Dólar e Bolsa ficam no zero a zero com temor sobre Fed e Banco Master
Mercado teme possível ameaça à independência do BC dos EUA. No Brasil, o foco foi a reunião entre Galípolo e TCU sobre liquidação do Master
atualizado
Compartilhar notícia

O dólar começou a semana fechando próximo da estabilidade, nesta segunda-feira (12/1), com o mercado financeiro em estado de alerta após a notícia da investigação instaurada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o Federal Reserve (Fed, o Banco Central norte-americano).
No cenário doméstico, as atenções se voltaram para a reunião entre os presidentes do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, e do Tribunal de Contas da União (TCU), Vital do Rêgo Filho, na sede da autoridade monetária, em Brasília. Eles trataram da situação do Banco Master, que foi liquidado pelo BC em novembro do ano passado.
Os investidores também repercutiram, na primeira sessão da semana, a mais nova edição do Relatório Focus, do BC, que reúne as principais projeções do mercado para indicadores econômicos como o Produto Interno Bruto (PIB) e a inflação, além do câmbio e da taxa básica de juros (Selic) para 2026 e os próximos anos.
Dólar
- Nesta segunda-feira, a moeda norte-americana terminou a sessão em leve alta de 0,12% frente ao real, cotada a R$ 5,372, praticamente estável.
- Na cotação máxima do dia, o dólar bateu R$ 5,385. A mínima foi de R$ 5,351.
- Na sessão da última sexta-feira (9/1), o dólar fechou em baixa de 0,44% frente ao real, cotado a R$ 5,365.
- Com o resultado, a moeda dos EUA acumula perdas de 2,13% frente ao real em 2026.
Ibovespa
- O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores do Brasil (B3), também encerrou o pregão perto da estabilidade.
- Ao final da sessão, o indicador recuou 0,13%, aos 163,1 mil pontos.
- No último pregão da semana passada, o Ibovespa fechou com ganhos de 0,27%, aos 163,3 mil pontos.
- Com o resultado, a Bolsa brasileira acumula valorização de 1,28% no ano.
Independência do Fed em xeque
O dia foi de preocupação no mercado com a notícia de que o Departamento de Justiça dos EUA abriu uma investigação criminal sobre a reforma US$ 2,5 bilhões na sede do Fed, em Washington. O presidente do BC dos EUA, Jerome Powell, desafeto do presidente norte-americano Donald Trump, também é alvo da apuração.
Em um comunicado divulgado pelo Fed, Powell afirma que a investigação, relacionada ao seu depoimento ao Comitê Bancário do Senado sobre a reforma dos prédios administrativos do Fed – prestado em junho de 2025 –, é uma retaliação direta do governo Trump.
“A ameaça de acusações criminais é uma consequência do Federal Reserve definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que será melhor para o público, em vez de seguir as preferências do presidente”, disse o presidente do Fed.
“A questão aqui é se o Fed poderá continuar a definir as taxas de juros com base em evidências e nas condições econômicas – ou se, ao contrário, a política monetária será dirigida por pressão política ou intimidação”, continuou Powell.
Ao longo do último ano, Trump e aliados intensificaram as críticas a Powell por não promover cortes nos juros no ritmo defendido pelo republicano.
Apesar disso, o Fed reduziu as taxas em três reuniões consecutivas no segundo semestre do ano passado, mas dirigentes da autoridade monetária indicaram recentemente que novos cortes não estão garantidos nos próximos meses.
“O serviço público às vezes exige manter-se firme diante de ameaças. Continuarei a exercer o trabalho para o qual o Senado me confirmou, com integridade e compromisso de servir ao povo americano”, concluiu Powell.
Na última reunião do Fed, em dezembro, o corte nos juros foi de 0,25 ponto percentual, acompanhando as projeções da maioria dos analistas do mercado. Agora, os juros estão no patamar entre 3,5% e 3,75% ao ano.
A votação não foi unânime. Stephen Miran, novo integrante do Fed, indicado por Donald Trump, votou por um corte maior, de 0,5 ponto percentual, enquanto Jeffrey R. Schmid e Austan D. Goolsbee votaram pela manutenção da taxa de juros.
O próximo encontro da autoridade monetária para definir a taxa de juros, o primeiro de 2026, está marcado para os dias 27 e 28 de janeiro.
Diante de tamanha preocupação sobre possíveis risos à independência do Fed, os investidores buscaram segurança em ativos considerados mais protegidos, como o ouro e a prata, que voltaram a bater recordes históricos nesta segunda-feira.
Liquidação do Banco Master em pauta
No Brasil, o principal foco de atenção do mercado neste início de semana foi a reunião entre os presidentes do BC, Gabriel Galípolo, e do TCU, Vital do Rêgo Filho, sobre a liquidação do Banco Master.
O encontro ocorreu após o ministro do TCU Jhonatan de Jesus suspender a inspeção no BC determinada por ele mesmo, na semana passada, no contexto da apuração sobre a liquidação do Master.
Também participaram da reunião desta segunda a secretária-geral de Controle Externo do TCU, Juliana Pontes; o secretário-geral de Comunicação, Flávio Takashi Sato; e a auditora-chefe adjunta da Secretaria-Geral de Controle Externo, Maria Bethânia Lahoz.
Após a repercussão do caso, o processo será submetido à análise do plenário do TCU. Vital do Rêgo adiantou o retorno ao trabalho em meio ao recesso para apaziguar os ânimos entre os órgãos.
O presidente do TCU disse, na semana passada, que a liquidação do Master “é fato consumado” e que é prerrogativa do BC fazer tal determinação. Vital do Rêgo também defendeu que é atribuição do TCU fiscalizar as ações do órgão.
Após a reunião com Galípolo, o presidente do TCU disse que o BC concordou com a inspeção da corte e dará acesso aos documentos sobre a liquidação do Banco Master.
“Hoje saio do BC profundamente feliz com o resultado da reunião. O presidente Galípolo nos recebeu muito bem. Fizemos reunião com objetivos claros de dizimar qualquer tipo de dúvida sobre a nossa competência”, declarou o presidente do TCU. “O Banco Central quer o selo de qualidade do TCU e a segurança jurídica que o TCU pode dar, porque esse processo é administrativo e criminal”, completou.
Segundo Vital do Rêgo, ficou decidido na reunião que a inspeção será realizada. “Ela já está acontecendo, pela reunião que fizemos hoje. Na reunião decidimos que o TCU terá acesso aos documentos, que estão à disposição já a partir de hoje”, informou o presidente do TCU.
Para Vital do Rêgo, o encontro afasta a possibilidade de determinação de uma medida cautelar contra o BC. “O Banco Central entendeu que o TCU é um colaborador”, afirmou.
O ministro disse que “o ato de liquidação é administrativo e regulatório”. “É um modelo técnico que o TCU está acostumado a fazer”, completou. Segundo o presidente da Corte de Contas, o BC manifestou que quer dar segurança jurídica à liquidação do Master.
“Vamos fazer um calendário muito rapidamente entre as nossas unidades. O compromisso da Corte é terminar esse processo o mais breve possível”, disse Vital do Rêgo. A previsão do presidente do TCU é a de que a inspeção dure menos de um mês.
Mercado reduz estimativa de inflação
Ainda no âmbito doméstico, os analistas do mercado financeiro consultados pelo BC reduziram a estimativa de inflação para 4,05% em 2026. Em relação ao PIB, houve manutenção. É o que mostra a nova edição do Relatório Focus, divulgada nesta segunda-feira.
De acordo com o relatório, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país, deve terminar este ano em 4,05%, ante 4,06% da semana anterior. Em relação ao PIB de 2026, a projeção foi mantida em 1,8%.
Segundo o Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação para este ano é de 3%. Como há intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, a meta será cumprida se ficar entre 1,5% e 4,5%.
Os preços de bens e serviços do país avançaram 0,33% em novembro. No ano de 2025, a inflação acumulou alta de 4,26%, o que representa o estouro do centro da meta em 2025, mas valor abaixo do teto. Para 2027, o índice esperado foi mantido em 3,8%.
Segundo o Focus, o PIB do Brasil para 2026 deve ter crescimento de 1,80%, a mesma projeção da semana passada. Para 2027, a previsão de crescimento da economia foi mantida em 1,80%. Para 2028, a estimativa foi mantida em 2%.
Em relação à taxa básica de juros da economia, a Selic, o mercado financeiro manteve a estimativa para o fim de 2026 em 12,25% ao ano. Para 2027, a projeção foi mantida em 10,50% ao ano. Para 2028, o mercado aumentou a estimativa para a Selic de 9,75% para 9,88% ao ano.
Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a Selic foi mantida em 15%. A próxima reunião do colegiado está marcada para 27 e 28 de janeiro.
Os analistas consultados pelo BC também mantiveram a projeção para o dólar em 2026 em R$ 5,50. Para 2027, a estimativa se manteve em R$ 5,50. Para 2028, o mercado manteve em R$ 5,50.
Estados Unidos e Irã
No cenário internacional, os investidores seguiram monitorando a escalada nas tensões entre os governos dos EUA e do Irã. Nesse domingo (11/1), o presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que líderes do Irã ligaram para “negociar” com ele, em meio à onda de protestos que assola Teerã e às suas ameaças de intervir no país.
“Os líderes do Irã ligaram ontem. Eles querem negociar… uma reunião está sendo marcada”, explicou o presidente norte-americano.
O Irã passa pela maior onda de protestos registrada no país em quase uma década. Das 538 vítimas, 490 são manifestantes e 48, policiais. O número de presos ultrapassa 10 mil, segundo balanço divulgado pela ONG Human Rights Activists News Agency (HRANA).
Segundo Trump, os líderes ligaram no último sábado (10/1), mas ele revelou a informação no domingo, quando também afirmou estar analisando “opções muito fortes” em relação ao Irã.
As manifestações dos cidadãos iranianos acontecem desde o dia 28 de dezembro e tomam as ruas contra a crise econômica que afeta o país. As agitações contra o governo teocrático do líder supremo aiatolá Ali Khamenei já estão no 15º dia e também foram registradas em outros países, por meio da diáspora iraniana.
O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, declarou, nesta segunda-feira, que o Irã está pronto para a guerra, apesar de não buscá-la, e que está aberto ao diálogo. A declaração foi feita em meio às ameaças de Trump. Segundo Araghchi, o Irã não busca a guerra, “mas está totalmente preparado para ela”, conforme divulgado pela imprensa internacional.
Análise
Segundo Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad, “o cenário doméstico não traz nada específico para justificar a desvalorização do real em relação ao dólar, ao que parece ser apenas uma pontual saída de capital”. “O Brasil ainda negocia em um ambiente de liquidez reduzida, operando no patamar entre R$5,35 e R$5,40, com baixa amplitude de preço e poucos catalisadores domésticos”, afirma.
Para Lobo, a investigação sobre o Federal Reserve “pode ser vista como uma ameaça significativa, principalmente quando olhamos para o contexto de desacordo sobre a política monetária em que as investigações surgem”.
“A situação não gera apenas uma maior incerteza em relação à credibilidade institucional com a tentativa de minar a autonomia do Fed. O reflexo desencadeia também um maior questionamento sobre a trajetória de juros. À medida que esse risco se torna mais presente, os ativos americanos podem se tornar menos atrativos para os investidores, reforçando a tendência de diversificação global, direcionando o capital para outras geografias”, observa.
“No caso do Brasil, o efeito pode resultar em entrada de capital buscando oportunidades alternativas ao mercado americano, assim como outros emergentes, mas não necessariamente como um porto seguro. Contudo, se as taxas americanas de longo prazo subirem muito devido à incerteza política, isso pode acabar drenando liquidez de mercados como o Brasil e direcionando para outras alternativas mais seguras”, conclui Lobo.
