Mercado não vê surpresa em inflação e projeta corte de juros em março
IPCA de dezembro ficou em 0,33% e, no acumulado do ano, em 4,26% – acima do centro da meta, mas abaixo do teto, sem surpresas para o mercado
atualizado
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Acima do centro da meta de 3%, mas abaixo do teto, de 4,5% – e sem surpresas. A inflação oficial do país em 2025, divulgada nesta sexta-feira (9/1), de 4,26% no acumulado do ano passado, não trouxe grandes surpresas e também não deve alterar a rota da política monetária delineada para este início de 2026.
A avaliação é de economistas e analistas do mercado financeiro consultados pela reportagem do Metrópoles nesta manhã, pouco depois da da divulgação dos resultados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Como se comportou a inflação
Os preços de bens e serviços do país ficaram mais caros em 0,33% em dezembro, após acelerarem 0,18% em novembro, avanço de 0,15 ponto percentual, segundo os dados divulgados pelo IBGE.
Nos últimos 12 meses até dezembro, a inflação acumulou alta de 4,26%, ainda acima do centro da meta (3%), mas, pela primeira vez no terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abaixo do teto, que é de 4,5%.
No ano de 2025, portanto, o índice acumulou alta de 4,26%. No mesmo mês de 2024, a variação foi de 0,52%. O avanço de dezembro foi influenciado principalmente pela elevação nos preços do grupo de transportes, que acelerou 0,74%. Esse resultado é o menor para um mês de dezembro desde 2018, quando foi registrado 0,15%.
Altas no mês, além de transportes, também foram registradas nos grupos de artigos para residência (0,64%) e saúde e cuidados pessoais (0,52), por exemplo. Em dezembro, o único grupo com resultado negativo foi o de habitação, com variação de 0,33%.
Segundo o Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação no Brasil para o ano passado era de 3%. Como há um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, ela seria cumprida se ficasse entre 1,5% e 4,5%. Ou seja, a inflação brasileira ficou abaixo do teto da meta.
O que diz o mercado
Segundo Heliezer Jacob, economista do C6 Bank, apesar do alívio com a inflação abaixo do teto da meta em 2025, o cenário ainda é “desafiador”. “Os preços de serviços subiram 6% em 2025, sustentados pelo mercado de trabalho bastante aquecido. A tendência é que o controle da inflação continue sendo uma tarefa difícil nos próximos meses, uma vez que o desemprego deve permanecer em níveis historicamente baixos até 2027”, afirma.
“Essa melhora da inflação foi puxada pela queda dos preços das commodities em reais, que contribuiu para aliviar a pressão sobre os alimentos e bens industriais. Para 2026 e 2027, porém, nossa projeção é de um IPCA a 4,8%, impulsionado pelo mercado de trabalho robusto e pela perspectiva de um real mais depreciado, em meio às preocupações com o aumento da dívida pública no Brasil”, explica Heliezer.
De acordo com o economista, os dados do IPCA não mudam a expectativa ”de que a Selic seja mantida em 15% na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), no final de janeiro”. “Acreditamos que o ciclo de cortes deve começar em março, com os juros chegando a 13% no fim de 2026”, projeta.
Para André Valério, economista sênior do Banco Inter, “o resultado não foi positivo no aspecto qualitativo”. “A média dos núcleos saltou de 0,23% para 0,46%, levando a média móvel de três meses a 0,31%. Embora em parte a elevação seja sazonal, observamos que é o maior valor mensal desde abril de 2025. Com isso, o núcleo encerrou 2025 com alta acumulada de 4,61%, ainda acima do limite superior da meta”, observa.
“As medidas de inflação de serviços também apresentaram piora. A inflação de serviços saltou de 0,6% para 0,72%, muito influenciada pela alta de quase 13% nas passagens aéreas. Entretanto, mesmo excluindo esse item, vemos a aceleração na inflação de serviços de 0,41% para 0,49%”, prossegue Valério.
O economista aponta, ainda, que a inflação de serviços subjacentes e intensivos em trabalho, mais associada à demanda, também acelerou para 0,56% e 0,76%, respectivamente. “Com isso, a inflação de serviços encerrou 2025 com alta acumulada de 5,99%, muito acima do limite superior da meta de inflação. Além disso, dois componentes que contribuíram fortemente para a desinflação no ano apresentaram forte alta em dezembro. A inflação de bens livres saltou de 0,16% para 0,52%, enquanto a inflação de bens industriais saltou de uma deflação de 0,29% para uma alta de 0,48%”, diz.
“Finalmente, o índice de difusão, que mede o tamanho do processo inflacionário, também apresentou piora, saltando de 55% para 60%, indicando maior força inflacionária em dezembro, mas ainda em patamares considerados saudáveis dado o histórico da economia brasileira”, aponta Valério.
“Apesar da boa notícia da desinflação observada em 2025, com a inflação ficando dentro do teto da meta com um trimestre de antecedência ao previsto pelo próprio Banco Central, o dado de dezembro deixa um gosto amargo, indicando uma piora no aspecto qualitativo.”
Matheus Pizzani, economista do PicPay, avalia que, em termos de composição, “o indicador não trouxe grandes surpresas frente ao padrão sazonal histórico do período”, tendo como destaque a reversão sofrida pelo grupo de alimentação no domicílio (de -0,01% para 0,27%), “que teve seu resultado impulsionado por preços que apresentam maior demanda no período, casos de carnes (+1,48%) e frutas (+1,26%)”.
“Outra reversão importante veio do grupo de bens industriais, cujo resultado saiu de uma deflação de 0,29% para alta de 0,48% no último mês de 2025, virada provocada pelo fim do efeito de baixa provocado pelos descontos da Black Friday”, explica.
“Seguimos com uma projeção de 4,2% para o IPCA em 2026. Após um período de comportamento mais ameno na segunda metade de 2025, o IPCA deve voltar acelerar no primeiro trimestre do ano em função de fatores sazonais relacionados ao consumo de serviços e o impacto dos reajustes de diversos preços administrados, com destaque para a majoração do ICMS sobre combustíveis e o botijão de gás e reajustes das tarifas de transporte público, já aplicadas em capitais com participação relativa elevada no indicador, como São Paulo”, pontua Pizzani.
“Passado este período, a expectativa é que o IPCA volte a apresentar comportamento mais ameno, tendência alinhada ao cenário de arrefecimento da atividade, afrouxamento do mercado de trabalho e fechamento do hiato do produto”, complementa.
O relatório do Banco Daycoval também afirma que o resultado do IPCA em dezembro “não altera a projeção para inflação de 4,1% em 2026”. “Além disso, reforça nossa expectativa de início do ciclo de cortes da Selic apenas em março de 2026, com taxa terminal em 12%”, diz a instituição financeira.
Segundo o economista Maykon Douglas, a leitura de dezembro reforça que “a inflação ao longo de 2025 mostrou uma composição mais benigna do que o mercado projetava no início do ano passado”. “Gradualmente, o impacto da política monetária contracionista se materializou”, observa.
“Em relação ao IPCA na margem, a inflação de serviços sensíveis à mão de obra voltou a se acelerar quando anualizamos as variações nos últimos três meses, de 6,7% para 7,8%. Tenho comentado que a moderação no mercado de trabalho tem sido bastante gradual. Em dezembro, a taxa de desemprego renovou a mínima histórica, e a população ocupada voltou a crescer”, destaca o economista.
“Ou seja, a inflação permanece na trajetória certa. No entanto, também em razão da dinâmica do mercado de trabalho, creio que o BC manterá certa cautela e cortará os juros em março deste ano, e não em janeiro. Para 2026, projeto uma alta de 4,1% no IPCA.”
