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Dólar cai a R$ 5,36 e Bolsa sobe com Mercosul-UE, “payroll” e inflação

Em dia movimentado no cenário econômico, mercado não se surpreendeu com inflação no Brasil e repercutiu dados de emprego mais fracos nos EUA

atualizado

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1 de 1 Imagem de notas de dólar dos EUA - Metrópoles - Foto: Witthaya Prasongsin/Getty Images

O dólar terminou a última sessão da semana, nesta sexta-feira (9/1), em queda firme, em um dia movimentado para o mercado financeiro, que repercutiu a aprovação do acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) e os dados de inflação no Brasil e de emprego nos Estados Unidos.

No mercado de ações, o destaque positivo ficou por conta da Azul, cujas ações se recuperaram após o tombo dos últimos pregões e subiram forte. Os papéis do Grupo Pão de Açúcar, por sua vez, recuaram com a notícia de que o diretor financeiro da companhia renunciou o cargo.


Dólar

  • Nesta sexta-feira, a moeda norte-americana fechou em baixa de 0,44% frente ao real, cotado a R$ 5,365.
  • Na cotação máxima do dia, o dólar bateu R$ 5,398. A mínima é de R$ 5,353.
  • No acumulado desta semana, a moeda dos EUA recuou 1,08%.
  • Na véspera, o dólar fechou em leve alta de 0,06%, negociado a R$ 5,389, próximo da estabilidade.
  • Com o resultado, a moeda dos EUA acumula perdas de 2,25% frente ao real em 2026.

Ibovespa

  • O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores do Brasil (B3), fechou o pregão em alta.
  • Ao final da sessão, o indicador avançou 0,27%, aos 163,3 mil pontos.
  • Na pontuação máxima do pregão, o Ibovespa cravou 164.263,23 pontos.
  • No dia anterior, o Ibovespa fechou com ganhos de 0,59%, aos 162,9 mil pontos.
  • Com o resultado, a Bolsa brasileira acumula valorização de 1,41% no ano.

Inflação sem surpresas no Brasil

No cenário doméstico, o principal destaque do dia foi a divulgação dos dados oficiais de inflação pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes ao mês de dezembro e ao consolidado do ano de 2025.

Os preços de bens e serviços do país ficaram mais caros em 0,33% em dezembro, após acelerarem 0,18% em novembro, avanço de 0,15 ponto percentual, segundo os dados divulgados pelo IBGE.

Nos últimos 12 meses até dezembro, a inflação acumulou alta de 4,26%, ainda acima do centro da meta (3%), mas, pela primeira vez no terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abaixo do teto, que é de 4,5%.

No ano de 2025, o índice acumulou alta de 4,26%. No mesmo mês de 2024, a variação foi de 0,52%. O avanço de dezembro foi influenciado principalmente pela elevação nos preços do grupo transportes, que acelerou 0,74%.

Esse resultado é o menor para um mês de dezembro desde 2018, quando foi registrado 0,15%.

Segundo o Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação no Brasil para o ano passado era de 3%. Como há um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, ela seria cumprida se ficasse entre 1,5% e 4,5%. Ou seja, a inflação brasileira ficou abaixo do teto da meta.

De acordo com economistas e analistas do mercado consultados pela reportagem do Metrópoles, a inflação não trouxe grandes surpresas e também não deve alterar a rota da política monetária delineada para este início de 2026. Para Heliezer Jacob, economista do C6 Bank, apesar do alívio com a inflação abaixo do teto da meta em 2025, o cenário ainda é “desafiador”. “Os preços de serviços subiram 6% em 2025, sustentados pelo mercado de trabalho bastante aquecido. A tendência é que o controle da inflação continue sendo uma tarefa difícil nos próximos meses, uma vez que o desemprego deve permanecer em níveis historicamente baixos até 2027”, afirma.

“Essa melhora da inflação foi puxada pela queda dos preços das commodities em reais, que contribuiu para aliviar a pressão sobre os alimentos e bens industriais. Para 2026 e 2027, porém, nossa projeção é de um IPCA a 4,8%, impulsionado pelo mercado de trabalho robusto e pela perspectiva de um real mais depreciado, em meio às preocupações com o aumento da dívida pública no Brasil”, explica Heliezer.

De acordo com o economista, os dados do IPCA não mudam a expectativa ”de que a Selic seja mantida em 15% na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), no final de janeiro”. “Acreditamos que o ciclo de cortes deve começar em março, com os juros chegando a 13% no fim de 2026”, projeta.

Segundo André Valério, economista sênior do Banco Inter, “o resultado não foi positivo no aspecto qualitativo”. “A média dos núcleos saltou de 0,23% para 0,46%, levando a média móvel de três meses a 0,31%. Embora em parte a elevação seja sazonal, observamos que é o maior valor mensal desde abril de 2025. Com isso, o núcleo encerrou 2025 com alta acumulada de 4,61%, ainda acima do limite superior da meta”, observa.

“As medidas de inflação de serviços também apresentaram piora. A inflação de serviços saltou de 0,6% para 0,72%, muito influenciada pela alta de quase 13% nas passagens aéreas. Entretanto, mesmo excluindo esse item, vemos a aceleração na inflação de serviços de 0,41% para 0,49%”, prossegue Valério.

O economista aponta, ainda, que a inflação de serviços subjacentes e intensivos em trabalho, mais associada à demanda, também acelerou para 0,56% e 0,76%, respectivamente. “Com isso, a inflação de serviços encerrou 2025 com alta acumulada de 5,99%, muito acima do limite superior da meta de inflação. Além disso, dois componentes que contribuíram fortemente para a desinflação no ano apresentaram forte alta em dezembro. A inflação de bens livres saltou de 0,16% para 0,52%, enquanto a inflação de bens industriais saltou de uma deflação de 0,29% para uma alta de 0,48%”, diz.

“Apesar da boa notícia da desinflação observada em 2025, com a inflação ficando dentro do teto da meta com um trimestre de antecedência ao previsto pelo próprio Banco Central, o dado de dezembro deixa um gosto amargo, indicando uma piora no aspecto qualitativo.”

Matheus Pizzani, economista do PicPay, avalia que, em termos de composição, “o indicador não trouxe grandes surpresas frente ao padrão sazonal histórico do período”, tendo como destaque a reversão sofrida pelo grupo de alimentação no domicílio (de -0,01% para 0,27%), “que teve seu resultado impulsionado por preços que apresentam maior demanda no período, casos de carnes (+1,48%) e frutas (+1,26%)”.

“Seguimos com uma projeção de 4,2% para o IPCA em 2026. Após um período de comportamento mais ameno na segunda metade de 2025, o IPCA deve voltar acelerar no primeiro trimestre do ano em função de fatores sazonais relacionados ao consumo de serviços e o impacto dos reajustes de diversos preços administrados, com destaque para a majoração do ICMS sobre combustíveis e o botijão de gás e reajustes das tarifas de transporte público, já aplicadas em capitais com participação relativa elevada no indicador, como São Paulo”, pontua Pizzani.

“Passado este período, a expectativa é que o IPCA volte a apresentar comportamento mais ameno, tendência alinhada ao cenário de arrefecimento da atividade, afrouxamento do mercado de trabalho e fechamento do hiato do produto”, complementa.

“Payroll” mais fraco nos EUA

Ainda nesta sexta-feira, o grande foco do mercado financeiro, no Brasil e no mundo, foi o dado oficial de inflação nos EUA – o chamado “payroll”. A economia dos EUA registrou a criação de 50 mil novas vagas de emprego fora do setor agrícola em dezembro, de acordo com dados divulgados pelo Departamento do Trabalho do governo norte-americano.

O relatório, divulgado pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), é considerado determinante para as avaliações sobre o desempenho da economia norte-americana.

Esta foi a terceira divulgação do relatório desde o fim do shutdown – a paralisação de diversos setores da máquina governamental, no ano passado, que durou mais de 40 dias e foi a maior da história do país.

O resultado veio abaixo das projeções do mercado, que indicavam a criação de 66 mil vagas. A taxa de desemprego foi de 4,4%. No último relatório, o “payroll” mostrou a abertura de 56 mil vagas no país (dado revisado) e uma taxa de desemprego de 4,5%.

A força do mercado de trabalho nos EUA é um dos componentes considerados pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central norte-americano) para definir a taxa de juros e esfriar a demanda na economia a fim de combater a inflação.

Analistas temem que uma possível aceleração do mercado de trabalho nos EUA leve a um novo aperto da política monetária pelo Fed. Nesse sentido, dados mais fracos do “payroll” podem ser até considerados positivos, por sinalizarem maior espaço para a queda dos juros – embora também exista a preocupação em relação a uma retração excessiva da maior economia do mundo.

Na última reunião do Fed, em dezembro, o corte nos juros foi de 0,25 ponto percentual, acompanhando as projeções da maioria dos analistas do mercado. Agora, os juros estão no patamar entre 3,5% e 3,75% ao ano.

Foi a terceira redução consecutiva na taxa de juros pelo BC dos EUA. Na reunião anterior do Fed, em setembro, o corte também havia sido de 0,25 ponto percentual. O próximo encontro da autoridade monetária para definir a taxa de juros, o primeiro de 2026, está marcado para os dias 27 e 28 de janeiro.

Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora, afirma que o “payroll” veio bem diferente do que se esperava. “A mediana do mercado era uma projeção de 66 mil novos empregos e, na verdade, foram 50 mil. Isso vai fazer com que haja uma pressão por corte de juros no Fed e com que os investidores tomem risco”, avalia.

“Nós acreditamos que, a partir de agora, o mercado pode começar a subir, o índice já começou a melhorar e o dólar deve voltar caindo, com os investidores buscando tomar risco diante dessa possibilidade maior de que o Fed corte juros nas próximas reuniões”, conclui.

Claudia Moreno, economista do C6 Bank, afirma que “a divulgação de indicadores vem sendo gradualmente normalizada” após o shutdown, “mas os números apurados neste e nos próximos relatórios ainda podem carregar algumas distorções”.

“Os dados dos últimos meses indicam que o mercado de trabalho norte-americano mantém um ritmo moderado, enquanto a inflação segue pressionada. Depois dos três cortes anunciados desde setembro, os juros agora estão próximos das estimativas para o nível neutro, o que deixa o Fed em uma posição mais confortável para esperar, analisar os dados e só então decidir os próximos passos. Nesse contexto, um novo corte de juros no final de janeiro nos parece pouco provável.”

Europa aprova acordo comercial com Mercosul

A maioria dos países da UE aprovou, provisoriamente, acordo comercial com o Mercosul. Em contrapartida, a negociação entre a UE e quatro países latino-americanos é alvo de protestos de agricultores franceses e provoca rejeição unânime por parte da França.

Após 25 anos de tratativas, a maioria dos embaixadores dos 27 Estados-membros da UE aprovou grande parte do acordo. França, Irlanda, Polônia, Áustria e Hungria se opuseram ao texto, enquanto a Bélgica se absteve. Mais tarde, o Conselho Europeu ratificou o acordo.

Após a aprovação, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá assinar o acordo com os parceiros do Mercosul – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – na próxima semana. Para que o acordo entre em vigor, também será necessária a aprovação do Parlamento Europeu.

O acordo é considerado estratégico por ampliar a integração comercial entre duas grandes regiões econômicas e tem sido descrito como uma prioridade para reforçar o comércio global, a competitividade econômica e a estabilidade geoeconômica.

Ele prevê a redução de tarifas e barreiras comerciais em uma das maiores áreas de comércio do mundo, o que pode impulsionar exportações e investimentos entre os dois blocos. Para países do Mercosul, isso representa acesso ampliado ao mercado europeu. Já para a UE, uma diversificação das relações comerciais.

Apesar da expectativa de assinatura, o processo ainda enfrenta etapas importantes de implementação e salvaguardas que precisam ser finalizadas antes da oficialização.

O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou, na quinta-feira (8/1), que decidiu votar contra o acordo. O governo francês é um dos principais opositores ao acordo.

Os agricultores franceses continuam sendo o principal foco de resistência. Eles argumentam que o tratado abriria espaço para concorrência desleal com produtos sul-americanos, produzidos sob regras ambientais e sanitárias diferentes das exigidas na UE.

Análise

Segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, “o dólar reagiu inicialmente à divulgação do payroll de dezembro, que mostrou criação de vagas abaixo da expectativa do mercado, reforçando a leitura de desaceleração gradual do mercado de trabalho nos EUA”.

“No cenário doméstico, o IPCA de dezembro veio em linha com o consenso, mantendo inalteradas as expectativas para a política monetária e preservando o diferencial de juros favorável ao Brasil. Esse conjunto de fatores abriu espaço para um dólar mais fraco ao longo do dia, embora sem muita convicção estrutural”, explica.

Para Shahini, “o dólar vem operando em intervalo estreitos e num movimento de consolidação técnica, visto a ausência de dados econômicos, tanto no Brasil quanto no exterior, que sustentem uma tendência mais clara neste começo de ano”.

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