EUA e economistas renomados, que divulgaram um manifesto contra qualquer topo de interferência no BC norte-americano.
Segundo esse grupo, a investigação criminal contra Powell representa uma ameaça à independência da autoridade monetária e é uma “tentativa inédita de usar ataques de natureza judicial para minar a independência” do Fed.
“É assim que a política monetária é conduzida em países emergentes com instituições fracas, com consequências altamente negativas para a inflação e para o funcionamento da economia como um todo. Isso não tem lugar nos EUA, cuja maior força é o Estado de Direito, base do sucesso econômico do país”, afirmam os signatários do manifesto.
O documento é assinado pelos três últimos presidentes do Fed antes de Powell – Janet Yellen, Ben Bernanke e Alan Greenspan. Também endossam o manifesto ex-secretários do Tesouro como Henry Paulson, Timothy Geithner, Robert Rubin e Jacob Lew e economistas como Kenneth Rogoff e Glenn Hubbard.
Na carta aberta, os signatários afirmam ainda que a sociedade norte-americana tem uma “confiança pública” na autonomia de sua autoridade monetária, que é “essencial” para o cumprimento dos objetivos definidos pelo Congresso – como a estabilidade dos preços e taxas de juros moderadas no longo prazo.
Inflação nos EUA vem dentro do esperado
O principal destaque da agenda econômica internacional, nesta terça-feira, foi a divulgação dos dados oficiais de inflação nos EUA.
O Índice de Preços ao Consumidor nos EUA (CPI, na sigla em inglês), que mede a inflação no país, ficou em 2,7% em dezembro, mesmo resultado do último levantamento.
Na comparação mensal, o índice foi de 0,3%, também estável em relação ao resultado anterior (0,3%).
Os resultados da inflação nos EUA vieram dentro dos prognósticos do mercado. A média das estimativas exatamente era de 2,7% (anual) e 0,3% (mensal).
O resultado da inflação ao consumidor nos EUA ganhou ainda mais importância após a divulgação do relatório de emprego de dezembro (o “payroll”), que mostrou um mercado de trabalho levemente mais fraco do que o esperado no país.
A meta de inflação nos EUA é de 2% ao ano. Embora não esteja nesse patamar, o índice vem se mantendo próximo de 3% desde julho de 2024. O dado de inflação é considerado um dos mais importantes para a definição da taxa básica de juros pelo Fed.
Na última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed, no mês passado, o corte nos juros foi de 0,25 ponto percentual, acompanhando as projeções da maioria dos analistas do mercado. Agora, os juros estão no patamar entre 3,5% e 3,75% ao ano. Foi a terceira redução consecutiva na taxa de juros pelo BC dos EUA.
O próximo encontro da autoridade monetária para definir a taxa de juros, o primeiro de 2026, está marcado para os dias 27 e 28 de janeiro.
A taxa básica de juros é o principal instrumento dos bancos centrais para controlar a inflação. Quando a autoridade monetária mantém os juros elevados, o objetivo é conter a demanda aquecida, o que se reflete nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Assim, taxas mais altas também podem conter a atividade econômica.
Setor de serviços recua no Brasil
Com o foco dos investidores voltado aos EUA, o dado mais relevante da agenda econômica brasileira, nesta terça, foi o resultado do setor de serviços em novembro do ano passado, medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para especialistas consultados pela reportagem do Metrópoles, o desempenho do setor não surpreende e confirma a desaceleração da atividade econômica no país.
Segundo o levantamento, o volume do setor de serviços no país recuou 0,1% em novembro de 2025. O resultado negativo foi puxado pelos serviços de transportes (-1,4%) e informação e comunicação (-0,7%). No acumulado do ano de 2025, houve alta de 2,7%. Em relação a novembro de 2024, o volume de serviços avançou 2,5%.
O setor de serviços é dividido em cinco grupos. Os outros três registraram resultados neutros ou positivos: serviços prestados às famílias (0,0%), serviços profissionais, administrativos e complementares (1,3%) e outros serviços (0,5%).
Em 12 meses, houve alta de 2,7%, mantendo o ritmo de crescimento frente ao acumulado até novembro (2,7%).
André Valério, economista sênior do Banco Inter, avalia que o resultado de novembro “reafirma a tendência de desaceleração na atividade econômica em meio às condições financeiras adversas”. “Ainda assim, a robustez do setor permanece, com o setor de serviços 20% acima do nível pré-pandemia e apenas a 0,1% de distância do recorde da série histórica”, observa.
“Ainda vemos a inflação do setor pressionada, tendo encerrado 2025 com alta de quase 6%, bem distante da meta de 3%. Com isso, apesar dos sinais de desaceleração, a dinâmica ainda deve manter o Banco Central (BC) cauteloso na reunião de janeiro, adiando o corte de juros para a reunião de março”, projeta Valério.
Segundo Claudia Moreno, economista do C6 Bank, mesmo com o leve recuo em novembro, “o setor de serviços continua sólido, tendo contribuído para sustentar o crescimento da economia em 2025”. “Nossa projeção é a de que o segmento tenha terminado o ano com expansão um pouco acima de 2,5%, impulsionado pelas medidas promovidas pelo governo, como o estímulo à concessão de crédito e o aumento de gastos”, afirma.
“Apesar do bom desempenho do setor de serviços ao longo do ano passado, os dados de atividade mostram que a economia brasileira perdeu fôlego em relação a 2024, devendo fechar 2025 com crescimento de 2,2%. Essa desaceleração é reflexo dos juros mais altos, que tendem a limitar o consumo e desestimular investimentos”, destaca a economista.
Moreno diz ainda que, embora a Selic em patamar elevado esteja exercendo um efeito negativo sobre a economia, não se deve esperar uma grande desaceleração da atividade. “Para 2026 e 2027, nossa projeção é a de que o PIB avance 1,7% e 1,5%, uma vez que as medidas de estímulo adotadas pelo governo (como o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda) devem evitar um esfriamento mais intenso”, completa.
Matheus Pizzani, economista do PicPay, observa que, “embora a retração em si não tenha sido necessariamente uma surpresa, especialmente pela participação de grupos cuja oscilação se dá por conta de fatores majoritariamente sazonais, a PMS trouxe também em sua composição sinais mais claros de uma desaceleração potencialmente mais duradoura do ritmo de crescimento do setor”.
“Destaque, neste sentido, para as retrações observadas em componentes com maior sensibilidade ao grau de ociosidade da economia e dos gastos privados, casos dos subgrupos de outros serviços prestados às famílias (-2,6%)”, destaca. “Não apenas houve uma queda na margem de seus respectivos resultados como também a consolidação da trajetória de desaceleração iniciada em outubro, sinalizando um ritmo de consumo de serviços mais equilibrado ao longo do período.”
Segundo Pizzani, “as divulgações subsequentes da PMS entre dezembro e fevereiro podem contar com participação mais efetiva de fatores sazonais e do nível de confiança dos agentes econômicos, que têm apresentado melhora na margem, impulsionando novamente o resultado do setor”.
“Mantida a perspectiva para os componentes estruturais, no entanto, a tendência é de consolidação da perda de dinamismo já observada em novembro, com o setor sendo o principal responsável pela acomodação do ritmo de crescimento ao longo do primeiro semestre deste ano e, consequentemente, maior equilíbrio do hiato do produto”, afirma.
Análise
Segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, “a inflação nos EUA veio em linha com as projeções, com núcleo ligeiramente abaixo do esperado, e ajudou a limitar movimentos mais bruscos no mercado de moedas, mas não foi suficiente para encaminhar uma queda mais acentuada do dólar”.
“O DXY (indicador que mede o valor do dólar dos EUA em relação a uma cesta de moedas de outros países) avança na sessão de hoje, exercendo pressão adicional sobre o real, em um ambiente marcado por sinais pontuais de aversão ao risco. O viés defensivo ganhou força diante do endurecimento da retórica dos EUA em relação ao Irã, o que levou a cotação do petróleo próxima a US$ 65, resultando em um sentimento mais defensivo na sessão para os ativos locais”, concluiu.
