Estados Unidos criam 50 mil vagas em dezembro, abaixo do esperado
O resultado veio abaixo das projeções do mercado, que indicavam a criação de 66 mil vagas. Desemprego ficou em 4,4% nos Estados Unidos
atualizado
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A economia dos Estados Unidos registrou a criação de 50 mil novas vagas de emprego fora do setor agrícola em dezembro, de acordo com dados divulgados nesta sexta-feira (9/1) pelo Departamento do Trabalho do governo norte-americano.
Trata-se do chamado “payroll”, um indicador econômico mensal dos EUA que mostra a evolução do emprego no país fora do setor agrícola.
O relatório, divulgado pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), é considerado determinante para as avaliações sobre o desempenho da economia norte-americana.
Esta foi a terceira divulgação do relatório desde o fim do shutdown – a paralisação de diversos setores da máquina governamental, no ano passado, que durou mais de 40 dias e foi a maior da história do país.
O que aconteceu
- Os EUA registraram a criação de 50 mil vagas de emprego fora do setor agrícola em dezembro.
- O resultado veio abaixo das projeções do mercado, que indicavam a criação de 66 mil vagas.
- A taxa de desemprego foi de 4,4%.
- No último relatório, o “payroll” mostrou a abertura de 56 mil vagas no país (dado revisado) e uma taxa de desemprego de 4,5%.
Por que o dado é importante
A força do mercado de trabalho nos EUA é um dos componentes considerados pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) para definir a taxa de juros e esfriar a demanda na economia a fim de combater a inflação.
Analistas temem que uma possível aceleração do mercado de trabalho nos EUA leve a um novo aperto da política monetária pelo Fed. Nesse sentido, dados mais fracos do “payroll” podem ser até considerados positivos, por sinalizarem maior espaço para a queda dos juros – embora também exista a preocupação em relação a uma retração excessiva da maior economia do mundo.
Atualmente, a taxa de juros nos EUA está no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano, depois de três cortes seguidos de 0,25 ponto percentual. A próxima reunião do Fed para definir a taxa de juros, a primeira do ano, está marcada para os dias 27 e 28 de janeiro.
A taxa de juros é o principal instrumento dos bancos centrais para controlar a inflação. A meta de inflação nos EUA é de 2% ao ano.
Análise
André Valério, economista sênior do Banco Inter, observa que, “setorialmente, metade dos setores adicionaram vagas, com destaque para educação e saúde, que adicionaram 41 mil empregos, e hospitalidade, que adicionou 47 mil empregos”.
“Na ponta contrária, destacamos a queda de 33 mil empregos em comércio, transporte e utilitários e de 11 mil em construção. Além disso, houve queda de 8 mil em manufatura, todos esses setores sensíveis às condições do ciclo econômico. O governo adicionou apenas 3 mil empregos, longe da queda de 174 mil observada em outubro. Finalmente, a variação salarial acelerou, de 0,2% para 0,3%, fazendo com que a variação anualizada saltasse de 3,6% para 3,8%, indicando recuperação dos salários na ponta”, destaca.
“A leitura de hoje é a primeira normalizada após o episódio do shutdown do governo norte-americano. Ainda assim, é uma leitura com muitos ruídos. Houve mudanças nos ajustes sazonais, além de revisões nas quantidades anuais, o que afetam a análise. Portanto, temos um relatório conflitante, com a criação de vagas sugerindo a continuidade da moderação do mercado de trabalho, enquanto a taxa de desemprego sugere uma retomada do mercado de trabalho”, avalia Valério.
Segundo o economista, para o Fed, “talvez o caminho de menor resistência seja pular a reunião de janeiro à espera de novos dados que possam dar maior segurança para os próximos passos”. “Ainda assim, a próxima leitura de inflação poderá alterar esse cenário. Mas, dada a predileção do Fed pelo mandato de emprego e as afirmações recentes de membros do comitê de que a taxa de juros está muito próxima da neutra, esperamos que o banco não corte os juros na reunião de janeiro.”
Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora, afirma que o payroll veio bem diferente do que se esperava. “A mediana do mercado era uma projeção de 66 mil novos empregos e, na verdade, foram 50 mil. Isso vai fazer com que haja uma pressão por corte de juros no Fed e com que os investidores tomem risco”, avalia.
“Nós acreditamos que, a partir de agora, o mercado pode começar a subir, o índice já começou a melhorar e o dólar deve voltar caindo, com os investidores buscando tomar risco diante dessa possibilidade maior de que o Fed corte juros nas próximas reuniões”, conclui.
Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, diz que o relatório de emprego de dezembro “reforçou a percepção de desaceleração gradual da atividade”. “A queda da taxa de desemprego para 4,4%, por sua vez, ajudou a mitigar uma leitura de deterioração mais acentuada do mercado de trabalho”, afirma.
Segundo Shahini, “a reação dos mercados foi contida”. “Os rendimentos dos ‘treasuries’ permaneceram praticamente estáveis, com o título de 2 anos em torno de 3,50%. O dólar opera em leve queda, refletindo a avaliação de que os dados não alteram o cenário de política monetária, que segue precificando dois cortes de juros pelo Federal Reserve ao longo do ano.”
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, afirma que “a divulgação de indicadores vem sendo gradualmente normalizada” após o shutdown, “mas os números apurados neste e nos próximos relatórios ainda podem carregar algumas distorções”.
“Os dados dos últimos meses indicam que o mercado de trabalho norte-americano mantém um ritmo moderado, enquanto a inflação segue pressionada. Depois dos três cortes anunciados desde setembro, os juros agora estão próximos das estimativas para o nível neutro, o que deixa o Fed em uma posição mais confortável para esperar, analisar os dados e só então decidir os próximos passos. Nesse contexto, um novo corte de juros no final de janeiro nos parece pouco provável.”
