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Filhos e as sombras dos pais

O abraço à sombra do pai, a vida como satélite, a existência como vontade de potência escassa.

Marco Miguel13/06/2026 12:54, atualizado 13/06/2026 12:56
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Thiago Bonna/Metrópoles
Pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro visita Hospital da Baleia em Belo Horizonte

O filho escolher a mesma carreira de um pai soa a indecisão, comodidade e obediência. O filho estava ali, sem saber o que fazer da vida. O pai, perturbado com a paralisia do rebento, ordena que siga seus passos: caminho trilhado é sempre mais tranquilo. Aí é a hora da verdade para o descendente, a decisão entre a rebelião e a submissão. No primeiro caso, risco e coragem. No segundo, o abraço à sombra do pai, a vida como satélite menor, a existência como vontade de potência escassa.

Fico imaginando Flávio Bolsonaro assumindo uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 2003, com seus vinte e três anos, com toda alegria e ignorância que a idade destila a todos nós. A presença de Queiroz em seu gabinete assemelha-se a de um tutor e configura o controle do pai. Se não  foi Aristóteles ensinando filosofia a Alexandre o Grande, talvez tenha sido um curso prático das rachadinhas de Jair. Duas décadas depois, taí, a direita tem um candidato à espera de um pai.

Não entendo nada de psicologia, mas recomendo terapia. Por isso, não vou consultar alguma inteligência artificial para fingir erudição, nem caçar hipóteses para essa penumbra paterna.

Mas pesquisei sobre Nicolás Maduro Guerra, conhecido como “Nicolasito”. Ganha uma frigideira de indução quem adivinhar seu pai. Sua carreira resume-se a sucessivas nomeações para cargos no chavismo, mas sem uma trajetória política comparável à de Maduro, que foi motorista e operador no Metrô de Caracas e líder sindical; deputado, presidente da Assembleia Nacional, chanceler, vice, presidente, ditador, até chegar à prisão nos EUA. Hoje deputado, teve em seu currículo o cargo de Coordenador da Escola Nacional de Cinema da Venezuela, sem nenhuma experiência em cinema. Em 2015 foi filmado dançando enquanto notas de dólares eram jogadas sobre sua cabeça durante o casamento de um empresário.

Em Israel, o caso de Yair Netanyahu segue uma lógica diferente. Se fosse um Bolsonaro, talvez estivesse mais para Carluxo.  Filho do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Yair ganhou notoriedade por sua atuação nas redes sociais e pela defesa pública das posições do pai. Agressividade, fake news. sua visibilidade decorre muito mais de sua condição de herdeiro político. Enquanto soldados morrem e assassinam civis na Palestina e no Líbano, vive confortavelmente em Miami.

O caso mais dramático talvez seja o de Bashar al-Assad. Diferentemente dos demais, ele efetivamente herdou o comando do Estado. Seu pai, Hafez al-Assad, construiu um dos regimes mais duradouros do Oriente Médio após décadas de atuação militar e política. Bashar, por sua vez, era médico oftalmologista e sequer era o herdeiro originalmente preparado para a sucessão. Somente após a morte de seu irmão mais velho, Bassel al-Assad, passou a ser treinado para assumir o poder. Ao chegar à Presidência em 2000, herdou um sistema político consolidado, mas jamais conseguiu reproduzir a autoridade e a capacidade de controle atribuídas ao pai. Depois de treze anos de guerra civil, seu regime colapsou em dezembro de 2024, encerrando mais de cinco décadas de domínio da família Assad sobre a Síria. Só conseguiu ser mais sanguinário.

Bem diferente é a história de Alina Fernández, filha do ex-presidente cubano Fidel Castro com sua amante Natalia Revuelta. Desiludida com o regime, ela deixou o país secretamente usando um passaporte espanhol falso e disfarçada de turista. Após estabelecer residência em Miami, nos Estados Unidos, tornou-se uma militante anticastrista ativa, denunciando as violações de direitos humanos em Cuba. Em 1998, publicou a autobiografia onde expõe sua conturbada relação familiar e críticas ao sistema político cubano. Pode-se criticar suas posições, mas jamais sua coragem.