
Entre deuses e dados: a natureza sagrada (por Mariana Caminha)
Em cosmologias tão distantes entre si, a natureza nunca aparece apenas como paisagem. Ela tem força. Tem personalidade. E merece reverência

Outro dia me peguei pensando em como nós, seres humanos, passamos milhares de anos tentando dar nomes à natureza.
Ao mar. Ao vento. À chuva. À fertilidade da terra.
Antes que existissem satélites capazes de acompanhar do espaço a formação de um furacão, modelos climáticos que projetam a temperatura do planeta até o fim do século ou relatórios que calculam, em toneladas, a quantidade de carbono lançada na atmosfera, havia histórias. Histórias fantásticas.
E havia deuses.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesNa Grécia antiga, Poseidon governava os mares. Deméter estava ligada à agricultura e às colheitas. Ártemis habitava simbolicamente o mundo selvagem. E, antes deles, estava Gaia, a própria Terra transformada em divindade.
A milhares de quilômetros dali, tradições religiosas africanas construíram outras cosmologias, com histórias, significados e relações próprias com o mundo natural. No Candomblé, os orixás estão profundamente associados às forças da natureza.
Oxum está ligada às águas doces e aos rios. Iemanjá, ao mar. Iansã, aos ventos e às tempestades. Oxóssi, às matas. Xangô, ao fogo e ao trovão. Ossain, às folhas e ao conhecimento das plantas.
Não se trata, evidentemente, de dizer que essas tradições são equivalentes. Não são. Nasceram em sociedades diferentes, carregam histórias diferentes e ocupam lugares muito distintos no mundo contemporâneo — inclusive porque as religiões de matriz africana continuam sendo alvo de intolerância e racismo religioso no Brasil.
Mas há algo que me interessa nessa aproximação. Em cosmologias tão distantes entre si, a natureza nunca aparece apenas como paisagem. Ela tem força. Tem personalidade. E merece reverência.
Em algum momento, fomos nos afastando dessa ideia.
A modernidade nos ensinou, de muitas maneiras, a enxergar a natureza como recurso. A floresta virou madeira, minério e hectares produtivos. O rio virou potencial hidrelétrico ou canal de irrigação. O petróleo, aprisionado durante milhões de anos no subsolo, virou combustível.
Passamos a falar da natureza quase sempre em termos do que ela poderia nos oferecer e fomos esquecendo de perguntar o que deveríamos oferecer em troca – ou, ao menos, quais limites deveríamos respeitar.
Diante de tantas ondas de calor, secas, enchentes e vendavais, vemos de maneira cada vez menos sutil que a natureza não é passiva. E não é vingança, não. A ciência explica esses processos sem precisar recorrer à vontade dos deuses.
É física pura.
Na lição que essa física nos oferece, no entanto, há quase um toque de magia: existem forças maiores do que nós. Os antigos sabiam disso.
Quem imaginava um deus habitando o mar sabia que o mar merecia respeito. Quem reconhecia o sagrado nas águas, nas folhas, nas matas, nos ventos ou no trovão estabelecia com esses elementos uma relação que não era apenas econômica.
É claro que ninguém é santo – nem mesmo os antigos. Civilizações derrubaram florestas, modificaram paisagens, guerrearam por recursos e provocaram impactos ambientais muito antes de inventarmos a expressão “mudanças climáticas”.
Mas havia, em muitas dessas cosmologias, a ideia de que a natureza também pertencia ao território do sagrado. E há algo importante nisso. Porque é muito mais fácil destruir aquilo que enxergamos apenas como recurso do que aquilo diante do qual aprendemos a prestar reverência.
Curiosa a constatação de que nunca compreendemos tanto a natureza. Sabemos, hoje, muito mais sobre o funcionamento do planeta do que qualquer sociedade que veio antes de nós. Conseguimos medir a concentração de CO₂ na atmosfera, reconstruir temperaturas de milhares de anos atrás, observar o derretimento de geleiras por satélite e calcular quanto o nível do mar poderá subir.
Paradoxalmente, talvez nunca tenhamos vivido tão convencidos de que estamos separados dela, a natureza.
Construímos cidades climatizadas, desviamos rios, perfuramos montanhas, atravessamos oceanos em poucas horas. Criamos uma civilização tão sofisticada que, às vezes, parece possível esquecer que continuamos dependendo de coisas elementares: água, solo, chuva, temperatura, ar.
Até que o rio transborda. A chuva não vem. O termômetro passa dos 40 graus. O vento derruba árvores, fecha aeroportos e interrompe cidades inteiras.
E então nos lembramos de algo que os antigos transformaram em deuses e que a ciência moderna transformou em dados: nunca estivemos fora da natureza.
Talvez tenhamos apenas passado alguns séculos acreditando que estávamos.
A crise climática pode ser a mais dura resposta a essa ilusão.

