metropoles.com

A Igreja e o mundo (por Pedro Costa)

Chama a atenção a diferença entre o que dizem os papas, inclusive Francisco e Leão XIV, e o engajamento político da maior parte dos pastores

atualizado

Compartilhar notícia

Vatican Media
Papa Leão VIX
1 de 1 Papa Leão VIX - Foto: Vatican Media

Em meados da década de 1960 Maria Celeste Flores da Cunha nos contou uma conversa com seu pai, o velho caudilho gaúcho: “Este Dom Hélder é comunista.” “Mas papai, ele tem o apoio do Papa Paulo VI!” “Desconfio muito deste papa.”

Vivi muito intensamente o tempo dos papas João XXIII e Paulo VI. Eu era adolescente e fiquei empolgado com a realização do Concílio Vaticano II (1962-65) e com as grandes encíclicas dos dois, especialmente Mater et Magistra (1961), Pacem in Terris (1963) e Populorum Progressio (1967). Elas renovam temas da Igreja que reforçavam os valores que aprendia em casa, a começar pela fraternidade humana. Segui, na medida do que entendia, os trabalhos conciliais, que atravessaram os dois pontificados. O aggiornamento era uma revolução profunda.

Essas três cartas tratavam do mundo temporal, portanto, da política. Já a Mater et Magistra aplaudia a descolonização e denunciava “outras formas de colonialismo”: tinha trechos que podiam ser o programa de um partido progressista. A Pacem in Terris insistia no desarmamento, no acolhimento dos migrantes e na importância da ONU. A Populorum Progressio tinha uma linguagem que seria considerada hoje como de extrema-esquerda. Paulo VI falava, por ex., que “povos da fome dirigem-se hoje, de modo dramático, aos povos da opulência [e a] Igreja estremece perante este grito de angústia e convida a cada um a responder com amor ao apelo do seu irmão”; que o capitalismo “entregue a si mesmo, […] arrasta o mundo, mais para a agravação do que para a atenuação da disparidade dos níveis de vida: os povos ricos gozam de um crescimento rápido, enquanto os pobres se desenvolvem lentamente”. Avisa que “no seu egoísmo, as civilizações atualmente florescentes [sacrificam] a vontade de ser mais, ao desejo de ter mais”.

Essa distinção entre o ter e o ser é ainda mais gritante nos dias de hoje. O aviso de Francisco no Laudato Si é poderoso. Mas a surdez é avassaladora. Quando entramos na Quaresma, a grande discussão é a força dos “cristãos”, isto é, a capacidade dos partidos evangélicos de ter mais recursos e mais força política para conseguir o que a doutrina social da Igreja denuncia. Apoiados pelas mídias, que só pensam em $$$, assumem um “conservadorismo” que é, na realidade, apenas egoísmo e ambição.

Chama a atenção a diferença entre o que dizem os papas, inclusive Francisco e Leão XIV, e o engajamento político da maior parte dos pastores evangélicos: enquanto os primeiros defendem a prioridade do ser sobre o ter, os últimos só pensam no ter. Rejeitam o “vos amei uns aos outros”, não recebem a paz que Jesus nos deu. A recusa é de Seu próprio sacrifício, da vida que deu por nós, pois “não há amor maior que este” (João 14 e 15).

A maior parte dos políticos, hoje, procura prometer o que as pesquisas dizem que é a vontade popular. Abdicam, assim, de sua capacidade de liderar e de convencer. As pesquisas, claro, podem ser feitas sobre os pontos mais delirantes, apelando aos mais baixos instintos. Perguntam se as pessoas acham certo o linchamento e elas dizem que sim. Se perguntassem se as pessoas acham certo ter direito à vida, também diriam que sim. São contra a corrupção — quem diz que não é? — e, portanto, dirigidas aos adversários, a quem se acusa de ser “o corrupto”. Afirmam-se os defensores da moral — mas que moral?

Essa defesa hipócrita e radical de modelos que não praticam não é nova: já Catão, o Moço, defendia o mos majorum — os costumes antigos —, mas era bêbado, avarento, ambicioso. Seu ódio a César, provavelmente amante de sua irmã Servília, é conveniente, pois lhe dá o apoio dos optimates, as famílias ricas, que lutam contra os populares. Apoia Cícero na execução sumária dos prisioneiros da conspiração de Catilina — sem o julgamento que César defende. Os catões de hoje têm a mesma ideia, desde que não seja com eles: se fosse seguida, o Bolsonaro estaria morto, em vez de julgado e condenado.

Hoje Catão quer executar Moraes e Toffoli, destruindo o Supremo Tribunal Federal e resgatando Bolsonaro — o Flávio vai ceder o lugar para o pai, que estará miraculosamente curado de soluços, vômitos e quedas de cabeça, noutra prova de sua divindade. A democracia? É mesmo um regime corrupto. A ditadura é que é pura, vejam no espelho o Trump.

Hoje, atacando novamente o Irã, Trump e Netanyahu ultrapassam o pretexto usado por Hitler da presença das populações “alemãs” para invadir outros países: a descolonização, que os dois papas saudavam, é ultrapassada pela necessidade de fingir uma emergência para esmagar a resistência popular. Libertam o povo do Irã, subjugam os palestinos e os americanos.

Na guerra dos moralistas não há regras, a não ser a dos fins, mostram os republicanos ao convocarem a Hillary, que não conheceu o Epstein, e não a Melania, que foi promovida pelo sex-traficante; ou a contagem do ínclito senador Viana, do partido do podemos fazer bandalha, dos votos na CPMI dos que queremos investigar: os ausentes contam em votação simbólica! Segundo o ínclito, estão sentados, portanto são a favor: verificou cada um com seu olhar de Clark Kent.

O Papa Leão XIV começa a falar mais forte sobre a Ucrânia, a Palestina e os Estados Unidos. Ele não precisa fazer uma nova encíclica, basta reeditar as da Paz e da Liberdade.

 

Pedro Costa. Arquiteto e escritor.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?